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Josmar Jozino

Presa número 1 do sistema carcerário feminino de SP comandou festa do PCC

Cândida Márcia Santana Bispo, 46, é apelidada de "Marcola de saia" - Reprodução
Cândida Márcia Santana Bispo, 46, é apelidada de "Marcola de saia" Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

02/12/2020 04h03

A presa Cândida Márcia Santana Bispo, 46, é apontada pela Polícia Civil de São Paulo como a número 1 da ala feminina do PCC (Primeiro Comando da Capital) no sistema prisional paulista. Segundo o MPE (Ministério Público Estadual), ela já passou por presídios da capital e do interior e em todos eles exerceu liderança sobre as demais prisioneiras.

Cândida já ficou presa nas penitenciárias femininas de Sant'Anna, Tupi Paulista, Tremembé 2 e Pirajuí. Agentes penais a chamam de "Marcola de saia", em referência ao líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital). Funcionários garantem que ela tem poder de decisão por integrar a alta cúpula da facção e por ter participado de várias missões a mando da organização. .

Segundo a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), Cândida é condenada a 21 anos, sete meses e 18 dias por formação de quadrilha, associação ao tráfico de drogas e posse ilegal de arma de uso restrito. Está recolhida em regime fechado.

Para o MPE, a liderança de Cândida ficou evidenciada em 31 de agosto de 2015, na Penitenciária Feminina de Sant'Anna, no Carandiru (SP). O PCC completava naquele dia 22 anos de fundação. Segundo a Polícia Civil, Cândida coordenou comemorações do "aniversário" da maior facção criminosa do país.

Na festa havia cocaína, maconha e cachaça. Uma presa filmou o evento com o celular, tão proibido quanto a entrada de drogas nas unidades prisionais. O episódio teve repercussão nacional — 'Foi uma esculhambação", relembrou um agente ao UOL.

Cândida aparece nas imagens fazendo discurso em exaltação ao crime organizado. Ela avisa as presas que não deu tempo para fazer o bolo. Diz também que a quantidade de droga obtida para a festa era pequena e pede às colegas para que cada baseado (cigarro de maconha) seja fumado no mínimo por grupos de três detentas.

Vídeo mostra festa de aniversário do PCC dentro de presídio feminino

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As gravações mostram ainda uma bandeja de cocaína. Com uma parte do pó branco, as presidiárias escreveram a frase PCC - 15.3.3 - 22 anos. Os números se referem à sigla da facção. O 15 corresponde a letra P no alfabeto, e o 3, à letra C.

Por causa dessa festa em 2015, Cândida passou a cumprir um ano de castigo no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado). Ela foi a primeira mulher internada no CRP (Centro de Readaptação Penitenciária) de Presidente Bernardes, presidio inaugurado em 2002 para abrigar líderes de facções criminosas.

No ano seguinte, 2016, a Justiça a condenou, em primeira instância, a 10 anos por tráfico de drogas e a absolveu da acusação de associação ao tráfico. Em julho de 2017, ela foi absolvida, em segunda instância, das duas acusações.

No segundo julgamento, a Justiça entendeu que "não foi apurado como as drogas foram fornecidas nem como ingressaram no presídio", durante a festa do PCC. Para a Justiça, o fato de Cândida ter participado do evento "não faz dela integrante de organização criminosa".

Cândida participou da construção de túnel para fuga

A defesa de Cândida sustenta que ela foi acusada injustamente, jamais pertenceu ao crime organizado, é inocente, cumpriu castigo no RDD durante um ano sem ter cometido falta disciplinar e que perdeu a saúde física e mental, além de parte da visão por conta das acusações.

A "Marcola de saias", como é chamada por agentes penais, foi condenada em 2009 quando a Polícia Civil a acusou de comandar uma tentativa de resgate de presos da alta cúpula do PCC na Penitenciária 1 de Avaré (SP). A quadrilha liderada por ela comprou uma casa nas imediações do presídio.

O PCC investiu R$ 600 mil na empreitada. O bando cavou um túnel de 160 metros de extensão, da residência até a parte interna da unidade prisional. A obra de engenharia tinha iluminação e ventilação artificial. As escavações terminaram sob um pequeno lago dentro do terreno do presídio e o risco de infiltração de água pôs fim ao plano.

Cândida já poderia estar no semiaberto, não fosse outra acusação: Em dezembro de 2019 foi apontada como mandante das agressões contra uma presa da Penitenciária 2 de Tremembé, Vale do Paraíba. A falta foi considerada grave e o Ministério Público Estadual pediu a interrupção do prazo para obtenção da progressão de regime. Cândida alegou ser inocente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.