Jamil Chade

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EUA vetam resolução no Conselho de Segurança que pedia cessar-fogo em Gaza


16 mil mortos depois, o governo de Joe Biden vetou uma resolução no Conselho de Segurança da ONU que pedia o estabelecimento de um cessar-fogo imediato em Gaza, com base na necessidade humanitária. Para os americanos, a aprovação do documento nesta sexta-feira significaria "plantar as sementes do próximo conflito".

O texto teve o apoio de 13 dos 15 países do Conselho de Segurança, incluindo Brasil, China, Rússia e França. O Reino Unido se absteve. Mas coube, uma vez mais, ao governo dos EUA vetar a proposta.

Pelas regras do Conselho, o veto de um dos cinco membros permanentes do órgão é suficiente para impedir sua aprovação. No primeiro mês da guerra, os EUA já tinham vetado uma resolução proposta pelo Brasil e que apenas falava em uma trégua.

O texto vetado nesta sexta-feira tinha o apoio e copatrocínio de 97 países. Para a França, o Conselho está fracassando em seu mandato.

Antes da votação, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia feito um apelo desesperado por uma ação da comunidade internacional. Segundo ele, a população de Gaza está ficando "sem comida".

Mas, para o embaixador americano Robert Wood, não é hora ainda em falar de paz.

"O Hamas continua a representar uma ameaça para Israel e permanece no comando de Gaza. Essa não é uma ameaça que qualquer um de nossos governos permitiria que continuasse a permanecer em nossas próprias fronteiras", disse.

"Por esse motivo, embora os EUA apoiem firmemente uma paz duradoura, na qual israelenses e palestinos possam viver em paz e segurança, não apoiamos os pedidos de um cessar-fogo imediato. Isso apenas plantaria as sementes para a próxima guerra", justificou.

O governo de Israel também se opunha ao texto, alertando que o "único real caminho para a paz" seria a "eliminação do Hamas".

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Brasil alerta que credibilidade da ONU está em jogo

O governo brasileiro não economizou nas críticas ao Conselho e à postura dos EUA. Num discurso, o embaixador Sergio Danese insistiu que a "situação humanitária em Gaza é terrível e sem precedentes".

"Os apelos por um cessar-fogo humanitário da comunidade internacional, da ONU, dos agentes humanitários e também de todos os membros deste Conselho se multiplicaram justificadamente nas últimas semanas, após mais de dois meses de conflito", disse.

"Um cessar-fogo urgente é ainda mais necessário agora, desde a retomada das hostilidades. O conflito levou o sistema humanitário de apoio à vida dos civis em Gaza ao ponto de um colapso total e sem precedentes", alertou.

Segundo ele, mais de 80% dos palestinos em Gaza foram arrancados de suas casas e estão cada vez mais privados do mínimo necessário para sobreviver. "Essas condições são inaceitáveis", disse.

Danese lembrou dos esforços do Brasil no Conselho. "Nosso projeto de resolução foi apoiado pela grande maioria dos membros do Conselho, mas foi vetado por um membro permanente, como ocorreu com outros projetos", afirmou, numa alusão aos americanos.

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"Nossa proposta exigia pausas humanitárias imediatas, entre outras disposições. Se adotada naquela ocasião, milhares de vidas teriam sido salvas", insistiu.

Para ele., o Conselho deve agir "com responsabilidade para responder a essa tragédia que se desenrola".

"A dramática situação humanitária não nos deixa alternativa: precisamos de uma interrupção imediata das hostilidades - pelo tempo que for necessário - que permita uma ação humanitária adequada", defendeu.

"As disposições da resolução 2712, recentemente adotada por este mesmo Conselho, devem ser totalmente implementadas. Se isso não for feito, nós - especialmente os responsáveis por qualquer falha - corremos o risco de sermos cúmplices e de recebermos um julgamento muito negativo da História", alertou.

"É difícil expressar a frustração que muitos de nós continuam sentindo. Essa frustração não se deve apenas à inação do Conselho", lamentou.

"Não pode haver nenhuma atitude política e moralmente justificável em relação à crescente tragédia em Gaza, a não ser trabalhar para proteger as vidas dos civis agora e manter a pressão para a libertação imediata e incondicional de todos os reféns ainda mantidos em cativeiro", disse.

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Na avaliação do Brasil, a ONU precisa agir.

"O fracasso nessa tarefa provavelmente resultaria em um cenário em que a autoridade e a legitimidade do Conselho se desgastariam ainda mais e provariam sua incapacidade de cumprir suas obrigações de acordo com a Carta da ONU", alertou. Em detrimento da paz e da segurança mundiais, como podemos ver nos dias de hoje", completou Danese.

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