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Jamil Chade

Governo manobra para preservar linha ultraconservadora na diplomacia

O então ministro de Relações Exteriores,  Ernesto Araújo, e o deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.   - Marcelo Camargo / Agência Brasil
O então ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o deputado Eduardo Bolsonaro durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

31/03/2021 03h59

Resumo da notícia

  • Postura pública em relação aos chineses pode mudar. Mas temas de direitos humanos, Israel e OCDE serão preservados
  • Ernesto Araújo tenta emplacar aliados em postos estratégicos para permitir continuidade de projeto

A queda de Ernesto Araújo não significará uma mudança radical na postura do Brasil em alguns dos principais assuntos da política externa e o governo manobra atua para preservar o caráter ultraconservador que marcou os dois primeiros anos de Jair Bolsonaro.

Desde a saída de Araújo do Itamaraty, há uma tentativa por parte do ex-chanceler de emplacar seus aliados em alguns dos departamentos considerados como chave dentro do Ministério das Relações Exteriores.

Isso, na visão da ala mais radical do bolsonarismo, permitiria que algumas das principais linhas de atuação do Brasil nos últimos dois anos sejam mantidas, principalmente no que se refere aos temas de costumes, direitos humanos e papel do multilateralismo.

Devem mudar as posturas públicas sobre a China, para não ampliar o desgaste e atender aos exportadores. Já o novo ministro, Carlos França, terá o desafio de reatar uma relação positiva com Joe Biden.

Mas a adesão do Brasil à OCDE, a defesa da religião, a postura antiaborto e questões sobre direitos humanos não devem ser afetadas. Também não deve ser afetada a nova aliança entre Brasil e Israel, um ponto que agrada a base evangélica do governo.

Ao entregar seu cargo, o chanceler passou a buscar espaço para os diplomatas considerados como aliados e aqueles que poderiam seguir a receita olavista para a política externa.

Uma das movimentações inclui a tentativa de colocar seu chefe de gabinete, Pedro Wollny, como secretário-geral, o que na prática seria o vice-ministro.

Outros também poderiam ser deslocados para áreas decisivas dentro do Itamaraty. A percepção interna no Itamaraty é de que os diplomatas mais alinhados com o olavismo terão dificuldades para que suas nomeações para cargos no exterior sejam aprovadas pelo Senado.

A busca, portanto, é para que possam ser descolados para áreas estratégicas em Brasília.

A própria escolha do novo chanceler, Carlos França, foi interpretada internamente como um sinal de que o Itamaraty foi "rebaixado" e que existe um risco real de que a política externa seja desenhada fora dos muros da chancelaria, justamente pela ala mais radical do governo.

França, um diplomata de pouco destaque, não tem poder interno, é considerado como uma pessoa sem um prestígio específico e incapaz de peitar o Planalto. Ele nunca chefiou uma embaixada do Brasil no exterior, nunca chefiou uma subsecretaria e nem um departamento no Itamaraty.

Ele poderia dar um novo tom público e evitar um confronto aberto com a China. Mas não mudaria de forma radical a postura do país, inclusive por ter ainda de coordenar posições com a ministra Damares Alves para temas de direitos humanos e com outras pastas.

Para embaixadores, um ponto fundamental é ainda a manutenção de Filipe Martins, assessor especial da presidência. Dentro do próprio gabinete de Araújo, diplomatas afirmaram à coluna que o assessor cometeu um sério erro durante a audiência do chanceler, no Senado, em fazer um sinal que foi interpretado como um gesto supremacista branco. Ele nega e teve seu posto preservado, o que mostrou que conta com força e apoio suficiente do bolsonarismo mais radical.

A formulação da política externa brasileira não é completa, porém, sem o envolvimento direto de Eduardo Bolsonaro. Nos primeiros meses de governo, ele chegou a ser cotado para ser embaixador do Brasil nos EUA e mesmo chanceler.

Hoje, diplomatas admitem que o governo resolveu esse impasse. O filho do presidente, mesmo de fora, tem o poder de dar as cartas no Itamaraty, sem nem precisar sequer assumir a pasta.