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Diogo Schelp


Teich aparece sempre um passo atrás dos problemas

Ministro da Saúde, Nelson Teich.  -  José Dias/PR
Ministro da Saúde, Nelson Teich. Imagem: José Dias/PR
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

07/05/2020 12h36Atualizada em 07/05/2020 17h59

O presidente Jair Bolsonaro não demitiu o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta apenas pelas discordâncias sobre a maneira correta de combater a pandemia de covid-19. Também o fez porque tinha ciúmes do protagonismo assumido pelo médico ortopedista e político do Democratas (DEM). "Está faltando um pouco de humildade para ele", chegou a dizer Bolsonaro.

Ao assumir o cargo no lugar de Mandetta, o oncologista Nelson Teich parece ter entendido o recado e mantém um perfil discreto. O esforço para não fazer nenhum movimento que incomode o presidente, porém, está atrapalhando o seu desempenho em uma função da qual se exige, nesse momento, estar sempre um passo à frente dos problemas.

Mas o ministro chega sempre atrasado. Uma de suas primeiras declarações ao assumir o cargo há cerca de 20 dias foi que precisava, antes de anunciar seus planos, tomar pé da situação. Torcia-se para que ele o fizesse rapidamente, pois o número de mortes pela doença se acelerava a cada dia. Tem-se a impressão de que ele não tomou pé de muita coisa até agora.

Teich só visitou Manaus (AM) nesta segunda-feira (4), três semanas depois de o sistema de saúde da cidade ter entrado em colapso por causa do grande número de doentes com covid-19 em estado grave.

Sobre o fato de o governo federal não ter, ainda, construído um hospital de campanha para atender a cidade, ele disse que primeiro era preciso usar o espaço já existente nos hospitais da cidade. Mas o importante, em uma situação de emergência como essa, não é se antecipar à falta de leitos? Junto com o ministro, desembarcaram 267 profissionais de saúde para reforçar o contingente local. A promessa era de que seriam 581.

Ainda mais grave foi a demora em estabelecer uma coordenação com secretários de saúde dos estados, que são os que, junto com os gestores municipais, estão na linha de frente da pandemia, enfrentando problemas diários para dar conta da crescente demanda da população por assistência médica.

Uma reunião do ministro com todos os secretários só ocorreu nesta terça-feira (5), por videoconferência. Eles reclamaram da demora na tomada de decisões pela pasta, da demora em enviar equipamentos, da demora em enviar kits para testes em quantidade suficiente, entre outras demoras. Teich "ainda está se inteirando sobre o assunto no Brasil, ainda não tem conhecimento total das necessidades e iniciativas em curso", disse o secretário de saúde do Mato Grosso, Gilberto Gomes de Figueiredo.

A divulgação de dados sobre a pandemia também passou a sofrer atrasos sob Teich. Se antes o perfil por gênero, cor e idade dos infectados era informado diariamente, sob o novo ministro isso passou a ser feito em intervalos de mais de uma semana.

O mais recente descompasso em lidar com os problemas foi o comentário de Teich sobre o uso de leitos privados pelo sistema público de saúde. Algumas decisões judiciais têm levado ao "confisco" de leitos da iniciativa privada para atender à fila do SUS. Em alguns lugares, os hospitais privados têm preferido se antecipar e iniciar negociações para que, ao menos, sejam remunerados por isso.

Teich está correto ao dizer que é preferível uma solução negociada a uma solução imposta ao sistema privado. O problema é o timing. Ele diz que, se o SUS chegar ao limite, será preciso "sentar com a saúde privada" e negociar. Tem que negociar antes, ministro!

Teich queria uma estratégia de combate à doença baseada em testagem. Mas não há testes suficientes. Já passou da hora de o governo federal assumir que a melhor solução é a prevenção, já que não há remédio para a doença. Ou seja, evitar que o incêndio se alastre, em vez de chegar atrasado e tentar apagá-lo com um balde d'água.

Diogo Schelp