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Jamil Chade

Depois de saída de brasileiro, veto dos EUA deixa OMC sem direção

Retrato de Roberto Azevedo de costas - AFP via BBC
Retrato de Roberto Azevedo de costas Imagem: AFP via BBC
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

28/10/2020 13h58

O governo americano anunciou que não aceitará que a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala seja a nova diretora-geral da OMC. O nome da africana foi apresentado como a proposta que reúne o maior número de apoios, inclusive de todos os europeus. Mas a Casa Branca revelou nesta quarta-feira que vetará seu nome.

A escolha da nova direção foi obrigada a ser realizada depois que o brasileiro Roberto Azevedo decidiu antecipar sua saída do comando da OMC em um ano. Ele explicou, oficialmente, que tomou a decisão para "facilitar" a busca do novo diretor e impedir que, em 2021, uma conferência ministerial e sua agenda de acordos fossem afetadas pela eleição.

Mas se esse era o objetivo, sua decisão de sair de cena antes da hora não trouxe por enquanto o resultado esperado e, agora, a OMC vive um momento delicado que a pode jogar num limbo histórico. A nigeriana concorre contra a sul-coreana Yoo Myung-hee, a preferida dos EUA.

Depois de consultas com todos os estados-membros, um comitê dentro da OMC decidiu que o nome que reunia o maior número de apoios era o de Ngozi Okonjo-Iweala, que de fato tem até mesmo cidadania americana.

Com 66 anos de idade, ela já foi da direção do Banco Mundial e fez parte da Aliança Global para Vacinas e Imunização. Em seu país de origem, foi ministra de Finanças e ficou conhecida por ter convencido George W. Bush a perdoar uma dívida bilionária. Mais recentemente, ela fez parte do conselho da empresa Twitter Inc.

Mas sua visão considerada como sendo muito próxima de internacionalistas iria no sentido contrário ao pensamento da Casa Branca. Além disso, Washington afirmou que não estava de acordo com a maneira pela qual o processo foi conduzido.

Ao longo dos últimos meses, Trump tem atacado a OMC, alegando que suas decisões ferem os interesses americanos. Uma das consequências dessa atitude foi desmontar o órgão de apelação da entidade, uma espécie de Supremo Tribunal do comércio mundial.

O esforço dentro da OMC era a de escolher um novo nome antes das eleições americanas, na semana que vem. Mas, diante do impasse, uma nova reunião será organizada para o dia 9 de novembro. Até lá, a esperança é de que já haja uma definição política nos EUA.

Enquanto isso, nos corredores e emails internos da OMC, a saída de Azevedo continua sendo alvo de comentários. O brasileiro assumiu a vice-presidência da PepsiCo um dia depois de deixar a OMC, em 31 de agosto. Nas semanas seguintes, seu novo perfil nas redes sociais é usado para vender produtos da multinacional, inclusive para fazer anúncios sobre como fazer uma bebida ganhar mais bolhas.

Em um email que circulou amplamente entre os membros da OMC, um funcionário sugere em tom de ironia que máquinas sejam colocadas nos corredores para vender alguns dos produtos oferecidos nas redes sociais pelo ex-diretor. Entre eles, o gaspacho de uma marca adquirida pela PepsiCo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL