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Kennedy Alencar

Comércio de Washington usa proteção antifuracão temendo fúria após eleições

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

29/10/2020 12h12

Com medo de protestos com quebradeira e saques após as eleições da próxima terça-feira, 3 de novembro, lojas, restaurantes, bares e bancos do centro de Washington reforçam a defesa de seus estabelecimentos com tapumes para proteger vitrines e principais portas de entrada.

Não deve ser descartada uma onda de violência no país em caso de derrota de Trump. Há milícias de extrema direita que se armaram e são hoje a maior ameaça à segurança nacional dos EUA, segundo o próprio FBI, a polícia federal do país. O presidente fala o tempo todo que uma "esquerda radical louca" quer destruir os Estados Unidos e que o moderado Biden seria refém do grupo. Ele joga gasolina na fogueira em seus comícios, sempre demonizando os adversários.

No centro da capital, Rene Durán e mais três trabalhadores passaram a última semana colocando placas de madeira prensada para proteger estabelecimentos comerciais da cidade. "É para o dia da eleição. Pode haver violência", ele diz, enquanto vai cobrindo as vitrines de um café que fechou na esquina das ruas 11 e E, na área dos teatros perto do Ford, local onde o presidente Abraham Lincoln foi assassinado em 1865.

Várias lojas, bares e restaurantes fecharam as portas em definitivo em Washington por causa da crise econômica provocada pela pandemia, sobretudo na área bem central, perto dos prédios públicos mais importantes. Antes lotado de turistas, o centro tem calçadas e ruas esvaziadas na comparação com o período pré-coronavírus.

Rene, 49 anos, é um imigrante de El Salvador que votaria em Biden se pudesse, mas ele não tem registro eleitoral. Afirma que, se o democrata perder, haverá protestos violentos. Mas Rene também acha que pode acontecer o mesmo em caso de vitória de Biden. "Melhor estar preparado para tudo", recomenda.

Rene está certo. O atual presidente dos Estados Unidos tem feito campanha dizendo que só uma grande fraude levaria à sua derrota. A base trumpista compra o discurso mentiroso e conspiratório, apesar de as pesquisas de intenção eleitoral mostrarem que Biden é o franco favorito na eleição que acaba na terça. Quase 80 milhões de americanos já votaram antecipadamente, o que é permitido nos EUA.

Área perto da Casa Branca é a mais visada

Recentemente, o FBI descobriu um plano de um grupo de extrema direita para sequestrar e executar a governadora do Michigan, Gretchen Whitmer. Os milicianos estavam insatisfeitos com as respostas rigorosas que ela deu à pandemia, como quarentena e regras paulatinas para reabertura econômica no estado.

No centro de Washington, já havia estabelecimentos com vitrines protegidas durante os protestos de maio e junho contra a violência policial e o racismo estrutural. Na época, logo após o assassinato de George Floyd em Minneapolis, no estado de Minnesota, houve quebradeira e saques em todo o país e na capital americana.

A maioria dos manifestantes protestou pacificamente, mas uma minoria recorreu à violência, condenada por Trump e também por Biden.

Na reta final das eleições, houve uma nova rodada para instalar mais placas de madeira em Washington, sobretudo nos estabelecimentos mais próximos da Casa Branca.

Tapumes em frente ao Hotel Trump

Noel Turcios, 27 anos, trabalhava com um colega no fim da tarde desta quarta-feira para colocar tapumes na fachada do restaurante Central, na avenida Pensilvânia, que liga o Congresso americano à sede do governo.

"Estamos fechando as vitrines do comércio porque a eleição será na semana que vem. Com tudo o que aconteceu nos últimos meses, os donos estão preocupados e querem evitar danos", diz Noel.

A localização do restaurante Central parece mais vulnerável a protestos. A quatro quadras da Casa Branca, o restaurante fica bem em frente ao Hotel Trump, na avenida Pensilvânia.

Para Noel, há mais risco de protestos violentos se Biden perder, o que deixaria eleitores democratas insatisfeitos e dispostos a protestar bem em frente ao hotel do presidente. O Distrito de Columbia, onde fica Washington, tem uma das mais altas taxas de votação no Partido Democrata em todo o país. Com uma vitória de Biden, diminuiria a chance de protestos numa "bolha democrata".

"Vote, vote, rapaz"

Indagado sobre o seu voto, Noel tentar evitar o assunto. Primeiro, diz que não deve votar. Carolyn Lane, moradora do centro que andava de bicicleta e acompanhou a conversa, faz um apelo para ele não deixe de votar.

"É importante. Vote, vote, rapaz. Você tem de votar", ela pede.

"Em quem você quer que eu vote?", Noel pergunta.

"Biden", ela diz.

"Então, vou votar no Biden", responde Noel, carregando a madeira para terminar o serviço e encerrar a conversa.

"Catástrofe presidencial"

Carolyn, 65 anos, vive no centro de Washington há 11 anos. Ela vê um cenário distópico nos EUA. Acha possível que ocorram protestos violentos no país: "Trump tem estimulado teorias da conspiração. Os eleitores dele acreditam que ele vai ganhar e que só uma fraude o derrotaria".

Crítica do presidente, Carolyn, que trabalha numa instituição sem fins lucrativos na área de energia renovável, tem feito campanha por Biden. Além do corpo-a-corpo, ela escreve cartas para eleitores a fim de estimular o comparecimento num país em que o voto é facultativo. Mobilizar a sua base de eleitores é fundamental para vencer as eleições.

"Eleições presidenciais sempre foram um momento de exercício e celebração da democracia, um orgulho para os Estados Unidos. Sempre houve transferência ordeira de poder refletindo a vontade do povo", diz Carolyn, criticando a recusa de Trump em assumir compromisso com uma transição de governo pacífica se perder.

"Na terça-feira, uma semana antes das eleições, fui pedalar e encontrei edifício após edifício com proteções já instaladas ou sendo colocadas agora por causa da eleição. Nunca tinha visto esse tipo de preparação para uma catástrofe, exceto quando vivia na Flórida e me preparava com minha família contra furações".

Carolyn lamenta as cenas que viu durante a pedalada: "Se a utopia é um projeto para uma sociedade ideal com o mínimo de crime, violência e pobreza, então fechar uma grande parte dos negócios no centro de Washington em antecipação ao caos e tumultos após a eleição é uma distopia. Me entristece muito ver esta bela capital fechada com tábuas devido a uma catástrofe presidencial".