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Jamil Chade

Guedes e Heleno mostram a desqualificação do governo Bolsonaro, afirma Lula

Para Lula, colocações de integrantes do governo sobre negros e índios são as mesmas "de 1650" - Ricardo Stuckert/Divulgação
Para Lula, colocações de integrantes do governo sobre negros e índios são as mesmas "de 1650" Imagem: Ricardo Stuckert/Divulgação
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/02/2020 04h02

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teceu duras críticas contra membros do governo de Jair Bolsonaro e alertou que alguns dos comentários realizados nos últimos dias pela cúpula do Palácio do Planalto escancaram o despreparo da administração. O petista, depois de visitar o papa Francisco, agora prepara uma nova viagem para a Europa. No início de março, ele estará em Paris, Genebra e Berlim.

"Se você pega o discurso do general Augusto Heleno, propondo uma desobediência ao Congresso Nacional, o Congresso tem obrigação de chamar para se explicar se ele estava propondo ao Bolsonaro um golpe para fechar o Congresso Nacional", afirmou Lula em entrevista à coluna. Ele se referia aos comentários do ministro do Gabinete de Segurança Institucional sobre a necessidade de que o Executivo não aceitasse "chantagens" do Congresso e que Bolsonaro colocasse o povo nas ruas contra o Legislativo.

"Eu não sei como ele (Heleno) foi aprovado para general com esse comportamento", criticou. "Sinceramente, no tempo do regime militar, eles tinham mais respeito pela Constituição. Tratavam da ordem democrática com um pouco mais de sensibilidade. Com todos os erros da tortura, mas não era a grosseria, o fanatismo que temos agora. Isso me deixa preocupado", disse.

Lula também criticou o ministro da Economia, Paulo Guedes, por seus comentários. "O Guedes, quando fala das empregadas que vão para Miami, essa gente não está qualificada para presidir uma nação", afirmou.

"Quando eles falam que foram num quilombo e que tinha um negro que pesava não sei quantos quilos de arroba, que índios são preguiçosos, isso era falado em 1650 no Brasil e continuam falando", disse.

"A democracia pressupõe que um dirigente máximo da nação tenha respeito toda vez que ele falar com a nação. Quando ele fala à nação, ele não está falando para seu público, para os seus milicianos", criticou. "Ele precisa saber que tem criança em casa, mulher, que tem pessoas que querem palavras de incentivo, de paz e esperança. Mas ele não faz isso", apontou Lula.

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"É inadmissível policial de greve estar armado"

O ex-presidente também defendeu que o policial que baleou o senador Cid Gomes (PDT-CE) na quinta-feira deva ser investigado e punido por seu ato. O irmão do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), foi baleado em Sobral, no interior do Ceará, em meio a um protesto de policiais militares. O senador pilotava uma retroescavadeira e tentava furar o bloqueio de policiais que reivindicam aumento salarial.

Lula telefonou para Cid Gomes para prestar sua solidariedade. "Uma atitude errada minha não pode justificar uma atitude errada tua", disse. "Eu não subiria num trator para fazer o que ele fez. Mas ele também não sabe qual estado de ânimo", disse o ex-presidente, em São Paulo.

"Vamos supor que Cid tenha se exaltado ao subir sobre o trator. Mas é inadmissível que um cidadão que não estava em serviço e estava de greve estivesse armado", disse. "Não é aceitável. Eu já acho que policial não deveria fazer greve. Mas, se faça, deixe a arma em casa", defendeu Lula.

"Não é o fato de o senador ter se exaltado que justifica um tiro no peito dele", repetiu. "Não tem explicação. É preciso que haja uma investigação, uma prisão e uma punição de um policial desse. Ele tem de ser expulso da corporação", afirmou o ex-presidente.

"O que acontece: a familia Bolsonaro aplaude. É capaz de algum deles darem uma condecoração ao para ele, por honra ao mérito. Nós não iremos construir a democracia assim", alertou.

Segundo ele, o governador do Ceará, Camilo Santana (PT), estava pedindo há muito tempo uma intervenção. "Eles demoraram para mandar. A situação é muito grave e é preciso que o Congresso Nacional assuma o papel que ele tem de zelar pela democracia no país", afirmou.

"Mentira tem perna curta", diz Lula sobre morte de Adriano

O ex-presidente ainda voltou a comentar a morte do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, acusado de chefiar uma milícia no Rio. "Fica provado por tudo que lemos que o Adriano tinha ligação com a família Bolsonaro", disse. "Ele tem ligação direta com família Bolsonaro. Sinceramente espero que não tenham sumido os telefones dele. Que possa se apurar a verdade", disse.

"É importante desvendar o que ocorreu com ele. A sociedade precisa sair da loucura das mentiras, da verdades e fakenews", afirmou.

"Adriano foi, quem, sabe, uma queima de arquivo por parte de gente que tinha medo do que ele falasse o que ele sabia. Acontece que a mentira tem pena curta. Um dia ela vai aparecer", completou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL