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Diogo Schelp

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Jair Bolsonaro inelegível não favoreceria Lula em 2022

Lula e Bolsonaro - Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr.
Lula e Bolsonaro Imagem: Foto: Agência Brasil/Marcello Casal Jr.
Diogo Schelp

Diogo Schelp é jornalista com 20 anos de experiência. Foi editor executivo da revista VEJA e redator-chefe da ISTOÉ. Durante 14 anos, dedicou-se principalmente à cobertura e à análise de temas internacionais e de diplomacia. Fez reportagens em quase duas dezenas de países. Entre os assuntos investigados nessas viagens destacam-se o endurecimento do regime de Vladimir Putin, na Rússia, o narcotráfico no México, a violência e a crise econômica na Venezuela, o genocídio em Darfur, no Sudão, o radicalismo islâmico na Tunísia e o conflito árabe-israelense. É coautor dos livros ?Correspondente de Guerra? (Editora Contexto, com André Liohn) e ?No Teto do Mundo? (Editora Leya, com Rodrigo Raineri).

Colunista do UOL

05/08/2021 15h20

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quinta-feira (5), em entrevista de rádio, que há um complô para impedi-lo de participar das eleições de 2022 e, dessa forma, favorecer a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Existe um plano, está na mídia, para me tornar inelegível. Se vier a acontecer, já sabemos, se eu não fizer nada, o presidente é o Lula", disse Bolsonaro.

Deixando de lado o conspiracionismo barato (pois é o presidente quem vem exigindo uma resposta das instituições às suas ameaças contra o processo eleitoral de 2022), fato é que Bolsonaro está errado em sua análise política.

O erro é proposital, pois interessa a Bolsonaro vender a ideia aos seus apoiadores e ao eleitorado antipetista de que ele está sendo vítima de perseguição e que a imprensa e o Poder Judiciário atuam para eleger Lula.

Lula, no entanto, não seria o maior favorecido caso as investigações em curso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou no Supremo Tribunal Federal (STF) levem à proibição de Bolsonaro de buscar uma reeleição em 2022.

Os grandes beneficiados, do ponto de vista eleitoral, seriam todos os outros candidatos, menos Lula. É o que sugerem praticamente todas as pesquisas de intenção de voto divulgadas nas últimas semanas para o pleito presidencial de 2022.

A pesquisa Genial/Quaest, a mais recente delas, por exemplo, mostra que, se as eleições fossem hoje, Lula e Bolsonaro estariam no segundo turno. Os outros possíveis candidatos ficariam longe, mais de dez pontos atrás, de evitar o enfrentamento direto entre o ex e o atual presidentes.

Na maioria das pesquisas, Jair Bolsonaro mantém um piso de intenção de voto acima dos 20%. Essa parece ser a proporção do eleitorado disposta a votar nele aconteça o que acontecer — e não obstante tudo o que já aconteceu.

Sem uma união da chamada "terceira via" em torno de um único nome para romper a polarização entre Lula e Bolsonaro, apenas a ausência de um dos dois na disputa daria maiores chances a possíveis candidatos como Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (sem partido), João Doria ou Eduardo Leite (PSDB), José Luiz Datena (PSL) ou Luiz Henrique Mandetta (DEM) de chegar ao segundo turno.

E, no cenário de segundo turno, a julgar pelo levantamento da Genial/Quaest, não faz muita diferença para Lula enfrentar Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Em todas as simulações, ele teria entre 54% e 58% dos votos, o que lhe permitiria vencer com folga.

A vantagem dos outros candidatos em relação a Bolsonaro numa disputa de segundo turno contra Lula é que muitos deles têm rejeição menor do que o atual presidente junto ao eleitorado — e, portanto, têm maior potencial de captar votos de indecisos.

O maior beneficiado de uma hipotética inelegibilidade de Bolsonaro para 2022, portanto, seria qualquer outro candidato, menos Lula.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL