PUBLICIDADE
Topo

Chico Alves

No Rio com recorde de mortes por covid, governantes liberam boates e folia

Grande movimentacao de entrada e saida de ambulancias e carro de funerarias  no Hospital de referencia Ronaldo Gazolla  em Acari  ao combate da pandemia  - JORGE HELY/ESTADÃO CONTEÚDO
Grande movimentacao de entrada e saida de ambulancias e carro de funerarias no Hospital de referencia Ronaldo Gazolla em Acari ao combate da pandemia Imagem: JORGE HELY/ESTADÃO CONTEÚDO
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

14/01/2021 14h24

O Rio de Janeiro é um dos mais escandalosos exemplos mundiais de fracasso no combate à pandemia de coronavírus. O estado tem a maior taxa de letalidade do Brasil (131 óbitos por 100 mil habitantes, segundo dados de dezembro da Fiocruz). A capital tem percentual de 7,5% de letalidade em caso de coronavírus, contra 3,7% no Brasil e 3,3% no mundo.

É preciso lembrar que esse desastre acontece na unidade da federação que dispõe da maior rede pública hospitalar do Brasil, inclusive com seis hospitais federais.

Apesar desses números trágicos, nem o governador fluminense, Cláudio Castro (PSC), nem o prefeito recém-eleito do Rio, Eduardo Paes (DEM), parecem dispostos a tratar o problema com o rigor devido.

Nenhum dos dois implantou medidas de restrição significativas para diminuir a circulação de pessoas, como aconteceu em outras partes do Brasil. Ambos recitam em coro: lockdown nem pensar.

Uma das primeiras medidas de Paes ao assumir foi reabrir as áreas de lazer na orla e outros pontos do Rio aos domingos, onde multidões de cariocas costumam circular.

Além disso, anunciou um plano destrambelhado em que os diferentes bairros da cidade recebem orientações de acordo com a gravidade da pandemia em suas áreas, como se não houvesse intensa movimentação de pessoas entre as localidades.

Além disso, chegou a divulgar a volta dos públicos ao estádios, mas revogou a medida pouco depois, ao constatar que seria impossível fiscalizar o distanciamento dos torcedores.

No entanto, mantém o funcionamento das boates, desde que o público fique sentado, nunca em pé. Alguém acredita que a prefeitura vai conseguir fiscalizar o cumprimento dessa regra?

O governador em exercício Cláudio Castro, por sua vez, que não deu contribuição significativa para diminuir a circulação de pessoas no estado, sancionou ontem a lei que fixa em julho a data para o Carnaval fora de época.

Levando-se em consideração que os brasileiros mais jovens só deverão começar a ser vacinados no meio do ano (na mais otimista das hipóteses), não há dúvida que juntar multidões em blocos carnavalescos pelas ruas do Rio está longe de ser uma iniciativa segura.

Enquanto os governantes estão preocupados com o funcionamento das boates e a realização do Carnaval, milhares de famílias fluminenses tentam escapar do destino trágico que tiveram 27 mil pessoas que morreram de covid-19 no Rio.

A média de 163 mortes diárias parece não ser o suficiente para dar ao prefeito e ao governador a dimensão dramática que a pandemia realmente tem.

Ao que parece, o Rio continuará a ser um "case" de fracasso mundial na luta contra o coronavírus.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.