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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

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'Herói' dos Bolsonaro, miliciano estudava snipers e era fã de Pablo Escobar

Colunista do UOL

24/09/2022 04h00

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O podcast UOL Investiga: Polícia Bandida e o Clã Bolsonaro traça um perfil de Adriano Magalhães da Nóbrega, o homem antes de virar capitão do Bope e de ascender no crime.

Traz inclusive com informações inéditas da tentativa de um acordo de colaboração premiada da mulher que foi companheira dele por uma década, Julia Lotufo. Segundo ela, Nóbrega chegou a cobrar R$ 500 mil para matar uma pessoa quando comandava um grupo conhecido como Escritório do Crime.

"Existia o mensal, muito mensal mesmo, seria bem pouquinho, não era grandes coisas, e eles ganhavam por assassinatos", contou Julia ao MP-RJ (Ministério Público do Rio). "Acredito que dependia do alvo. Soube de um porque foi R$ 500 mil, mas acredito que dentro desses teve alguns que foram mais que isso", completou. Procurada, Julia Lotufo não quis conceder entrevista.

Filho de Raimunda Veras Magalhães e José Oliveira da Nóbrega, Adriano Nóbrega nasceu no Rio de Janeiro, em 1977. A coluna apurou com pessoas que conviveram por anos com o ex-capitão que ele gostava de ler livros sobre snipers e, nos últimos anos da vida, tinha se interessado muito pela história do narcotraficante colombiano Pablo Escobar, acompanhando séries e filmes sobre a história de Escobar. A coluna chegou a ver Nóbrega num vídeo com uma camiseta com a foto de Escobar estampada no peito.

Em uma das investigações dos crimes dele, uma testemunha contou que ele tinha um modus operandi para cometer "crimes perfeitos". Segundo ela, Nóbrega usava um fuzil com a coronha cortada e se colocava no banco de trás do veículo, deixando só o cano da arma para o lado de fora. Desse jeito, evitava que as cápsulas das balas caíssem fora do veículo depois que ele disparava. Isso impedia um confronto de balística durante as investigações.

A coluna verificou que essa estratégia de guardar as cápsulas também foi usada em 2003 quando ele foi acusado de liderar o grupo que matou Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros que denunciou ter sido torturado para entregar dinheiro a um grupo de policiais coordenados por Nóbrega na região de Parada de Lucas, quando estava lotado no 16º Batalhão da Polícia Militar. Pouco antes do assassinato, Nóbrega foi homenageado por Carlos e Flávio Bolsonaro.

Infância violenta

Quando era criança, ele chegou a morar na comunidade do Rato Molhado, perto do Túnel Noel Rosa, que fica na zona norte do Rio. Ali, viu a violência de perto desde cedo. Ao longo da vida na comunidade e depois em outros lugares onde a família dele viveu, Nóbrega acompanhou, dentro de casa, o pai agredir a mãe.

A situação se estendeu até a mãe dele fugir de casa. Ela deixou Adriano Nóbrega e duas filhas com o ex-marido e foi se abrigar com uma irmã. Depois, passou a trabalhar como balconista em uma farmácia.

Nesse tempo, o pai dele levou os três filhos para viver num rancho perto de Cachoeiras do Macacu, no interior do Rio. Lá Adriano viu o pai se aproximar de Rogério Mesquita, um conhecido bicheiro.

Perto de fazer 18 anos, ele decidiu prestar concurso e entrar para a polícia, o que realmente aconteceu em 1996. Ainda aspirante, decidiu fazer o duro curso do Bope. Segundo Rodrigo Pimentel, ex-instrutor no Bope, ele quis entrar para a polícia depois de ver uma operação.

"A gente identifica alguns alunos, já na academia, que têm mais ou menos o perfil do Bope. Não pela força física, mas pelo entusiasmo, pela vibração, pela vontade de fazer as coisas. Ele era um cara vibrador. Ele era muito forte", conta Pimentel.

Adriano Nóbrega cresce no Bope, mas começa a fazer bicos de segurança e acaba expulso da tropa de elite pelo coronel Sérgio Meinicke, um dos fundadores do Bope.

Entre 2003 e 2006, ficou preso enquanto aguardava o julgamento pela morte de Silva. Chegou a ser condenado em 2005, mas o júri foi anulado posteriormente por questões processuais que envolviam os demais acusados pelo crime.

Ainda na cadeia, porém, foi cooptado para trabalhar com a máfia da contravenção pelo bicheiro Rogério Mesquita. O amigo de seu pai queria proteção na guerra que mantinha com adversários. Então, por uma mesada de R$ 5.000, o ex-capitão passou a indicar policiais militares para fazer a segurança dele. Todos esses detalhes foram expostos em um depoimento de Mesquita, dado após ele ter rompido com Nóbrega, o que o transformou em alvo do ex-caveira em 2008.

Também em 2008, a então mulher de Adriano, Danielle Nóbrega, passou a ter um cargo no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio). Mas Danielle não trabalhava, era uma funcionária fantasma. E assim permaneceu até 2018, quando eclodiu o escândalo das rachadinhas na Alerj e foi descoberta a movimentação atípica de Fabrício Queiroz, que era amigo de Nóbrega desde a PM e ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

Quando o MP estava investigando o paradeiro de Nóbrega, em julho de 2019, Julia foi flagrada em uma escuta telefônica falando de Danielle. "Ela [Danielle] foi nomeada por 11 anos. Onze anos levando dinheiro, R$ 10 mil por mês para o bolso dela. E agora ela não quer que ninguém fale no nome dela? Ela sabia muito bem qual era o esquema. Ela não aceitou? Agora é as consequências do que ela aceitou."

Ascensão no crime

De 2008 até sua morte, em 2020, Adriano Nóbrega ascendeu no mundo do crime, enquanto acumulava diversos homicídios sem solução na polícia do Rio. Em 2011, foi alvo da Operação Tempestade no Deserto. A operação tinha como objetivo prender uma quadrilha de contraventores especializados em jogo do bicho no Rio.

Segundo a promotoria fluminense, a quadrilha era liderada por Shanna Harrouche Garcia, filha do bicheiro Waldomir Paes Garcia, o "Maninho", morto em 2004. O grupo foi acusado de formação de quadrilha armada e tentativas de homicídio qualificado. De acordo com a denúncia do MP, Nóbrega e outros policiais tentaram matar Rogério Mesquita e outras três pessoas na madrugada do dia 10 de maio de 2008, por ordem de Shanna.

Apesar da denúncia, Nóbrega escapou da prisão em 2011. No entanto, a permanência dele na PM se tornou insustentável, acabando expulso em 2014. Já no mundo do crime ele crescia e se torna líder de um grupo de matadores conhecido como Escritório do Crime, além de integrar uma milícia em Rio das Pedras para lavar o dinheiro dos negócios criminosos.

Em um dos anexos de sua proposta de delação, Julia contou que foi Raimunda Veras Magalhães, a mãe de Nóbrega, que ficou com a "herança" do miliciano em Rio das Pedras. Sobretudo os imóveis para aluguel na favela.

"Quando ele morre, a mãe do Adriano vem com uns papéis. Eu presenciei anos atrás, o Adriano tinha se separado e entregou para mãe uma lista de papéis da associação de moradores de Rio das Pedras e ele tinha 70 imóveis. Então ela vem com isso após a morte e eu aceitei porque eu não aguentava. Eu já não queria. Já não briguei por aquilo", afirma Julia.

Essa disputa por conta dos bens aconteceu depois que Nóbrega morreu numa operação policial na Bahia em fevereiro de 2020. Julia acredita que o Adriano foi assassinado e que o crime tenha o envolvimento do bicheiro Bernardo Bello. O caso segue em investigação.