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Jamil Chade

Caracas sugere calmante para Ernesto; Brasil e Venezuela trocam provocações

O Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante Abertura Oficial do Fórum de Investimentos Brasil 2019 - Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo
O Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, durante Abertura Oficial do Fórum de Investimentos Brasil 2019 Imagem: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

01/12/2020 06h12Atualizada em 02/12/2020 16h36

A reunião ministerial extraordinária da Conferência Iberoamericana se transformou por alguns minutos em um palco de troca de farpas entre os governos do Brasil e da Venezuela. Nesta segunda-feira, o encontro organizado de forma virtual tinha como um dos objetivos principais tratar da resposta à pandemia da covid-19. Mas Caracas acusou o Itamaraty liderado por Ernesto Araújo de usar seu tempo de discurso para atacar o governo de Nicolás Maduro.

O governo brasileiro apenas divulgou a intervenção da diplomacia brasileira no evento quase 24 horas depois. Nele, o ministro criticava de forma dura o governo de Maduro, chamando-o de ilegítimo. O chanceler também insistiu que o grupo de países deveria se unir para lidar com temas como democracia e liberdade e sugeriu uma espécie de cláusula pela qual apenas democracias poderiam estar presentes, uma forma de tentar excluir o regime de Caracas.

Nos últimos meses, o Brasil tem elevado a voz contra Caracas, recebeu o secretário de Estado norte americano, Mike Pompeo, próximo à fronteira e suspendeu as credenciais de diplomatas venezuelanos.

O governo de Nicolás Maduro foi denunciado por uma investigação conduzida pela ONU de crimes contra a humanidade, de ter montado uma máquina de repressão e de graves violações aos direitos humanos.

Mas a fala do brasileiro levou o chanceler venezuelano Jorge Arreaza a pedir aos organizadores um direito de resposta, durante o encontro de segunda-feira. Repleto de ironias, o ministro de Caracas não poupou provocações.

"Ficamos muito surpresos. Na verdade, não nos surpreendemos com a intervenção do chanceler Ernesto Araújo. Ficamos preocupados. Sentimos ele um pouco alterado", disse. "Além disso, que ele tenha dedicado os sete minutos de sua intervenção a um dos 22 países dessa comunidade ibero-americana, chama a atenção", afirmou.

Arreaza indicou que, enquanto o Brasil falava, ele se lembrava das palavras de Jair Bolsonaro como deputado, "quando dizia que o erro da ditadura foi torturar, e não matar". "Isso ficou para a história", apontou.

Ele também lembrou como os generais brasileiros "torturaram a mataram brasileiros que lutavam por sua liberdade".

Arreaza ainda questionou os compromisso do governo brasileiro em termos de direitos humanos. "Bolsonaro também disse que seria incapaz de amar um filho homossexual. Quando falamos de direitos humanos, temos de passar por essas realidades", afirmou, lembrando que Araújo é o "porta-voz" do presidente.

Caracas ainda criticou a gestão brasileira da pandemia. "Sao 6,3 milhões de casos e 173 mil mortos. Isso são os direitos humanos?", questionou.

Receita de Fidel

Arreaza ainda completou sua resposta com uma sugestão ao brasileiro. "Queria recomendar ao chanceler do Brasil uma receita. O comandante Fidel Castro estudou muito a moringa, uma planta extraordinária, com propriedades curativas e também tranquilizante", disse. "Eu quero recomendar um chá de moringa, com um pouco de valeriana. Já vai ver como se abre o espaço para a tolerância ideológica, para que possamos inclusive debater", disse.

"Podemos inclusive debater eu e o senhor, sozinhos. Eu desafio. Moringa, nos sentamos, falamos de democracia, direitos humanos, da Amazônia, de mudanças climáticas, de geopolítica", afirmou.

O chanceler ainda mandou uma mensagem aos diplomatas brasileiros. "Sei que você estão em resistência, que tem vergonha das posições de seu chanceler. Mas, tranquilos. Isso é temporal e que, no final, nenhum governo, nenhum chanceler pode derrotar a excelência do que representa o Itamaraty. No final, esses anos serão apenas uma má lembrança e nada mais", completou.