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Kennedy Alencar

Republicanos fazem convenção com brancos para brancos, e apelam a fake news

Donald Trump Jr. - Drew Angerer/Getty Images
Donald Trump Jr. Imagem: Drew Angerer/Getty Images
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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

24/08/2020 23h59Atualizada em 25/08/2020 10h28

A primeira noite da Convenção Nacional Republicana foi marcada por uma maioria de oradores e personagens brancos, por discursos de tom nacionalista exaltando a "América grande", críticas a um suposto "socialismo" do Partido Democrata e por uma defesa de Donald Trump como o presidente das "promessas feitas, promessas mantidas".

A exemplo do discurso feito por Trump no meio do dia em Charlotte, na Carolina do Norte, onde ocorre oficialmente o encontro republicano, o programa transmitido à noite colocou foco na base trumpista. Foi um rosário de defesa do que os americanos brancos acham que os Estados Unidos devem ser.

Faltou diversidade num ano em que o país teve os maiores protestos populares desde a luta pelos direitos civis nos anos 60. Quando apareceu descontraído conversando com trabalhadores da linha de frente de combate à covid-19, Trump estava rodeado por sete brancos.

Nikki Haley resumiu a noite. A ex-embaixadora dos Estados Unidos (EUA) na Organização das Nações Unidas disse que Joe Biden e Barack Obama querem instalar "o socialismo" no país. Segundo ela, a China mandou o "coronavírus" para o país. Ela, branca, disse que os EUA não são um país racista, invocando o fato de ser filha de imigrantes.

Na abertura, o ator John Voight fez a narração de imagens que mostravam a luz do sol, num contraste com a afirmação de Biden de que Trump representa um "período de trevas" que precisa ser encerrado em defesa da democracia. De acordo com Voight, Trump é um presidente que "ama a América e os americanos". Ele seria alguém "preocupado com as pessoas".

Os republicanos procuraram vender a imagem de um país que avança, que está bem e não em crise, ao contrário do retratado na Convenção Nacional Democrata na semana passada.

Chamado às armas

O encontro republicano ocorre oficialmente em Charlotte, na Carolina do Norte, entre esta segunda e quinta. Mas foi preparado um palco no auditório Mellon, um prédio neoclássico em Washington. A decoração evocava as solenidades nazistas. Uma grande bandeira caindo do teto ao chão, com outras bandeiras menores servindo de fundo.

A estética algo nazista recebeu até as 22h40 no horário de Washington 12 oradores brancos contra 4 negros. Houve ainda dois oradores de origem latina. O esforço para mostrar diversidade soou falso diante de discursos tão "brancos" na sua essência.

Em resumo, o recado da noite foi um chamado às armas para a base americana trumpista tentar reverter a desvantagem do presidente nas pesquisas. O casal "Bonnie & Clyde", que ameaçou com armas em punho manifestantes em São Luís, no Missouri, teve palco para defender a família americana e falar contra o risco marxista.

O discurso de Donald Trump Jr., candidato a político da família, foi permeado de anticomunismo. Os EUA teriam sido atingidos pelo vírus do "Partido Comunista Chinês" e pelo "politicamente correto". "As pessoas de fé estão sob ataque. Não deixam as pessoas irem às igrejas", disse o filho do presidente, responsabilizando democratas por impedirem encontros religiosos.

Uma noite de desinformação e fake news

É preciso combater a esquerda radical e marxista, segundo Donald Trump Jr., que fez uma descrição errada do moderado Biden, que não tem nada de comunista, marxista ou ateu. Foi mais uma noite de desinformação e fake news, o que encontra eco no eleitorado branco, como evidenciou a vitória de Trump quatro anos atrás.

Os oradores republicanos venderam a ideia de que a violência policial não é um problema estrutural, mas uma exceção, como maçãs podres que contaminariam o cesto. Trump foi apontado como a solução para tornar "a América grandiosa novamente", repetindo o slogan vitorioso de 2016. Mas os fatos mostram mais de 5,7 milhões de casos de covid-19 e mais de 177 mil americanos mortos. Dois terços dos americanos reprovam a resposta de Trump à pandemia, atestam as pesquisas.

"Os Estados Unidos são o maior país do mundo", disseram à exaustão Donald Trump Jr. e outros oradores. Segundo o filho do presidente, o pai representa um futuro "bonito e brilhante" para o país. A ideia de Trump Jr. foi mostrar Biden e os democratas como defensores de um projeto de trevas para os EUA, como se fossem implantar o socialismo no país mais capitalista da face da terra.

A narrativa é falsa, mas tem certo apelo perante setores conservadores. Desinformação, como dizer que Biden quer retirar verba da polícia, foi vendida como verdade. A aposta parece ter sido a de assustar o eleitorado branco, confiando na "maioria silenciosa" nas eleições de 3 de novembro ao pintar eventual vitória democrata como se fosse o apocalipse.