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Jamil Chade


Doença X: grupo da OMS já previa surto similar ao coronavírus desde 2018

Abraço entre pessoas com máscaras de proteção ao coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), em Brasília - Adriano Machado/Reuters
Abraço entre pessoas com máscaras de proteção ao coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

22/03/2020 04h03

Nesta semana, o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou: o coronavírus é um "inimigo da humanidade".

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel indicou que seu país vivia o maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial. Na França, Emmanuel Macron indicou que o país estava "em guerra", enquanto na Itália as autoridades já falam na morte de uma geração.

Se a pandemia transformou o mundo, levou a economia mundial a uma paralisia e redefiniu a operação de saúde de governos, a realidade é que a agência de saúde já temia há anos o surgimento de uma doença com impacto devastador. O alerta foi dado. E quase ninguém escutou.

Tudo começou quando a OMS e a comunidade internacional entenderam que a epidemia de ebola, ativa entre 2014 e 2016, tinha perdido força antes que medidas de saúde ou remédios fossem de fato criadas.

Em 2016, diante da constatação, a agência de saúde lançou uma iniciativa para tentar reduzir o tempo para o desenvolvimento de respostas como testes, diagnósticos e kits. Além disso, precisaria encontrar alguém para financiar o projeto.

O desafio era de uma proporção inédita. Desde 1940, cientistas acreditam que mais de 400 doenças infecciosas surgiram no planeta. Ainda que as bactérias representem mais de 50% delas, foram os vírus que causaram as maiores impactos: HIV, H1N1, H5H1 e o ebola.

Estimativas de cientistas convocados pela OMS apontam que existem 1,6 milhão de vírus desconhecidos no planeta. Até 800 mil deles poderiam atingir as pessoas. Os cientistas, porém, conhecem plenamente apenas 0,4% deles.

Força-tarefa para preparar o mundo

Em volta de uma mesa, a OMS reuniu a elite da ciência mundial. Cada qual especializado num determinado setor e com a missão comum de encontrar caminhos para identificar riscos e preparar o mundo.

Um deles era Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance, uma entidade que reúne cientistas e pesquisadores na busca de soluções para ameaças à saúde. Outro nome na mesa era o de Michael Ryan, hoje o líder da operação de emergência da OMS para a crise do coronavírus.

Em entrevista à coluna por telefone, Daszak contou como o debate levaria à escolha de áreas prioritárias de pesquisa e a definição de uma lista das maiores ameaças ao planeta. Nela estavam a febre hemorrágica Crimea-Congo, Ebola, Lassa, MERS-CoV, SARS e Zika.

Mas havia ainda uma outra ameaça: a de uma pandemia a partir de um agente desconhecido. Daszak conta que foi um dos especialistas da OMS que, ao final de uma das reuniões, sugeriu um nome: a "doença X".

"No começo das reuniões, não a chamamos de Doença X. Tínhamos descrito apenas a ameaça, em termos científicos", disse. "Foi um dos técnicos da OMS que bolou o termo", contou. "Eu pensei comigo mesmo: Que incrível", relembrou.

Ela não seria exatamente uma doença. Mas um conceito. "Uma epidemia internacional séria que poderia ser causada por um agente desconhecido", apontou.

O perfil da doença X

No dia 7 de fevereiro de 2018, a doença X foi oficialmente colocada na lista da OMS como prioridade. O objetivo de reconhecer o risco era o de alertar governos e pesquisadores sobre a necessidade de preparar a comunidade internacional para o eventual desembarque de uma pandemia. Um ano depois, a OMS colocou a doença X como um dos dez maiores riscos para a saúde do mundo.

Ao contrário do senso comum, a doença X não seria de uma violência e rapidez profunda, como o ebola. Tal surto tem demonstrado sérias dificuldades de sair da região africana por conta do impacto quase imediato que tem sobre as pessoas contaminadas, que rapidamente morrem ou ficam incapazes de sair de suas camas.

No cenário desenhado pelos cientistas, ela se proliferaria em todo o planeta se fosse, no fundo, um vírus que deixaria muita gente sem sintomas ou apenas com um mal-estar leve.

Tal situação levaria os contaminados a continuar trabalhando, viajando e circulando, contribuindo para disseminar a doença. Mas, para uma parcela da população, o vírus seria letal.

Resultado: em poucas semanas, o agente teria viajado o mundo, levando a crise a ter diferentes epicentros ao mesmo tempo e milhares de mortos.

Covid-19 é a primeira doença X. Haverá outras, diz cientista

Para Daszak, não restam dúvidas de que a covid-19 é a "primeira doença X". "Estamos enfrentando a primeira Doença X. COVID-19 é ela", afirmou. "Teremos outras. Elas virão rapidamente e não podemos mais ficar sentados, esperando", defendeu o cientista.

Ele lembra como, nas reuniões, os cientistas falaram abertamente sobre como seria a nova pandemia. "Falávamos de como uma doença viajava silenciosamente, o que exatamente o que o covid-19 faz", explicou.

Daszak lamenta que poucos prestaram atenção no alerta. Em maio de 2018, a lista foi aprovada e submetida para os ministros de saúde de todo o mundo. E nem assim uma mobilização internacional ocorreu.

Na OMS, os apelos para investimentos em pesquisa e no fortalecimento do sistema público de saúde foram em grande parte ignorados. Apenas nos países em desenvolvimento, o aumento do destino de recursos deveria ser de US$ 200 bilhões por ano em saúde.

Falamos por anos que a próxima doença viria de um agente para o qual o mundo não está preparado.
Peter Daszak, presidente da EcoHealth Alliance

"O mundo não reagiu. Vamos ser realistas. Não foi só o mundo de fora da ciência que não ouviu. Nem os cientistas ouviram o que foi alertado", reconheceu.

Segundo ele, no momento em que epidemias como a do zika ou ebola acabam, cientistas voltam às suas rotinas e o dinheiro seca. Quanto aos políticos, dificilmente um partido mergulha em financiar e aprovar leis para projetos que vão dar resultados em uma década.

Previnir custaria US$ 1,2 bilhão; prejuízo do coronavírus pode chegar a US$ 2 trilhões

Daszak e outros cientistas acreditam que proteger o mundo custaria uma fração do impacto econômico da atual pandemia, que pode gerar 25 milhões de desempregados e uma recessão global avaliada em US$ 2 trilhões.

Sua entidade, a EcoHealth Alliance, desenvolveu o Projeto Global Virome, cujo objetivo é estudar a maioria desses vírus ainda desconhecidos. Em uma década, o mapeamento de 70% deles poderia ocorrer e o investimento exigido seria de US$ 1,2 bilhão.

Mesmo que o valor seja elevado para o setor de pesquisa, os cientistas acreditam que a mera redução de 1% das pessoas infectadas por um novo vírus praticamente já compensaria os investimentos.

Ainda com Barack Obama na Casa Branca, os cientistas apresentaram a ideia. "Pensei que seríamos financiados por Obama. Nunca ganhamos o cheque", lamentou.

"Vamos às selvas, buscar esses animais e sequenciar esses vírus", apelou Daszak. "Agora, o covid-19 é um desses 1,6 milhão de vírus. Poderíamos tê-lo achado antes", completou.

Jamil Chade