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Jamil Chade


Extrema-direita húngara quer Brasil financiando cristãos no Oriente Médio

Viktor Orban, premiê da Hungria - Attila KISBENEDEK / AFP
Viktor Orban, premiê da Hungria Imagem: Attila KISBENEDEK / AFP
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

27/11/2019 04h02

Resumo da notícia

  • Proposta húngara quer criar fundo para ajudar cristãos ameaçados
  • Em evento com aliados, Hungria diz que existe "genocídio" contra cristãos
  • Governo do país alerta que não quer ser "rota da invasão islâmica"
  • Oposição húngara chama reunião de "expressão de supremacista brancos"

O governo de extrema-direita da Hungria de Viktor Orban propõe uma parceria com Jair Bolsonaro para financiar a ajuda comunidades de cristãos no Oriente Médio. O projeto, segundo revelaram ao UOL as autoridades de Budapeste, já está com o chanceler Ernesto Araújo.

Depois de noventa anos de reconhecimento diplomático entre os dois países, o ano de 2019 marcou a primeira visita de um chanceler brasileiro ao governo de Budapeste. Mas Ernesto Araújo não foi o único. No total, foram seis visitas de alto escalão entre os dois países, inclusive de Eduardo Bolsonaro e Damares Alves, em menos de doze meses.

Um dos pilares dessa aproximação é o cristianismo, uma das bandeiras da atual gestão do Itamaraty. Mas para a oposição na Hungria, ONGs e diversos países europeus, ainda que a ajuda seja bem-vinda às comunidades no Oriente Médio, a suspeita é de que as operações de Budapeste tenham como objetivo justificar as barreiras contra a imigração implementadas nos últimos anos e uma política de recusa a aceitar a existência de uma população estrangeira.

A informação da proposta foi dada pelo chanceler húngaro, Péter Szijjártó, que elogiou o fato de o presidente do Brasil falar "abertamente" sobre o papel do cristianismo. "Entreguei uma pilha de projetos ao chanceler Araujo e espero que ele escolha um ou alguns projetos", afirmou o ministro à coluna. Segundo ele, 70 mil cristãos já foram atendidos pelos programas do governo Orban desde 2016 e o Brasil, agora, pode escolher entre apoiar comunidades cristãs na Síria, Iraque ou Líbano.

Os projetos incluem a reconstrução de casas, escolas, hospitais e infra-estrutura, justamente para permitir que as pessoas possam voltar para suas comunidades. E evitar a migração.

O Itamaraty confirmou que o tema foi alvo de uma conversa entre os dois governos. Mas indicou que não existe ainda uma definição. Na ONU, o discurso de proteção aos cristãos já foi usado pelo Ministério de Direitos Humanos do Brasil.

17.mar.2019: Ao lado de Steve Bannon, Jair Bolsonaro acompanha discurso do então embaixador brasileiro nos EUA, Sérgio Amaral - Alan Santos/PR
17.mar.2019: Ao lado de Steve Bannon, Jair Bolsonaro acompanha discurso do então embaixador brasileiro nos EUA, Sérgio Amaral
Imagem: Alan Santos/PR
Steve Bannon

Szijjártó conversou com o UOL às margens de uma conferência internacional organizada pelo governo de Viktor Orban, na Hungria, com o objetivo combater a perseguição sofrida por cristãos pelo mundo.

Entre os participantes do evento em Budapeste estão alguns de seus principais aliados do regime Orban: os EUA de Donald Trump, as ultraconservadoras Polônia e República Tcheca e, claro, o Brasil de Jair Bolsonaro. Quem lidera a participação brasileira na conferência é o secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania, embaixador Fabio Mendes Marzano.

Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e conhecido por suas posições polêmicas, seria um dos principais palestrantes do evento. O americano, porém, acabou não podendo comparecer ao evento. O website liderado por Bannon entre 2012 e 2016, o Breitbart News, publicou artigos sobre a reunião, fazendo eco aos argumentos usados por Orban.

Além do Brasil, os húngaros estabeleceram uma cooperação também com o governo de Donald Trump. Juntos, americanos, brasileiros e húngaros realizaram em setembro uma conferência na ONU em setembro sobre a defesa da liberdade religiosa.

O chefe da Casa Branca enviou para Budapeste nesta semana um de seus principais assistentes, Joe Grogan, ovacionado pelos participantes da conferência ao ler uma carta de Trump. Em nome do secretário de Estado norte-americano, o embaixador Samuel Brownback também garantiu que Washington tem um compromisso de financiar em US$ 340 milhões as minorias no Iraque.

Rota de invasão islâmica

Mas os discursos durante a conferência não deixam dúvidas de que a proteção às minorias no Oriente Médio não é apenas um ato de generosidade da Hungria. Criticado pela ONU e pela União Europeia, o governo de Orbán passou a ser questionado desde 2015 por erguer cercas para impedir a entrada de refugiados.

Agora, ao falar da perseguição contra cristãos, o assunto da imigração e do fechamento das fronteiras voltar a estar no centro do debate. A lógica é de que, se essas pessoas forem ajudadas em seus países de origem, elas não irão fugir e, portanto, engrossarão o fluxo migratório para a Europa.

Na Hungria, há um sentimento contra a imigração e pela proteção de cristianismo. A Hungria está na rota da invasão islâmica e precisamos nos proteger. Temos o direito de proteger nossa cultura.
Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria

Ele também defendeu que o apoio a essas pessoas precisa ser dado "no local onde estão os problemas" e que não é o caso de "importar problemas". "Ao contrario dos europeus, precisamos apoiar essas pessoas para que fiquem em casa. E não para viajar", disse.

22.fev.2016 - Migrantes caminham ao longo da cerca no lado sérvio da fronteira com a Hungria - Laszlo Balogh/Reuters
22.fev.2016 - Migrantes caminham ao longo da cerca no lado sérvio da fronteira com a Hungria
Imagem: Laszlo Balogh/Reuters

Sua avaliação é de que o "maior erro" que o Ocidente pode cometer é o de pensar que a perseguição aos cristãos não vai ocorrer na Europa. "O terror já golpeou a Europa várias vezes", disse, apontando para a "infiltração de radicais" por meio da imigração irregular.

"No futuro próximo, teremos países europeus em que a composição demográfica vai mudar rapidamente. A única salvação é se a Europa volta a sua identidade cristãs. Estamos com grandes problemas", disse.

"Para salvar a Europa, precisamos ajudar os perseguidos lá (no Oriente Médio). Em troca, vamos ganhar de volta o cristianismo", insistiu.

Sem indicar a fonte de sua informação, o primeiro-ministro declarou que, de cada cinco pessoas perseguidas no mundo, quatro são cristãos. "245 milhões de pessoas vivem essa realidade e mais de 1,2 mil instituições cristãs foram atacadas", disse, sem citar a origem dos dados. "Enquanto isso, a Europa continua silenciosa", atacou.

"Isso não é um ataque individual. Mas é uma cultura que está sob ataque organizado. A nossa civilização e nossa cultura estão sob ataque. Aqui na Europa. Não apenas na África ou Oriente Médio", disse. Segundo ele, os ataques vem "dos fluxos migratórios e troca de populações".

Tristan Azbej, secretário do Programa do governo húngaro de Ajuda aos Cristãos Perseguidos, alerta que a missão dos governos é de "salvar cristãos e, portanto, a nós mesmos".

O governo Orban faz questão de classificar a situação como genocídio, num esforço de legitimar a urgência do tema. "São onze pessoas mortas por dia por acreditar em Deus", disse Azbej. "Esse genocídio está ocorrendo ao mesmo que ha um silencio vergonhoso do Ocidente", disse o secretário,

27.ago.2015 - Imigrantes sírios atravessam cerca na fronteira da Hungria com a Sérvia - Bernardett Szabo/Reuters
27.ago.2015 - Imigrantes sírios atravessam cerca na fronteira da Hungria com a Sérvia
Imagem: Bernardett Szabo/Reuters

Imigrante cristão é mal-tratado, diz ONG

A iniciativa de defesa do cristianismo vem num momento em que Orban fecha fronteiras e lidera um movimento de rejeitar a noção do direito à migração. Para seus opositores, a escolha da defesa do cristianismo faz parte da busca por inimigos para justificar suas políticas autoritárias.

Internamente, seu governo sofreu uma primeira grande derrota, ao ver a cidade de Budapeste passar para as mãos da oposição. Prestes a completar dez anos no poder, Orban aprofunda o discurso cristão, interpretado por seus adversários como uma forma de legitimar suas políticas de impedir a entrada de estrangeiros e retomar o apoio de seu eleitorado mais conservador. Para seus opositores, o temor é de que o cristianismo esteja sendo usado para justificar uma deriva autoritária.

Mas se o discurso é de proteção, Márta Pardavi, co-presidente da ONG Hungarian Helsinki Committee, alerta que suas políticas não condizem como discurso. "Nas fronteiras, os imigrantes cristãos são tratados da mesma forma dramática que os demais", disse. Sua entidade de assistência a refugiados recebe 31% de seus fundos da Open Society Fundation, liderado pelo bilionário húngaro George Soros.

Na Hungria, imigrantes são colocados em condições críticas. Quem está na rua é criminalizado e uma multa de 25% é imposta sobre qualquer pessoa que promova a imigração, inclusive dar empregos, dar aulas sobre imigração ou mesmo distribuir comida.

"Temos de chamar esse evento por seu nome real: trata-se de uma expressão supremacista branca", alertou Márta.

Sua lógica é de que, ao supostamente defender que imigrantes não saiam de suas comunidades, o que Orban quer é manter a Hungria e a Europa "branca", além de protegida de qualquer diversidade religiosa ou demográfica.

Para isso, a estratégia do governo de Budapeste é a de fazer questão que a defesa do cristianismo seja visto de forma legítima. Não por acaso, Orban trouxe nesta semana para Budapeste representantes de Igrejas na Síria, Iraque, Etiópia e outras regiões do mundo, com alguns dos principais líderes cristãos desses locais.

Num dos intervalos, um grupo de cantores negros mostrou seu amor à Deus. Pelos corredores, líderes cristãos de todas as origens circulavam, legitimando as políticas do governo Orban.

Referências à história do império húngaro, referências bíblicas e mitologias se misturavam nos discursos com um passado glorioso. Não havia, porém, qualquer referência aos crimes cometidos em nome do cristianismo ao longo dos séculos. Nem ao destino daqueles que, hoje, vivem como animais em contêineres na fronteira da Hungria.

Jamil Chade