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OMS faz testes com cloroquina, mas diz ainda não ter eficácia comprovada

CADU ROLIM/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Imagem: CADU ROLIM/FOTOARENA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

13/04/2020 12h51Atualizada em 13/04/2020 14h38

Michael Ryan, diretor de operações da OMS (Organização mundial da Saúde), afirma que não existem ainda "evidências empíricas" de que a cloroquina funcione para lidar com o covid-19. Mas a agência colocou o remédio em sua bateria de testes pelo mundo e aguarda os resultados para poder recomendar oficialmente.

A declaração foi feita nesta segunda-feira, durante a coletiva de imprensa da OMS, em Genebra (Suíça). Respondendo a uma pergunta do UOL, Ryan indicou que existem "algumas indicações iniciais" de que o remédio pode ter "algum uso" no tratamento.

Ela explicou que o medicamento está sendo introduzido em testes realizados e pesquisas pela OMS ao redor do mundo. Segundo ele, a comunidade médica e de pesquisadores está avaliando a cloroquina como um "potencial".

Ryan também indicou que existem países que colocaram o produto em sua lista de sugestões de tratamento.

Mas afirmou que, por enquanto, não existem resultados de testes provando que a substância funcione contra o coronavírus. Ele também pediu cautela sobre os efeitos colaterais que o remédio pode ter. "Estamos ansiosamente esperando resultados", disse.

Diante da proliferação do vírus, a OMS sugeriu nesta segunda-feira que, no final das contas, só mesmo uma vacina vai conseguir frear a doença. "Em última análise, uma vacina será necessária", admitiu Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da agência.

Critérios para sair de quarentena

De acordo com a OMS, países europeus começam a ver uma queda na expansão no número de novos casos registrados de pessoas contaminadas. Mas a entidade alerta que isso não significa que quarentenas possam ser encerradas de um dia para o outro.

A entidade indicou que, nesta terça-feira, vai publicar uma nova estratégia sobre como lidar com o vírus e que inclui condições mínimas para que governos sigam, antes de retirar completamente uma quarentena.

"As mortes levam mais tempo para cair. Mas, em alguns países, a transmissão parece estar em queda. O distanciamento físico está tirando a pressão fora da epidemia. Mas agora é hora de vigilância e o caso não está terminado", alertou Ryan.

Segundo a OMS, países não podem "trocar a quarentena por nada".

O ponto central é a capacidade de um país de localizar o vírus. De acordo com Ryan, as restrições existem hoje justamente por não se saber onde está o vírus. "O único jeito (de fazer uma transição) é encontra-lo e isso só se faz testando", afirmou.

Os critérios da OMS para sair da quarentena

  1. Transmissão controlada
  2. Sistema de saúde capaz de testar e isolar casos
  3. Minimizar surtos em casas de repouso
  4. Administrar importação de casos
  5. Engajamento da comunidade
  6. Prevenção no trabalho e escolas

Tedros voltou a alertar para o risco de uma transição acelerada e sugeriu seis critérios para um país sair de uma quarentena.

O primeiro deles é ter sinais de que a transmissão está sob controle. Em segundo lugar, sistemas de saúde precisam estar preparados para testar, isolar e tratar todos os pacientes.

Outro critério é a capacidade de minimizar o surto em residências que abrigam idosos ou dentes, além de medidas de prevenção em escolas e outros locais essenciais. Isso significa manter leitos de UTI acima do que existia antes da pandemia, proteção aos médicos e outras medidas.

O quinto critério é o de conseguir administrar a importação de casos. A lista ainda inclui a construção de comunidades educadas para viver a nova norma.

Para Tedros, a decisão de um país de sair da quarentena ou coloca-la precisa ser tomada com base na proteção de saúde humana e guiada por como vírus se comporta. "O controle deve ser retirado lentamente. Não pode ocorrer de uma vez", disse.

Um dos motivos para o cuidado é a constatação da OMS de que a proliferação do vírus tem sido rápida e que a mortalidade é dez vezes superior às taxas do surto em 2009. "Em alguns países, os números dobram a cada três dias", disse. "Ela desacelera mais lentamente. A saída é muito mais lenta", alertou.

Mudança de comportamento

Na avaliação da OMS, o fim da quarentena terá de vir acompanhada ainda por uma mudança no comportamento das sociedades por meses ou até anos. Uma das possibilidades é de que o distanciamento físico seja mantido por um "longo tempo", ainda que o comércio volte a funcionar.

"Teremos de ter um sistema de saúde forte e comunidades engajadas. Esse é o único substituto à quarentena", disse Ryan.

A OMS ainda insiste: o final da quarentena não pode ocorrer da noite para o dia em todos os países da Europa.

Centros urbanos e pobreza

Se a estratégia de saída é a preocupação de parte da Europa, a OMS volta a insistir sobre a necessidade de governos de calibrarem uma resposta sanitária com uma resposta social e econômica.

"Em alguns locais, ficar em casa pode não ser uma (proposta) prática", disse Tedros, lembrando que muitos pobres e imigrantes ja vivem em locais complicados. "Como sobreviver se depende de renda diária?", questionou.

Tedros lembrou ainda que escolas fechadas estão atingindo 1,4 bilhão de crianças, o que significa a suspensão da educação, aumento de abuso e falta de alimentos.

Para o diretor-geral da OMS, a quarentena não pode ser a única resposta e precisa vir acompanhada por outras medidas. "Ficar em casa não pode vir às custas de direitos humanos", disse.

Ele voltou a pedir que governos equilibrem medidas de saúde e ações para minimizar o impacto social, já que a pandemia vai atingir de forma desproporcional os mais pobres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL