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Balaio do Kotscho

Bolsonaro agora tem uma Gestapo para chamar de sua

10.jun.2020 - O ministro da Justiça, André Luiz Mendonça - Edu Andrade/Fatopress/Estadão Conteúdo
10.jun.2020 - O ministro da Justiça, André Luiz Mendonça Imagem: Edu Andrade/Fatopress/Estadão Conteúdo
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

04/08/2020 13h40

"Eu criei um monstro", lamentava-se o general Golbery do Couto e Silva ao falar do Serviço Nacional de Informações, o famigerado SNI da ditadura militar, que só seria extinto pelo ex-presidente Fernando Collor, em 1990.

No momento mais tenso da fatídica reunião ministerial de 22 de abril, olhando fixamente para Sergio Moro, que se fingia de morto, o presidente Bolsonaro queixava-se exatamente da falta de um serviço de informações confiável, tanto que foi obrigado a montar um esquema particular.

Moro seria ejetado do governo dias depois, quando Bolsonaro trocou o chefe da Polícia Federal, sem comunicar seu então ministro da Justiça, que só foi informado pelo Diário Oficial.

Naquele momento, o Estado brasileiro já contava com 42 (sim, quarenta e duas) agências de inteligência e informação, segundo o site especializado DefesaNet, mas o ex-capitão ainda não estava satisfeito.

Na última sexta-feira, Bolsonaro criou por decreto o seu novo SNI, agora com o nome de Centro de Inteligência Nacional (CIN), como informou o jornal O Globo.

No emaranhado de siglas de serviços secretos para espionar opositores do governo, que se espalham por ministérios e empresas públicas, o CIN vem se somar ao SISBIN, o Sistema Brasileiro de Inteligência, do qual faz parte a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional.

A Abin, como sabemos, é chefiada pelo notório delegado federal Alexandre Ramagem, um amigo da família que Bolsonaro queria colocar no comando da Polícia Federal, mas foi impedido pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.

As medidas previstas no decreto que cria o CIN entram em vigor no próximo dia 17 e, a partir desta data, Ramagem terá um mês para publicar a relação de titulares dos cargos comissionados da nova estrutura.

Não será certamente por falta de informações que o governo deixará de funcionar, agora que conta com um arsenal de espionagem política para Gestapo (acrônimo em alemão de Geheime Staatspolizei) nenhuma botar defeito.

Como se trata de serviços secretos, nunca saberemos o tamanho dos contingentes humanos e recursos públicos colocados à disposição desta mega estrutura, que agora ganha a sua 43ª sigla com o CIN.

São tão secretos esses serviços que o ministro da Justiça, André Mendonça, nada sabia sobre o dossiê contra o "movimento antifascista" preparado em junho pela Secretaria Especial de Operações Policiais Integradas (Seopi), revelado pelo repórter Rubens Valente aqui no UOL.

Além desse aparato, o governo federal poderá contar também com a colaboração das P-2, os serviços secretos das 27 Polícias Militares dos estados e do Distrito Federal, uma força auxiliar do Exército, onde o bolsonarismo nada de braçada desde a campanha eleitoral.

Em linhas gerais, segundo o decreto, o CIN se destinará a planejar e executar atividades de inteligência destinadas "ao enfrentamento de ameaças à segurança e à estabilidade do Estado e da sociedade" e implementar a "produção de inteligência corrente e a coleta estruturada de dados", seja lá o que isso quer dizer.

Caberá também ao Centro de Inteligência Nacional "realizar pesquisas de segurança para credenciamento e análise de integridade corporativa", segundo O Globo.

Em tempo: antes que descubram, informo que faço parte da ALA (Academia de Litros Antifascista), uma confraria informal de escritores e músicos que se reúne uma vez por mês para tomar vinho e jogar conversa fora.

O elemento mais beligerante dessa turma é o grande Tom Zé, um velho amigo que não faz mal a ninguém.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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