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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Saúde apura uma morte e 16 casos suspeitos de hepatite infantil misteriosa

Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru (PE), recebeu criança que ficou internada por mais de uma semana - Secretaria de Saúde de Pernambuco
Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru (PE), recebeu criança que ficou internada por mais de uma semana Imagem: Secretaria de Saúde de Pernambuco
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

10/05/2022 16h39Atualizada em 10/05/2022 19h16

Menos de um mês após alarmar a Europa, casos suspeitos de hepatite aguda grave em crianças foram registrados em três regiões do Brasil. Após as primeiras notificações nas regiões Sul e Sudeste, ontem (9) foi a vez da Secretaria de Saúde de Pernambuco informar o registro da doença de origem ainda desconhecida.

Hoje, no país, são 16 casos suspeitos em investigação pelo Ministério da Saúde em seis estados, além da morte de um bebê.

A pasta informou à coluna que todos os casos estão sendo investigados e que o Cievs (Centros de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde) e a Rede Nacional de Vigilância Hospitalar "monitoram qualquer alteração do perfil epidemiológico, bem como casos suspeitos da doença".

O ministério orienta os profissionais de saúde a notificar imediatamente os casos suspeitos.

A nova manifestação da hepatite elevou a gravidade da doença. Na Europa, as crianças têm necessidade de transplante de fígado em um a cada dez casos, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde).

"Temos [nos vírus já conhecidos de hepatite] um caso entre mil e 10 mil que pode evoluir para forma fulminante. Esse percentual de um a cada 10 é grande, indica uma doença bem mais grave que a que vemos hoje", afirma o professor e hepatologista do Complexo Hospitalar da UFC (Universidade Federal do Ceará) José Milton de Castro Lima.

Logo da OMS na sede da entidade em Genebra - Denis Balibouse/Reuters - Denis Balibouse/Reuters
Logo da OMS na sede da entidade em Genebra
Imagem: Denis Balibouse/Reuters

Casos em Pernambuco

No caso notificado ontem, em Pernambuco, a Secretaria de Saúde informou que se trata de uma criança de 1 ano, do sexo masculino, que mora em Toritama (165 km do Recife), no agreste.

O bebê precisou ser internado no Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, no dia 27 de abril. "O paciente, que apresentou quadro de febre, rash cutâneo [erupções] e dor abdominal com hepatomegalia [fígado aumentado], foi acompanhado pela equipe, apresentou melhora clínica e recebeu alta hospitalar no dia 6", diz o texto.

O caso chama a atenção por se tratar de uma cidade distante de onde outros casos surgiram no país (no Sul e Sudeste, leia mais abaixo).

A coluna procurou a Prefeitura de Toritama, que não soube informar se a criança viajou ou teve algum contato com algum viajante recentemente.

Segundo o município, o caso está em avaliação e, por precaução, a criança está em isolamento. A partir de amanhã (11), a Gerência Regional de Saúde vai fazer um estudo no local e obter coletas para investigar.

Após a publicação desta reportagem, no início da noite de terça (10), a Secretaria de Saúde de Pernambuco informou um novo caso suspeito, desta vez de um adolescente de 14 anos —que também será investigado. O Ministério da Saúde foi avisado, mas não havia atualizado o número até as 19h.

Além de Pernambuco, casos suspeitos foram notificados em outros cinco estados.

Mapa casos investigados de hepatite  -  -

No Rio, a Secretaria de Estado da Saúde emitiu um alerta aos 92 municípios do estado. Até agora, cinco casos suspeitos foram informados ao ministério e estão em investigação no estado. Um bebê de 8 meses, morador de Maricá, morreu, e a investigação segue em andamento.

Em São Paulo, o estado relatou, até ontem, sete casos suspeitos notificados (um a mais que o número informado pelo Ministério da Saúde) e estão sendo apurados.

Em Santa Catarina, a Secretaria de Estado da Saúde detalhou que um caso suspeito foi notificado na sexta-feira (6) em uma criança de 7 anos, que deu entrada em um hospital de Itajaí no dia 4 de maio apresentando quadro de hepatite aguda com sintomas de icterícia (pele e olhos amarelados), náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal.

Histórico e mistério

Os casos de hepatite foram inicialmente notificados pelo Reino Unido e rapidamente se espalharam por países da Europa, em Israel e nos Estados Unidos.

De acordo com os casos já registrados, a hepatite aguda tem causado em crianças sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, diarreia e vômitos e aumento dos níveis de enzimas hepáticas, além de icterícia e ausência de febre.

Segundo o virologista Fernando Spilki, que é professor e pesquisador da Universidade Feevale (RS), o agente causador das hepatites ainda é desconhecido, mas já se sabe que deve haver transmissão no contato entre as crianças.

"Ainda que não tenha assim grandes níveis de confirmação, do que se mapeou na Europa e nos Estados Unidos até o momento, normalmente a criança tem um nexo de contato com outros casos", explica.

De acordo com as investigações no Reino Unido, o adenovírus pode estar associado à transmissão. "Entre 163 casos do Reino Unido, 126 foram testados para adenovírus, dos quais 91 tiveram adenovírus detectado [72%]. Entre casos, o adenovírus foi detectado principalmente no sangue", afirma documento da Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido.

Entretanto, por não estar em todos os pacientes, o vírus é visto ainda como uma hipótese.

Spilki esclarece que as evidências começam a se mostrar e apontar o adenovírus, mas ele afirma que é preciso ter os genomas completos e entender melhor o comportamento diferenciado de um patógeno já conhecido da ciência.

Se for ele, precisamos entender por que é um adenovírus diferente daquilo que a gente conhece há muitos anos. As evidências são fortes, mas como um vírus que infecta pessoas há tanto tempo tem uma mudança tão grande?
Fernando Spilki, virologista

Segundo ele, se for de fato adenovírus, o patógeno tem como característica a transmissão ambiental. "E é isso que se tem observado nesse caso: o infectado teve contato com alguma criança doente", relata, citando que o caso de Pernambuco chama a atenção pela distância dos outros casos notificados no país.

"Se de repente surgir em algum lugar que ninguém notou, pode ser que já estivesse circulando antes, mas é algo que tem que ser averiguado", aponta.

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Imagem: iStock

Alerta na América Latina

Segundo a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), os países devem permanecer em alerta. No dia 5, a Argentina já havia confirmado um caso, o primeiro oficialmente comprovado da América Latina.

"Os vírus comuns que causam hepatite viral aguda (vírus da hepatite A, B, C, D e E) não foram detectados em nenhum desses casos. Viagens internacionais ou conexões em outros países não foram identificados como fatores da doença. Sua real causa ainda está sob investigação pela OMS", informa.