André Santana

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Opinião

'Racialização' de brancos motivou demissão da assessora de Anielle Franco

Agiu corretamente a ministra Anielle Franco ao exonerar Marcelle Decothé da Silva do cargo de chefe da assessoria especial do ministério da Igualdade Racial. A servidora utilizou a sua rede social para fazer piadas preconceituosas contra os torcedores do São Paulo e ofensas aos paulistas.

Não havia outra saída para a ministra em meio à pressão que tomou as redes sociais e veículos de imprensa. Agiu rapidamente antes que o racismo e o machismo das críticas avançassem para o ministério como um todo. Aliás, já havia uma hashtag pedindo a saída também da ministra.

Ministério é alvo de ataques de quem ainda nega o racismo

Nesses nove meses de trabalho, o Ministério da Igualdade Racial sofre uma perseguição desigual e um ataque orquestrado nas redes.

Sabemos da má vontade de muitos brasileiros com a pauta tão sensível e necessária que o recém-criado ministério atende. No Brasil, ainda há os que neguem a existência do racismo e que se coloquem contrários às políticas públicas que tentam eliminar esse problema estrutural da nação.

Não havia outra postura possível que não fosse cortar na própria pele, exonerando uma profissional de extenso currículo de formação e atuação na área dos Direitos Humanos e em projetos sociais e comunitários.

Assessora errou ao reproduzir 'racialização' reducionista

Marcelle Decothé é competente e tem longa contribuição às causas sociais, mas errou feio neste episódio do estádio.

Primeiro por utilizar uma generalização que reduz de forma pejorativa um grupo tão diverso, como são os torcedores de um time ou os nascidos no maior estado do país. Nas redes sociais, pessoas pretas e pobres se manifestaram, como torcedores do clube em questão e frequentadoras de estádios de futebol, já que ainda resta essa função democratizante do futebol.

A comparação não é simétrica, mas pode-se dizer que Decothé agiu de modo parecido com a forma estereotipada e generalizante com que os racistas brasileiros se referem a comunidades pobres, de maioria negra, e a tudo que vem deste grupo racial, seja a cultura, os traços fenotípicos ou o modo de viver.

Não há exata simetria, reforço, porque mesmo os mais radicais que bravaram contra as postagens da assessora sabem que as piadas feitas por ela ofendem e agridem, mas não desumanizam, nem matam como o racismo contra pessoas pretas faz cotidianamente neste país.

O que ela fez foi nomear atos de um grupo social e racial não acostumado a ser classificado. Ao contrário, como modelo padrão, são os brancos que historicamente nomeiam os outros: os negros, os indígenas, os LGBTs, os nordestinos etc.

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Brancos, paulistas, descendentes de europeus, com razão, não gostaram de sentir na pele o processo de 'racialização' que o racismo normatizou em relação os negros, que descendem da África. Dói mesmo.


Mulheres negras não são bem-vindas na fotografia do poder

O segundo erro da assessora foi esquecer o quanto a ação de mulheres negras em espaços de poder (por mínimo que seja) é vigiada, com olhar de má vontade, descrédito e torcida para que o erro aconteça.

Uma presença indesejada de mulheres negras na gestão pública causa a fixação da atenção racista e machista na única expectativa de encontrar razões para a retirada desses corpos intolerados da histórica fotografia do poder, sempre branco e masculino.

Se não fosse assim não estaria em vigor no país, neste momento, uma campanha para pedir algo tão óbvio quanto necessário: a indicação de uma mulher negra ao STF (Supremo Tribunal Federal).

O presidente da nação, com uma visão distorcida da atualidade, quis esvaziar o debate, dizendo que raça e gênero não serão critérios para a escolha de quem substituirá a ministra Rosa Weber no STF.

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Como, então, Lula explicaria o predomínio de homens brancos nos espaços de poder e decisões do seu próprio governo, nas instâncias da Justiça brasileira, incluindo o STF, e nas cúpulas dos partidos políticos, sejam de esquerda ou de direita?

Se raça e gênero não são critérios de escolha, é coincidência que o poder no Brasil seja majoritariamente branco e masculino?

Ministras negras exoneradas e difamadas

O descuido de Marcelle Decothé a fez esquecer os episódios de linchamento e exclusão sumária que outras mulheres negras já sofreram neste país porque ousaram disputar esses locais de poder, mesmo em gestões que pareciam democráticas e com compromisso com a eliminação das desigualdades.

Não dá para esquecer a forma como a ministra Benedita da Silva, da Assistência e Promoção Social e a ministra Matilde Ribeiro, da mesma pasta de Decothé, da Promoção da Igualdade Racial (que antes era uma secretaria) foram demitidas da equipe do presidente Lula.

Benedita, de longa contribuição ao Partido dos Trabalhadores, sendo uma das poucas negras de projeção nacional no partido e que mantém atuação nas bases comunitárias ignoradas pelos demais companheiros, foi acusada de gastos indevidos no ministério, com viagens internacionais na companhia de assessores. Ela foi exonerada em janeiro de 2004, em apenas um ano de gestão do primeiro governo Lula.

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Já Matilde Ribeiro, que enfrentou o desafio de liderar pela primeira vez no país políticas institucionais de combate ao racismo, foi exonerada em 2008 por uso indevido de cartões corporativos. Com hombridade, a então ministra assumiu que o engano foi causado por seguir orientação de assessores para gastos com passagens e hospedagens, em razão da precária estrutura administrativa da pasta.

Sem defesa, nem mesmo dos companheiros de partido, as duas foram exoneradas sumariamente e difamadas pela imprensa. Tal qual a ex-presidente Dilma Rousseff, que sofreu todos os ataques misóginos que o patriarcado pôde deferir contra uma mulher, que também ousou, exercer o poder neste país machista.

No fundo é racismo

Perseguição misógina e racista semelhante vem sofrendo a ministra Anielle Franco, que tenta atuar na transversalidade que a pauta da igualdade racial exige, à frente do ministério que tem o menor orçamento da Esplanada.

No episódio do estádio, tentaram atacar a ministra com o questionamento sobre o uso do avião da FAB, que é devidamente regulamentado para viagens de serviço. Anielle estava trabalhando naquele domingo em que assinou um acordo com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para combater o racismo no futebol.

Se agora reclamam da viagem de avião, meses atrás a crítica foi ao deslocamento da ministra na garupa de uma moto pelo Complexo da Maré, comunidade carioca na qual Anielle nasceu e foi criada.

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Tentarão encontrar falhas para descredibilizar as ações do ministério, alegarão preocupação com os recursos públicos, com a postura do cargo, apontarão atitudes pessoais como erros institucionais, mas sabemos que no fundo a motivação para os ataques é o racismo.

Marcelle Decothé errou nas piadas preconceituosas, na euforia futebolística, mas cometeu erro ainda maior ao ignorar que não há segunda chance para mulheres negras, especialmente na política, onde não há anistia ou condescendência com as pretas.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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