PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Jamil Chade


No Itamaraty, "príncipe" culpa China por pandemia e critica embaixador

Yang Wanming, embaixador da China - Adriano Machado/Reuters
Yang Wanming, embaixador da China Imagem: Adriano Machado/Reuters
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

16/06/2020 21h47

A China é a responsável pela pandemia e seu embaixador no Brasil foge de seu papel ao criticar políticos e ministros nacionais. O alerta é de Bertrand de Orleans e Bragança, numa palestra promovida nesta terça-feira pelo Itamaraty.

Trineto de dom Pedro II, o convidado foi apresentado pelos organizadores do debate como uma pessoa que descende de uma "longa tradição de heróis, reis e santos". Entre seus feitos está ainda a publicação de um livro sobre a "psicose ambientalista", numa crítica ao movimento verde.

No material de promoção do evento, Orleans e Bragança foi apresentado como "S. A. I. R.". Ou seja, "Sua Alteza Imperial Real", um título que desapareceu no país com a chegada da República, há mais de cem anos. A palestra com o suposto nobre foi mais um encontro numa série promovida pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) - órgão ligado à chancelaria - para avaliar o mundo "pós-pandemia".

Mas, ao avaliar a pandemia, o alvo dos ataques do príncipe foi Pequim. O convidado do Itamaraty repetiu o termo usado por Donald Trump de chamar o coronavírus de "vírus chinês". Explicando que "não tinha provas", ele ainda assim insistiu que foi do país asiático que veio o vírus e que, portanto, a China era a "grande responsável".

"Foi de la que se expandiu", disse. "O vírus teria escapado de um laboratório", afirmou o príncipe, uma vez mais repetindo um refrão da Casa Branca e, até hoje, sem comprovação.

O evento, assim, passou a ser um palco de críticas contra Pequim. Nos últimos meses, o próprio chanceler Ernesto Araújo vem liderando ataques contra a forma pela qual a China administrou a pandemia e insiste no risco de uma influência indevida do governo em entidades internacionais.

O mal-estar entre o governo e a China já havia sido foi relatado por ex-ministros, como Luiz Henrique Mandetta. No setor exportador brasileiro, alguns dos principais atores pediram cautela ao governo, já que um fechamento do mercado chinês representaria um duro golpe contra as empresas.

Agora, Orleans e Bragança também qualificou a responsabilidade da China de "culposa", diante de não ter alertado sobre a proliferação da doença. E, para ele, a OMS hoje está "dominada" por Pequim, que a transformou em uma "entidade comunista.

Ele também defendeu uma postura mais dura em relação aos chineses e se disse aliviado pela nova postura do Itamaraty de confrontar Pequim. "O Brasil não depende da China. É a China que depende do Brasil", disse. Para ele, se não comprar alimentos no Brasil, Pequim não teria de onde garantir seu abastecimento. "Quem é que vai alimentar a China?", questionou.

O príncipe ainda criticou o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, por tecer críticas contra políticos brasileiros e ministros.

"Não aceitemos o fato que hoje temos um embaixador da China que tem a pretensão de ser um cônsul e fica chamando a atenção de nossos políticos e ministros quando ele acha que algo contraria os interesses chineses", afirmou.

Diante dos ataques de deputados brasileiros e ministros contra o governo de Pequim, Wanming demonstrou sua irritação e criticou Eduardo Bolsonaro, filho do presidente.

No dia em que o Brasil registrou o maior número de mortes, com mais de 1,3 mil óbitos, o "príncipe" estimou que o país já teria chegado a um "plateau" na pandemia. E, sem fazer qualquer tipo de crítica à gestão da crise no país, garantiu que Deus ajudaria.

Jamil Chade