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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na cúpula do clima, um presidente estará sob grande pressão: Joe Biden

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden - Mandel Ngan/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden Imagem: Mandel Ngan/AFP
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

21/04/2021 04h00

A julgar pelas manchetes que vêm dominando o noticiário brasileiro a respeito da Cúpula de Líderes sobre o Clima, marcada para acontecer virtualmente na quinta (22) e na sexta-feira (23), os olhos do mundo estarão voltados para o presidente Jair Bolsonaro, na expectativa de que ele dê um cavalo de pau em sua política ambiental e demonstre finalmente compromisso em combater o desmatamento e a emissão de gases do efeito estufa.

Bolsonaro está sendo cobrado por tudo isso, mas ele não será o único governante sob pressão no encontro. Provavelmente, sequer será o mais pressionado.

Quando nos acostumamos a ver as questões globais a partir de uma perspectiva brasileira, de dentro para fora, do interior para o exterior, é fácil perder o senso de proporção e também deixar passar batido o que ocorre em outros países.

As manchetes da imprensa na Austrália, por exemplo, dão a impressão de que quem realmente estará sob pressão na cúpula climática, organizada pelo presidente americano Joe Biden, será o premiê Scott Morrison. "Morrison sob pressão às vésperas da cúpula climática de Biden", estampou o Financial Review do último dia 30.

Nesta segunda-feira (19), a notícia no site do canal ABC News era de que o premiê australiano estava perto de aceitar o compromisso de zerar as emissões do país até 2050. Efeito da tal "pressão"?

Mas quem preferir observar do ponto de vista da Índia, o terceiro maior emissor de gases do aquecimento global, pensará que quem estará sob pressão na cúpula virtual é o primeiro-ministro Narendra Modi. "A Índia vai elevar suas ambições climáticas, mas 'não sob pressão'", avisa manchete do Business Insider, diário econômico indiano, citando fonte governamental. Se falou em pressão, é porque já está sendo sentida.

Mas quem se verá de fato pressionado na Cúpula de Líderes sobre o Clima é aquele que, supunha-se, tem o papel de fazer as cobranças: Joe Biden, o anfitrião do encontro.

O novo governo dos Estados Unidos organizou a cúpula desta semana para traçar uma linha divisória bem clara entre o presidente atual, o democrata Joe Biden, e o republicano Donald Trump, na questão ambiental. Trump retirou o país do Acordo de Paris de combate às causas do aquecimento global. Biden colocou os Estados Unidos de volta no compromisso assumido por quase 200 países.

A cúpula desta semana será o primeiro esforço de Biden para liderar outros países em um tema de interesse global. Para isso, ele pretende apresentar um plano ambicioso de redução de emissões para os Estados Unidos. E espera gestos similares dos líderes presentes ao encontro.

Em relação ao plano americano, informações preliminares indicam que Biden pode prometer cortar as emissões de gases do efeito estufa para a metade dos níveis de 2005 até 2030.

Os governos de outros países, principalmente os europeus, vão achar ótimo se ele de fato fizer tal promessa, mas será inevitável desconfiar da capacidade dos americanos de cumpri-la. Afinal, da última vez que os Estados Unidos assumiram um compromisso do tipo, não durou muito e entrou Trump disposto a desfazer tudo.

E o ano de 2030 fica muito além do mandato de Biden. Como os Estados Unidos podem garantir que uma meta de longo prazo dessas será mantida e que não virá outro Trump para revertê-la?

Em relação aos eventuais planos com novas metas que Biden espera que os outros líderes apresentem no encontro, não há grandes expectativas. Definir um objetivo agressivo de redução de emissões para os Estados Unidos é uma forma de pressionar os outros, especialmente a China, a fazer o mesmo, mas o presidente americano corre o risco de não obter tais promessas — pelo menos não agora.

John Kerry, o enviado especial para o clima de Biden, fez um tour por países da Ásia e do Oriente Médio, além de reuniões virtuais com representantes de diversos países (inclusive o Brasil), para incentivar os governos a apresentarem, na cúpula, novas propostas de redução de emissões.

Há poucas sinalizações de que o esforço deu certo. Da China e da Índia não veio nada de concreto, por enquanto. Sequer da União Europeia se espera um grande anúncio, já que o bloco já tem metas audaciosas.

Japão, Coreia do Sul e Canadá podem chegar com novidades na cúpula para salvar a pele de Biden, elevando metas de corte de emissões e, no caso dos dois primeiros, reduzindo incentivos para geração de energia a carvão.

Tudo isso ainda está para ser confirmado nos próximos dois dias. Engano é achar que o jogo se resume às pressões de Biden sobre Bolsonaro. O anfitrião também estará sob pressão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL