PUBLICIDADE
Topo

Josmar Jozino

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Rei do roubo de cargas morre na prisão após enganar a polícia, MP e Justiça

Albiazer Maciel de Lima, 44, considerado o rei do roubo de cargas no país - Reprodução/SSP
Albiazer Maciel de Lima, 44, considerado o rei do roubo de cargas no país Imagem: Reprodução/SSP
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

18/06/2021 04h00Atualizada em 18/06/2021 05h07

A Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte de Albiazer Maciel de Lima, 44, apontado como o "rei" do roubo de cargas no país. Ele morreu na última segunda-feira (14), logo após apresentar sangramento na boca e no nariz na cela 310 do pavilhão 3 da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP), onde tinha a matrícula de número 506.872.

Maciel havia sido condenado a 67 anos de prisão por roubos no Distrito Federal, Guarujá e Campinas. Nesta última cidade paulista, ele foi acusado de ter roubado R$ 80 milhões em cargas de telefones celulares, tabletes, notebooks e outros produtos eletrônicos da fábrica da Samsung, em 7 de julho de 2014.

O detento Wallace Mariano de Oliveira servia o café aos demais prisioneiros quando viu Maciel passando mal e chamou os agentes penitenciários. O preso foi levado para a enfermaria já sem os sinais vitais. Depois foi removido para a Santa Casa de Venceslau onde a morte foi confirmada. Os seis presidiários da mesma cela alegaram que ele se engasgou com café.

Cleberson Paulo dos Santos, o "Irmão Mimo", companheiro de cela de Maciel, acusado de tentar matar o delegado-geral Rui Ferraz Fontes a mando do PCC (Primeiro Comando da Capital), está sob averiguação e, segundo a diretoria do presídio, "teve a sua conduta amoldada ao rol das faltas de natureza grave".

Uma das suspeitas da Polícia Civil é a de que Maciel tenha sido assassinado com o chamado "gatorade", um coquetel da morte feito com cocaína, viagra e água. A mistura causa overdose. O PCC passou a usá-la em várias prisões de São Paulo para matar rivais em meados dos anos 2000. Só o resultado da perícia vai dizer se foi homicídio ou morte natural.

Também conhecido como Biá ou Ali Babá, por ter comandado uma quadrilha formada por 40 ladrões de cargas, carros-fortes e agências bancárias, Maciel chegou a ser preso com três nomes diferentes e enganou a Polícia Civil, o Ministério Público e o Poder Judiciário em São Paulo e em Brasília.

Em São Paulo, o assaltante foi preso com dois nomes distintos e pode ser o único presidiário que tem duas matrículas na SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária). Quando deu entrada na antiga Casa de Detenção, no Carandiru, em agosto de 2001, Maciel recebeu o prontuário número 175945 e matrícula 213.972.

Albiazer entrou com nome falso de Marcelo Alves de Lima na Casa de Detenção, no Carandiru, em 2001 - Reprodução/SSP - Reprodução/SSP
Albiazer entrou com nome falso de Marcelo Alves de Lima na Casa de Detenção, no Carandiru, em 2001
Imagem: Reprodução/SSP

Na ocasião, ele foi preso com o nome de Marcelo Alves de Lima, acusado por um roubo a banco no Guarujá. O criminoso só ficou dois meses atrás das grades. Em novembro de 2001 fugiu da Penitenciária do Estado, no Complexo do Carandiru. Por esse assalto foi condenado a 23 anos.

Em 2003, Maciel foi acusado de participar da tentativa do roubo à Confederal, em Brazlândia, no Distrito Federal. Ele foi identificado como Marcelo Lima da Silva. O assalto não foi consumado. O bando sequestrou o superintendente da empresa e Ali Babá foi condenado a 38 anos e 10 meses.

No DF, Albiazer foi identificado como o nome falso de Marcelo lima da Silva - Reprodução/SSP - Reprodução/SSP
No DF, Albiazer foi identificado como o nome falso de Marcelo lima da Silva
Imagem: Reprodução/SSP

Durante 14 anos Maciel ficou foragido e driblou as autoridades de segurança pública no Brasil. Ele só foi preso em 5 de maio de 2015, em Sorocaba, por policiais do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) da Polícia Civil de São Paulo.

Na casa dele foram apreendidos uma caminhonete Toyota Hilux, um Volkswagen Fox, um fuzil HK calibre 762, pistola automática e munição. A Justiça condenou Maciel a cinco anos e três meses.

Dias antes da prisão, ladrões fizeram um mega-assalto na central de distribuição da Magazine Luiza, em Louveira. Assim como no roubo milionário à Samsung, o bando lotou caminhões e carretas com a carga roubada. A participação de Maciel no crime não foi comprovada.

A farsa de Maciel, preso com três nomes distintos, só foi comprovada no segundo semestre do ano passado, quando as digitais colhidas no Distrito Federal foram confrontadas com as de São Paulo e o resultado foi positivo. Ele quase foi solto em setembro de 2020. As fotos dos prontuários também foram analisadas e, segundo peritos, são dele mesmo.

Apesar da descoberta do golpe, o "rei" do roubo de cargas, mesmo estando morto, confundiu na última segunda-feira o diretor-geral da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, Malvino André Alves Fahl, que se equivocou com a numeração da matrícula do preso ao comunicar a morte dele à Justiça e forneceu a mais antiga, do Carandiru, que tinha o nome falso.

Antônio Carlos Romeiro, advogado de Maciel, foi procurado pela reportagem e disse que não sabia o que tinha acontecido com seu cliente. A SAP informou que Cleberson Paulo dos Santos e os demais companheiros de cela de Maciel são averiguados. A pasta não se manifestou sobre a farsa do" rei" do roubo de cargas.