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Diogo Schelp


Diogo Schelp

Steve Bannon, preso nos EUA, é o oráculo americano do bolsonarismo

Eduardo Bolsonaro com Steve Bannon, em 2018 - Reprodução/Twitter
Eduardo Bolsonaro com Steve Bannon, em 2018 Imagem: Reprodução/Twitter
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

20/08/2020 12h17

Em agosto de 2018, a dois meses do primeiro turno da eleição presidencial no Brasil, Eduardo Bolsonaro, então candidato à Câmara dos Deputados e principal influenciador do programa para a política externa de seu pai e presidenciável Jair Bolsonaro, encontrou-se com Steve Bannon, ex-conselheiro do presidente americano Donald Trump. "Nós compartilhamos da mesma visão de mundo", escreveu Eduardo Bolsonaro no Twitter.

O comentário elogioso de Eduardo Bolsonaro em 2018 não era apenas protocolar. Bannon era muito mais do que alguém com quem ele tinha afinidade ideológica. O ex-estrategista de campanha de Trump era uma inspiração para o bolsonarismo em várias frentes e a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro deve muito ao caminho aberto por ele.

A primeira inspiração foi a aposta arriscada — mas que se provou acertada — de Bannon de que uma campanha divisionista levaria Trump à Casa Branca. Ou seja, que Trump seria eleito exatamente por ser um candidato que não tentava agradar diversos grupos do eleitorado. Bastava surfar na insatisfação de uma parcela que ele chamava de "maioria silenciosa".

O politicamente correto do discurso político foi deixado completamente de lado. Quanto mais absurdos Trump dizia, mais os eleitores o viam como um outsider sincero, disposto a romper com os privilégios da elite política. Bolsonaro foi pelo mesmo caminho.

A outra frente de inspiração de Bannon para o bolsonarismo foi o uso e a disseminação de "verdades alternativas" ou, em outras palavras, de fake news e de teorias conspiratórias.

Bannon foi diretor-executivo do site Breitbart News, que dissemina informações duvidosas em meio a manchetes noticiosas para promover uma visão extremista do mundo. Muitos dos sites bolsonaristas de fake news foram criados à imagem e semelhança do Breitbart News.

Bannon descreve seu site como dedicado à alt-right, a "direita alternativa" dos Estados Unidos, que se caracteriza por seu radicalismo e pela agenda racista e anti-imigração.

O ex-estrategista de Trump viu com muito interesse a ascensão do bolsonarismo no Brasil. Ele apontou Eduardo Bolsonaro como representante no país de seu movimento internacional de partidos de extrema direita e, em entrevista à Folha de S.Paulo em fevereiro de 2019, afirmou que as investigações sobre o esquema de rachadinha envolvendo Flávio Bolsonaro são parte da guerra do "marxismo cultural" contra o clã.

Em 2019, as viagens aos Estados Unidos do deputado Eduardo Bolsonaro — que quase foi indicado por seu pai para ser embaixador em Washington e que é suspeito de entregar dossiê sobre brasileiros à embaixada americana em Brasília — invariavelmente incluíam uma visita a Bannon.

Steve Bannon foi preso nesta quinta-feira (20) nos Estados Unidos acusado de enganar os doadores de um projeto para a construção de um muro na fronteira com o México. Ele teria usado centenas de milhares de dólares do dinheiro doado em sua organização política, quando tinha prometido dedicar 100% dos recursos no projeto.

Aparentemente, sua visão de mundo inclui embolsar o dinheiro de seus seguidores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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