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Jamil Chade


Jamil Chade

Covid-19: Brasil terá de repensar estratégia para sair da crise, alerta OMS

Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra -
Diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante entrevista coletiva em Genebra
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

03/08/2020 08h03Atualizada em 03/08/2020 11h12

Resumo da notícia

  • Agência sugere que governos "apertem o botão de reset" para lidar com a crise e indica que Brasil terá de percorrer "longo caminho" para superar crise
  • Novos estudos indicam que um a cada 200 contaminados não sobrevive ao coronavírus, taxa superior aos surtos de 2009
  • OMS e China fecham acordo para iniciar missão conjunta para identificar a origem do vírus

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não haverá solução mágica contra Covid-19 no Brasil, alerta o país precisará percorrer um "longo caminho" para sair da crise e sugere que as autoridades no país repensem suas estratégias se quiserem superar a pandemia. "A situação no Brasil continua sendo de grande preocupação, com muitos estados relatando muitos casos", disse Mike Ryan, diretor de operações da OMS.

Citando os mais de 60 mil casos diários e mais de mil mortes, ele destaca que a transmissão continua intensa e alerta que "existem poucas rotas" hoje para sair da crise. Para Ryan, a primeira etapa precisa ser a de suprimir transmissão comunitária. "Isso só pode ser feito com uma parceira forte entre governo federal, estadual e comunidade", defendeu o irlandês nesta segunda-feira, numa coletiva de imprensa em Genebra.

Sua avaliação é de que o governo, assim como em outros países, deve criar condições para impedir que o vírus se transmita e estabelecer uma "arquitetura de segurança", detectar casos e criar uma situação em que a proliferação seja dificultada, principalmente em aglomerações. O especialista admite que isso é fácil de dizer e difícil de implementar.

Ryan, porém, deixa claro que rota para sair da situação será "longa" no Brasil e em outros países que vivem uma intensa transmissão e exigirá um "compromisso sustentável" por parte das lideranças. "Não há uma bala mágica (contra o vírus)", insistiu.

Para o especialista, chegou o momento de alguns governos "darem um passo para atrás agora" e avaliar se de fato está fazendo tudo o que podem, politicamente, economicamente e em termos de saúde para suprimir o vírus. "Vai precisar apertar o botão de reset", disse, numa alusão à reinicialização.

Maria Van Kerkhove, diretora técnica da OMS, também sugere que locais com maior número de casos recebam maior atenção e que não se espere por uma vacina. "Façam tudo", disse, numa referência ao pacote de medidas de distanciamento social, teste e rastreamento.

Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, também defendeu uma ação ampla. "Se fizermos tudo, podemos dar a volta. Nunca é tarde demais. Não devemos desistir. Tudo pode ser revertido", disse, numa mensagem também ao governo brasileiro.

Talvez nunca haja uma "bala de prata"

A Organização Mundial da Saúde ainda alerta que, mesmo que a vacina seja uma esperança, a comunidade internacional não deve esperar que haja uma "bala de prata" contra a pandemia da Covid-19.

"O mundo nunca viu algo assim desde 1918 e o impacto será sentido por décadas. Mas o seu controle está em nossas mãos", disse Tedros. A agência voltou a solicitar que governos atuem em todas as frentes, com testes, isolamento, distância, uso de máscaras e higiene, além de ampliação dos investimentos no setor de saúde. A ordem é a de não aguardar pela vacina. "Façam tudo", implorou o diretor da agência.

Na sexta-feira, a OMS concluiu sua reunião do comitê de emergência com a constatação de que a pandemia será uma crise de "longa duração" e apresentou uma série de propostas a governos para que estabeleçam estratégias de longo prazo para lidar com a situação.

"A pandemia é uma crise sanitária que ocorre uma vez em cada século e os seus efeitos serão sentidos nas décadas seguintes", disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Segundo ele, "muitos países que pensavam que o pior já tinha passado estão agora enfrentando novos surtos, outros que tinham sido menos afetados estão com aumentos de casos e de óbitos, enquanto países que tiveram grandes surtos conseguiram controlá-los".

Segundo ele, alguns países têm ainda conseguido controlar os surtos, o que é um sinal positivo.

"Medidas estritas afetam a sociedade e economia. O comitê admite que escolhas são difíceis. Mas quando lideres assumem papel e trabalham com comunidade, é uma demonstração que pandemia pode ser controlada", afirmou Tedros.

"Sabemos o caminho certo. O difícil é escolher seguir esse caminho", disse Ryan, numa recado direcionado a governos que optam por não seguir as recomendações de cientistas.


Letalidade: uma morte a cada 200 casos

Citando estudos realizados pelo mundo, a OMS ainda indicou que novas pesquisas indicam que a taxa de letalidade pode ser de 0,6% dos casos de contaminação, muitos dos quais jamais são registrados. De acordo com a agência, a taxa pode parecer baixa. Mas, em comparação com outras doenças e pandemias, o índice é considerado como elevado.

"Em 2009, tivemos uma morte a cada 10 mil ou 100 mil. Agora, a taxa é de uma morte a cada 200 casos", alertou Ryan. "Isso é enorme", indicou Ryan, numa referência a surtos respiratórios na Ásia.

"Esse é o momento de solidariedade", disse. Se a responsabilidade está com governos, ele defende que cada pessoa na comunidade analise sua exposição e seu comportamento. "Temos escolhas", disse, apelando para uma redução na exposição desnecessária.

Para ele, parte do recado ainda vai para a parcela de jovens que, em diversos países, voltaram a sair a bares e restaurantes, retomando uma vida próxima aos padrões que existiam antes da pandemia. "Esse vírus é mortal", insistiu.

Missão internacional para a China

A OMS ainda informou que a agência chegou a um acordo com o governo chinês para a formação de uma equipe internacional para investigar a origem do vírus. O time será formado por técnicos estrangeiros e chineses e atuará a partir de Wuhan para tentar entender como o vírus saltou dos animais para os humanos.

O assunto foi alvo de uma intensa negociação, diante da resistência de Pequim em permitir que a ação fosse estabelecida nos primeiros meses da pandemia.

Uma primeira missão da OMS chegou agora a um acordo com as autoridades chinesas sobre quais estudos serão realizados e de que forma atuarão.

Segundo Ryan, há um hiato importante na questão epidemiológica e não garantias de que os casos tenham origem em Wuhan. Mas a busca por respostas ocorrerá a partir dali, justamente por ter sido o local onde os primeiros registros oficiais apareceram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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