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No Dia de Cosme e Damião, um pedido de proteção contra a violência infantil

Imagem dos santos na cerimônia da festa em comemoração ao dia de São Cosme e Damião no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP) - Ana Ottoni/28.set.1994 - Folhapress
Imagem dos santos na cerimônia da festa em comemoração ao dia de São Cosme e Damião no Memorial da América Latina, em São Paulo (SP) Imagem: Ana Ottoni/28.set.1994 - Folhapress
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

27/09/2020 04h03

27 de setembro é o dia dedicado a Cosme e Damião, mártires da Igreja Católica que morreram defendendo o cristianismo.

A história conta que seriam irmãos e médicos e que andavam sempre juntos a atender doentes, no Oriente.

No encontro da religião cristã com o Candomblé e a Umbanda no Brasil, os médicos foram associados às entidades gêmeas, chamadas de Ibejis, Vunjis ou Erês.

Nas religiões de matriz africana, os gêmeos Cosme e Damião são crianças e estão relacionados às boas energias da infância.

Para celebrar, no dia são distribuídos doces e guloseimas.

Na Bahia, há ainda uma farta distribuição de caruru, comida feita com quiabo, camarão seco e azeite de dendê que está no cardápio de baianos de todas as religiões.

Uma celebração da infância

A tradição relacionada aos gêmeos pede que o caruru seja ofertado completo, ou seja, acompanhado de outras iguarias como vatapá, farofa de azeite, xinxim de galinha, feijão fradinho, acarajé, banana frita, pipoca, entre outras delícias. Cada uma associada à uma entidade do culto afrobrasileiro.

A celebração a Cosme e Damião é, portanto, uma festa de união, tendo as crianças como protagonistas.

Feliz daquela casa que consegue reunir sete meninos para iniciar a comilança, que além do caruru, tem doces e música.

Em algumas, a comida é servida às crianças em um único recipiente, tornando a "balbúrdia" ainda maior.

Ibejis - Reprodução/iQuilibrio - Reprodução/iQuilibrio
No Candomblé e na Umbanda os santos gêmeos são chamados Ibejis, Vunjis ou Erês
Imagem: Reprodução/iQuilibrio
Choque entre religiões afeta a festa

O Brasil já cerceou a liberdade de culto dos descendentes de africanos e criminalizou manifestações culturais negras como o samba e a capoeira, por meio da Lei da Vadiagem.

Cosme e Damião, ou "Dois Dois" como são chamados os gêmeos, remetem à cultura liberta das amarras.

"Vadeia, Dois Dois" é o comando para as brincadeiras e traquinagens infantis.

Atualmente essa tradição enfrenta a resistência de igrejas neopentecostais, que não permitem que seus fiéis continuem participando desta celebração.

Não tem sido raro presenciar, em bairros periféricos de Salvador, crianças recusando balas e o caruru por conta da religião.

Vítimas da violência

A permanência da celebração à infância, em meio aos festejos a Cosme e Damião, desafia um país que tem maltratado suas crianças.

Há um ano, no mês de setembro, a garota Ágatha Felix de oito anos morreu após ser atingida por uma bala de fuzil, dentro de uma kombi, quando retornava para casa no Morro do Alemão, Rio de Janeiro.

A primeira audiência do caso Ágatha, que tem como acusado dos disparos um policial militar, está marcada para novembro.

De acordo com o levantamento realizado pela plataforma Fogo Cruzado em municípios do Rio, depois de Ágatha, outras 28 crianças foram baleadas e oito não resistiram e morreram.

Ágatha Felix - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Um ano após o assassinato da menina Ágatha Félix, família aguarda primeira audiência
Imagem: Arquivo pessoal
Mais perdidas que as balas são as vidas das crianças

Nem todas foram vítimas da chamada "bala perdida".

Em junho desde ano, Douglas Enzo comemorava seu aniversário de 4 anos em casa em Magé, na Baixada Fluminense, quando foi baleado no peito. Investigações da Polícia Civil concluíram que o atirador teve intenção de matar a criança.

A plataforma digital colaborativa Fogo Cruzado registra dados de violência armada também no Recife.

Na capital pernambucana, 80 adolescentes foram baleados em 2020, 48 deles morreram. O número é 8% maior que do ano passado.

Menino Miguel

Quem também aguarda a primeira audiência na Justiça é a família de Miguel Otávio Santana Silva, de cinco anos, que morreu após cair do 9º andar de um prédio residencial de luxo de Recife.

Imagens do circuito de segurança revelam que Sari Corte Real, ex-patroa da mãe de Gabriel, apertou o botão do elevador do prédio e deixou o menino sozinho, antes do acidente. Ele estava sob os cuidados dela, enquanto a doméstica passeava com o cachorro da família.

Sari está em liberdade, respondendo por homicídio culposo. A família e ativistas se mobilizam para que a tipificação do crime seja alterada para homicídio doloso, quando o autor assume o risco.

Quando o perigo está em casa

No Brasil de pandemia e aulas presenciais suspensas, as crianças estão confinadas em lares onde, em muitos casos, a violência doméstica cresceu.

O número de denúncias feitas por meio da Central de Atendimento 180, do Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos aumentou, em média, 14,1% nos primeiros quatro meses de 2020 em relação ao ano passado.

Caso Miguel - AFP - AFP
Familiares e manifestantes cobram justiça pela morte do menino Miguel
Imagem: AFP

O ministério, comandado pela pastora Damares Alves, é alvo de críticas pelas decisões de viés religiosos na gestão do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), que tem sido esvaziado em recursos e participação da sociedade civil.

A ministra também tem sido questionada pela atuação da pasta no caso da garota de dez anos que engravidou após ser estuprada pelo tio, no Espírito Santo. Para preservar a vida da menina, a gravidez foi interrompida.

A dificuldade para que a lei de proteção à vítima fosse cumprida e as polêmicas criadas por grupos religiosos radicais tornaram o caso emblemático do tratamento dado à infância no país.

A alegria em torno da distribuição de doces neste domingo acende a esperança de que as boas vibrações que envolvem a tradição de Cosme e Damião possibilitem a superação das barreiras religiosas e ideológicas, garantindo infâncias preservadas de todas as formas de violência.

Bejeró! é a saudação que os santos gêmeos recebem nos terreiros do Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.