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Carlos Madeiro

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Evitar 'fim do mundo' é maior que direita ou esquerda, diz ex-chefe do Inpe

O ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Ricardo Galvão - Lucas Lacaz/Estadão Conteúdo
O ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) Ricardo Galvão Imagem: Lucas Lacaz/Estadão Conteúdo
Carlos Madeiro

Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas e com especialização em gestão de conteúdo em jornalismo pela Universidade Mackenzie, Carlos Madeiro atua há 20 anos e escreve para o UOL desde 2009, participando de grandes coberturas e fazendo reportagens e análises sobre o Nordeste e o Norte do Brasil.

Colunista do UOL

01/08/2022 04h00

Quando era presidente do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o físico Ricardo Galvão desafiou Jair Bolsonaro após o presidente questionar os dados do órgão federal sobre queimadas na Amazônia, que alarmaram o mundo em 2019. Ele foi demitido e agora está na política para tentar "colocar a ciência no Congresso Nacional".

Filiado à Rede, a convite da ex-ministra Marina Silva, Galvão será candidato a deputado federal em São Paulo, em um movimento que pretende criar, em todo o país, uma "bancada do conhecimento". Mais que isso, ele diz que é preciso acabar com a ideia de que defender o meio ambiente é uma causa só da esquerda.

"A defesa do meio ambiente tem de ser transversal, senão atrapalha a causa. Se uma pessoa é liberal e considera a defesa do meio ambiente importante, tem de participar disso. O 'fim do mundo' tem de estar acima das ideologias partidárias, tem de estar em todos os ministérios."

Ricardo Galvão conversou com a coluna durante a reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), na UnB (Universidade de Brasília), onde comandou duas mesas de debates na área ambiental.

Para ele, diante dos problemas enfrentados pelo país (em especial na Amazônia), os cientistas decidiram tentar não só cobrar recursos e políticas públicas, como participar do processo.

"Nós temos, no Senado e na Câmara, comissões de ciência e tecnologia. Mas são políticos que estão lá por representatividade de outros grupos. Nós vamos ter desafios, como o aquecimento global de 3ºC. Isso vai afetar violentamente o país, a nossa produção agrícola. Nós vamos ter que ter políticas públicas embasadas na ciência e tecnologia", explica.

Temos que ter uma bancada de conhecimento, não é só pedir mais dinheiro para ciência. Temos que inserir o conhecimento científico na formulação de políticas públicas. Vemos isso no exterior, e estamos começando no Brasil nessa direção agora."
Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe

9.set.2019 - Queimada é vista na floresta Amazônia nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia - Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress - Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress
9.set.2019 - Queimada é vista na floresta amazônica nas proximidades de Porto Velho, em Rondônia
Imagem: Bruno Rocha/Fotoarena/Folhapress

"Erro estratégico"

Agora na política, Galvão diz que é preciso trazer mais pessoas para a defesa da causa ambiental. "A esquerda brasileira sempre quis colocar essa pauta do meio ambiente como uma pauta só dela. Isso é um erro estratégico. É verdade que no Brasil a esquerda sempre foi mais atuante nessa questão. Diferentemente, de como é na Europa, onde vemos um partido verde de direita", afirma.

Ele diz que percebeu isso quando ainda presidia o Inpe e participava de reuniões com o ex-ministro Ricardo Sales, quando ele chefiava a pasta do Meio Ambiente.

"Tudo o que eu falava de pauta defendida pela ciência, ele dizia: 'Vocês têm posição de esquerda'", lembra.

Para ele, é urgente refazer pontes e criar um diálogo entre as pessoas de diferentes espectros ideológicos em prol da ciência.

O Brasil não vai ser nunca totalmente socialista, é uma estupidez isso. Então, se for esperar todo mundo aqui virar socialista para cuidar do meio ambiente, vamos matar o país e matar a Amazônia."
Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe

Sede do Inpe, em São José dos Campos (SP) - Divulgação - Divulgação
Sede do Inpe, em São José dos Campos (SP)
Imagem: Divulgação

Demissão do Inpe

Na conversa com a coluna, Galvão ainda repassou a tensão que resultou na sua demissão do Inpe. Para ele, apesar do posicionamento contra do presidente, os dados sobre queimadas e desmatamento do Inpe continuam sendo referência na medição da destruição dos biomas brasileiros.

"Aquela reação forte que tive na imprensa junto com a reação internacional e da academia tornou impossível cercear a divulgação dos dados do Inpe. Os dados dos sistemas Prodes e Deter [que detectam desmatamento] já deram origem a mais de 1.400 teses no mundo todo" diz.

Apesar disso, ele afirma que o governo federal conseguiu agir para afetar as ações de combate ao desmatamento.

"O plano predatório com relação ao Inpe e outros órgãos teve muito êxito. No Inpe, os recursos orçamentários caíram pela metade em cinco anos. Eles não deram mais recursos para fazer satélites. Mesma coisa que vemos no Incra, no Ibama, no ICMBio", afirma, citando outros órgãos de proteção ambiental.

Não é só que o presidente Bolsonaro seja um tosco: ele tem um planejamento predatório a essas instituições, porque acha que todas essas questões ambientais e de preservação, além do desenvolvimento científico, vão contra interesses de grupos econômicos."
Ricardo Galvão, ex-diretor de Inpe

Para ele, é imperativo lutar contra as narrativas falsas. "Um problema que vejo são as redes sociais. Elas têm um grande defeito: divulgam rapidamente, mas não têm profundidade", diz. "A pessoa vai e fala: o aquecimento não existe porque aquele ex-chanceler [Ernesto Araújo] foi na Itália e disse que estava dia frio no verão. Você não responde isso no Twitter, nem mesmo no Instagram. Eles sabem explorar isso fortemente, e nós estamos lutando contra isso, mas não é fácil", finaliza.