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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Calheiros e Lira antecipam disputa em eleição tampão ao governo de Alagoas

Renan Calheiros e Arthur Lira disputam protagonismo na política alagoana - Arte/UOL
Renan Calheiros e Arthur Lira disputam protagonismo na política alagoana Imagem: Arte/UOL
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

01/05/2022 04h00

Um mês após a renúncia de Renan Filho (MDB), 16 nomes disputam amanhã a eleição indireta para governador e vice de Alagoas. A escolha de quem ficará na chefia do Poder Executivo até 31 de dezembro será feita em votação aberta, marcada para as 10h na Assembleia Legislativa, em Maceió.

Entre os nomes na disputa estão de influenciador digital a bombeiro, além de três deputados estaduais —que representam grupos fortes locais ou nacionais e dividem a atenção na disputa de hoje.

O maior embate, porém, envolve os nomes dos bastidores: o senador Renan Calheiros (MDB) e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). Ambos lideram os maiores grupos políticos do estado e têm candidatos representados para a eleição de amanhã.

Na sexta-feira, os dois líderes trocaram acusações duras pelas redes sociais, logo após o Tribunal de Justiça derrubar uma liminar e confirmar a votação antes suspensa (veja mais abaixo).

Mandato tampão

O mandato-tampão é necessário porque o governador Renan Filho renunciou para se candidatar ao Senado em outubro. Já o vice-governador eleito em 2018, Luciano Barbosa (MDB), também renunciou ao cargo em 2020 para ser candidato a prefeito de Arapiraca. Ele venceu a disputa.

Terceiro na linha de sucessão, o presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Marcelo Victor (MDB), abdicou do cargo temporário porque, se assumisse, estaria impedido de disputar a reeleição para renovar seu mandato como parlamentar.

Com isso, o governo de Alagoas está desde o dia 2 de abril nas mãos do presidente do Tribunal de Justiça, o desembargador Klever Loureiro.

A votação de amanhã ocorre em sessão pública, com voto aberto e separado dos 27 deputados (vota-se duas vezes: uma para governador, outra para o vice). Como a inscrição também foi separada, somente oito nomes se inscreveram e vão concorrer ao cargo de vice-governador. Os dois eleitos tomam posse de imediato.

Assembleia deve realizar escolha para governador e vice na segunda-feira - Assembleia/Divulgação - Assembleia/Divulgação
Plenário da Assembleia vai realizar escolha para governador e vice
Imagem: Assembleia/Divulgação

Aliado de Calheiros favorito

O favorito para ser eleito é o deputado Paulo Dantas (MDB). Apoiado por Renan Filho e pelo senador Calheiros, ele conta com o voto de (ao menos) os outros 14 colegas e deputados estaduais do MDB na casa. Ou seja, basta apenas que não haja falta ou traição para que ele vença.

A bancada do MDB, ressalte-se, não era grande até a janela partidária em março, que resultou na filiação de 11 deputados estaduais no partido liderado pelos Calheiros.

Dantas, por sinal, já foi escolhido pelo MDB para disputar a eleição representando o grupo que venceu as duas últimas eleições no estado.

Procurado pela coluna, Paulo Dantas não quis falar sobre a expectativa para eleição de amanhã.

Renan Calheiros ao lado de Paulo Dantas, no dia de oficialização de candidatura na Assembleia - Divulgação/Assembleia - Divulgação/Assembleia
Renan Calheiros ao lado de Paulo Dantas, no dia de oficialização de candidatura na Assembleia
Imagem: Divulgação/Assembleia

Do outro lado, correm por fora os deputados Davi Maia (União Brasil) e Cabo Bebeto (PL), que apostam em uma zebra (leia-se traições emedebistas) para uma vitória amanhã.

Maia representa o grupo político liderado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). Ele também tem o apoio do senador Rodrigo Cunha (União). Na Assembleia, ele se destacou como um dos maiores opositores do governo de Renan Filho.

À coluna, ele disse que ainda espera que a eleição seja suspensa, porque ela seria "inconstitucional" por ser separada entre governador e vice. "Eu coloquei essa candidatura até mesmo como protesto", afirma.

"Sou o único candidato que entregou plano de governo no registro da candidatura para que se faça uma discussão democrática. Isso é um governo transitório, e até o momento não tem nenhuma discussão, não se sabe que o candidato majoritário, dos Calheiros, vai fazer nesses setes meses de governo", completa.

Já o Cabo Bebeto é deputado de primeiro mandato. Eleito em 2018 na onda bolsonarista, ele é o represente fiel do pensamento liderado pelo presidente Jair Bolsonaro. Não é esperado que ele tenha uma boa votação amanhã.

Bebeto reclamou da ação para suspender a eleição e diz que o adiamento seria ruim para o estado. "Eu ouvi alguns juristas, e disseram que isso vai ferir a Constituição. Algumas pessoas questionam que Alagoas vai ficar sem governador, e aí temo pela questão financeira do estado", afirma.

Após publicação da matéria, a assessoria de imprensa de Artur Lira disse que Maia não é o seu candidato.

"A minha luta e dos alagoanos é não permitir que o estado seja entregue à Assembleia Legislativa com uma falta de responsabilidade administrativa para que não loteie e não se faça política em cima de ilegalidades inconstitucionais. Isso que nós estamos debatendo. Não há embate na Assembleia contra o candidato da Assembleia", afirmou.

Cabo Bebeto e Davi Maia em evento: ambos fazem oposição aso Calheiros - Divulgação - Divulgação
Cabo Bebeto e Davi Maia em evento: ambos fazem oposição aos Calheiros
Imagem: Divulgação

Disputa local

A cientista política e professora da Ufal (Universidade Federal de Alagoas) Luciana Santana afirma que os candidatos da eleição indireta têm relação com personalidades da política nacional, mas lembra que nem todos os polos locais estão representados na disputa de amanhã.

"Um outro grupo que não aparece nessa disputa, mas que vem forte para a eleição do governo, é o do ex-prefeito de Maceió, Rui Palmeira [PSD]. O seu grupo não apresentou nome para disputar o governo tampão, mas tem chances hoje na competição política", afirma.

Santana explica que a eleição de amanhã, apesar de representar nomes fortes, será decidida por uma costura política local —diferentemente do que deve ocorrer no primeiro e segundo turnos. "O que sabemos é que o Paulo Dantas deve ser eleito [amanhã]. Mas a gente não pode desconsiderar que há fatores e apoios nacionais que podem impactar e influenciar na eleição de outubro", conclui.

O também cientista político da Ufal Ranulfo Paranhos lembra que, dos grupos políticos representados, apenas Paulo Dantas será candidato em outubro, apoiado pela família Calheiros.

"O grupo do Arthur Lira, que apoia hoje Davi Maia, está tentando costurar uma aliança com o senador Rodrigo Cunha [União Brasil], que hoje lidera as intenções de voto. Lira está tentando emplacar a sua prima, Jó Pereira [PSDB], que é deputada estadual, como vice. Já o Cabo Bebeto não vai arriscar uma campanha para governador do estado e perder uma reeleição", afirma, citando que Cunha não deverá dar palanque a Jair Bolsonaro.

Senador Rodrigo Cunha é quem deve ter o apoio de Arthur Lira na eleição de outubro - Waldemir Barreto/Agência Senado - Waldemir Barreto/Agência Senado
Senador Rodrigo Cunha é quem deve ter o apoio de Arthur Lira na eleição de outubro
Imagem: Waldemir Barreto/Agência Senado

Imbróglio judicial

A eleição desta segunda-feira foi marcada por indefinição judicial até a sexta-feira, quando o presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas em exercício, José Carlos Malta Marques, cassou a liminar que suspendia a votação.

O pedido para a suspensão da eleição indireta havia sido feito pelo PSB, partido liderado no estado pelo prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC. Ele alegou que a votação aberta e com chapas separadas feria a Constituição, e o pedido foi acolhido em primeira instância.

Malta Marques, porém, afirmou que a decisão da primeira instância impedia o "regular funcionamento dos Poderes Executivo e Legislativo estaduais, paralisando a escolha dos sucessores do governador e do vice-governador".

A ação apontou que o edital das eleições fere as Constituições federal e estadual ao prever voto aberto dos deputados e escolha separada de governador e vice.

Na quarta-feira, a juíza Maria Ester Manso, da 18ª Vara Cível da Capital, chegou a determinar a suspensão da eleição indireta.

Ela alegou que o edital tinha "um descompasso com as disposições moldadas pelas Constituições Federal e Estadual" e disse que os candidatos a governador e a vice "deverão ser registrados de forma conjunta, através de chapa única e indivisível para os referidos cargos".