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Diogo Schelp

De nada adiantará Trump oferecer cloroquina para os esquilos da Casa Branca

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que testou positivo para covid-19, durante o primeiro debate eleitoral com Joe Biden - Saul Loeb/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que testou positivo para covid-19, durante o primeiro debate eleitoral com Joe Biden Imagem: Saul Loeb/AFP

Colunista do UOL

02/10/2020 15h57

"Quando ele ficava resfriado, eu simplesmente mantinha distância dele", disse Donald Trump sobre quando seu filho Barron, ainda bebê, adoecia. A declaração é de uma entrevista concedida em 2007, mas o atual presidente americano já havia admitido seu medo patológico por micróbios muitos anos antes, no início da década de 90.

Trump sofre de misofobia, também chamada de germofobia: o temor exagerado de se contaminar por bactérias ou vírus, o que se reflete em dificuldades na vida social e em uma obsessão por limpeza. Na década de 80, segundo o chefe de um de seus cassinos na época, Trump perdeu oportunidades de fechar bons negócios porque evitava apertar as mãos de clientes.

Durante a campanha de 2016, quando foi eleito presidente, sua porta-voz Hope Hicks tinha sempre um pote de álcool em gel de prontidão para espirrar nas mãos do candidato depois que ele cumprimentava apoiadores.

Eis que, nesta sexta-feira (2), Trump e a primeira-dama Melania testaram positivo para covid-19, possivelmente contraída da própria Hope Hicks, atualmente conselheira sênior do presidente. Ele viajou com ela de helicóptero mesmo sabendo que estava contaminada.

Como é possível que alguém tão maníaco por higiene pessoal — e que nos primeiros anos de mandato expulsava das reuniões no Salão Oval da Casa Branca os funcionários que estivessem fungando, espirrando ou tossindo — tenha se transformado, no ano da pandemia, em um dos maiores negacionistas da gravidade e dos perigos do novo coronavírus?

No começo, Trump dizia que o vírus iria desaparecer em abril, com a elevação da temperatura no hemisfério norte. Depois, sugeriu que as pessoas injetassem detergente no corpo para combatê-lo (ele disse, depois, que apenas estava sendo irônico). Em maio, ele afirmou que estava tomando hidroxicloroquina, remédio defendido também pelo presidente Jair Bolsonaro, como medicamento preventivo contra covid-19. Como se vê, de nada adiantou.

Jair Bolsonaro segura caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - REUTERS/Adriano Machado - REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro mostra caixa de cloroquina para as emas do lado de fora do Palácio da Alvorada
Imagem: REUTERS/Adriano Machado

Quando ficou evidente que o número de contaminados americanos apenas aumentava, Trump continuou com seus esforços para desacreditar as medidas de distanciamento social e as campanhas para o uso de máscaras.

No primeiro debate para a eleição presidencial americana, realizado na última terça-feira (29), Trump até ridicularizou seu oponente, o democrata Joe Biden, por usar máscara com muita frequência. "Eu não uso máscaras como ele. Toda vez que você o vê, ele está usando máscara. Ele pode estar a 60 metros de distância de mim e ele aparece com a maior máscara já vista", disse Trump.

Depois que Trump testou positivo, Biden também fez o exame, com resultado negativo. Mais de 200.000 americanos já morreram de complicações causadas pela covid-19.

A contradição entre a misofobia do presidente americano e sua atitude irresponsável diante do avanço da doença no país se explica por um cálculo político — que se provou equivocado e desastroso. A pandemia e as necessárias medidas para contê-la atrapalhavam os planos de reeleição de Trump, razão pela qual ele entrou em estado de negação.

A narrativa que ele passou a adotar em relação à pandemia sustenta-se em um tripé: tergiversar, negar e transferir a culpa. Trump foi pródigo em inventar bodes expiatórios para desviar as atenções de sua própria responsabilidade: primeiro culpou a imprensa, depois os governadores dos estados, a China, a oposição democrata, a Organização Mundial de Saúde (OMS)...

O presidente Jair Bolsonaro imitou o colega americano em boa parte dessa estratégia. Aqui, no entanto, deu mais certo do que lá, com o brasileiro desfrutando de 40% de popularidade, enquanto Trump está atrás de Biden nas pesquisas de intenção de voto.

Que ninguém se espante se Trump, nos próximos dias, numa tentativa desesperada de se beneficiar politicamente com o fato de estar infectado, resolva imitar Bolsonaro e passe a oferecer cloroquina para os esquilos dos jardins da Casa Branca.