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Presidente da Fundação Palmares precisa ler os livros que o pai escreveu

Oswaldo de Camargo, pai de Sergio Camargo, é ícone do movimento negro no Brasil - Reprodução /Diálogos Ausentes
Oswaldo de Camargo, pai de Sergio Camargo, é ícone do movimento negro no Brasil Imagem: Reprodução /Diálogos Ausentes
André Santana

André Santana é jornalista, cofundador do Instituto Mídia Étnica e do portal Correio Nagô

Colunista do UOL

18/10/2020 04h02

O atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sergio Camargo, tenta destruir uma luta histórica, construída por um movimento que teve como um dos protagonistas, seu pai, Oswaldo de Camargo.

Nascido em 1936, em Bragança (SP), o poeta, ficcionista, crítico literário, jornalista e músico Oswaldo de Camargo, desde a juventude deu a sua contribuição ao movimento que o filho chamou de "escória maldita" que abriga "vagabundos".

Em entrevista recente, Oswaldo afirmou pertencer ao "mais antigo movimento negro do país, feito com palavras", em referência à sua atuação na imprensa e na literatura.

Na década de 1950, participou de entidades negras, como a Associação Cultural do Negro, em São Paulo, em um momento de extrema segregação racial de um país que não dava ouvidos às vozes que se rebelavam contra o racismo.

Seu primeiro livro de poemas, "Um Homem Tenta Ser Anjo", foi publicado em 1959. Logo depois lançou "15 Poemas Negros", em 1961, com prefácio do sociólogo Florestan Fernandes. No mesmo período contribuía em veículos da imprensa negra paulista, como os jornais Novo Horizonte e O Ébano e a revista Níger, da qual foi redator-chefe.

Livro Raiz do um negro brasileiro - Reprodução - Reprodução
Autobiografia lançada em 2015
Imagem: Reprodução
Cadernos Negros: um marco

Em 1978, em plena ditadura militar (1964-1985), Oswaldo de Camargo integrou o grupo que criou a publicação Cadernos Negros, uma das mais importantes iniciativas para a divulgação da literatura feita por pessoas negras no Brasil.

Oswaldo Camargo foi a ponte necessária entre os pioneiros na luta pela inserção na sociedade pós-escravidão e uma nova geração que utilizava a escrita para exigir o reconhecimento da contribuição dos negros ao país.

Até hoje, Cadernos Negros, publicado pelo QuilombHoje, é responsável pela circulação de poesias e contos produzidos por escritores negros e negras de todo o país.

Negro escrito

Oswaldo de Camargo é autor de cerca de 20 obras, entre poesia, ficção, biografia de poetas negros, críticas e ensaios literários. Além de participações em uma dezena de antologias.

O livro "Negro Escrito: Apontamentos sobre a Presença do Negro na Literatura Brasileira", de 1987, é considerado um dos mais importantes para a construção de uma consciência negra no Brasil. Na obra, Oswaldo faz um mapeamento histórico e crítico dos pioneiros na literatura afrobrasileira e de expressivos nomes do século 20.

Com o filho, "distância de ideias"

Em um raro momento em que se posicionou sobre o comportamento do filho à frente do órgão público de preservação da arte e cultura negras, Oswaldo de Camargo disse que nunca houve atrito entre eles e "apenas há a distância de ideias, um valor bastante fundo". E recomendou:

Nessa história da Fundação Palmares, a despeito de toda a revisão que se tente, persistirá o que tiver solidez histórica e cultural. A única fórmula para saber mesmo qual é minha posição diante da gestão do Sérgio é ler meus livros.

A Companhia das Letras já anunciou para 2021 o relançamento de três obras de Oswaldo de Camargo: "15 Poemas Negros"; o livro de contos "O Carro do Êxito", de 1972, e a novela "A Descoberta do Frio", de 1979.

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, posa ao lado de foto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Sergio Camargo, presidente da Fundação Palmares, critica constantemente o movimento negro e representantes da cultura afro
Imagem: Reprodução/Facebook
Fundação foi criada no Centenário da Abolição

A Fundação Cultural Palmares foi criada em 1988, ano em que o movimento negro se organizou em todo o país para desmontar uma tentativa de celebração festiva ao centenário da abolição oficial da escravidão no Brasil.

Ao invés de festa, houve muita denúncia contra o racismo e a falta de políticas públicas para concluir a abolição inacabada.

No lugar do 13 de maio, o movimento negro declarou o 20 de novembro — morte de Zumbi dos Palmares — a data representativa da resistência à opressão racial.

No poema "Em Maio", de 1987, Oswaldo de Camargo descreve assim a liberdade celebrada na praça, em maio:

"É uma senhora esquálida, seca, desvalida

e nada sabe de nossa vida.

A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,

vem montada no ombro dos moleques

e se esconde

no peito, em fogo, dos que jamais irão

à praça.

Sergio Camargo ataca Zumbi e retira apoio ao 20 de Novembro

Já o filho, Sergio Camargo, que já xingou Zumbi, preferiu celebrar o 13 de maio e declarou que a Fundação Palmares não dará nenhum apoio às atividades do 20 de novembro.

Cumprindo uma agenda bolsonarista de caça ideológica a diversos movimentos de afirmação de direitos, liberdades e lutas por cidadania, Sergio integra esse momento em que, como diz os versos do pai:

"sopram ventos desatados

por mãos de mando, turvam o sentido

do que sonhamos".

A história mostrará a brevidade das declarações do filho e a eternidade das obras do pai.

O movimento negro, que nunca navegou em mares calmos, permanecerá... Faça tempo bom ou tempo ruim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.