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Kennedy Alencar

Brasil segue passos dos EUA para "tempestade perfeita" de covid-19 no Natal

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

19/11/2020 14h09

Uma tempestade perfeita de coronavírus tomou conta dos Estados Unidos (EUA) e mudará os encontros familiares no mais tradicional feriado americano, o Dia de Ação de Graças, que cairá neste ano em 26 de novembro. No Brasil, algo parecido poderá acontecer nas festas de Natal e Ano Novo.

Ao longo de 2020, o Brasil tem sido uma espécie de espelho com efeito retardado do que ocorre nos Estados Unidos. Os dois presidentes, Donald Trump e Jair Bolsonaro, agravaram os efeitos da pandemia com negacionismo científico e incompetência administrativa. EUA e Brasil pagam o preço de não terem uma estratégia nacional de combate à covid-19.

Desde o começo de outubro, a curva de crescimento da pandemia nos EUA voltou a subir de modo acelerado. O país saltou de um patamar entre 40 mil e 50 mil novos casos diários para um número que girou em torno de 155 mil infecções em média nos últimos sete dias.

Nesta quarta-feira, houve 172.391 novos casos de covid-19 e 1.923 mortes em todo o país, de acordo com o jornal "The New York Times". As infecções cresciam em 46 dos 50 estados.

Há previsões de que a taxa de novos casos caminhe para o assustador patamar de 200 mil diariamente. Nesse ritmo, a mortalidade poderia chegar a 3.000 a cada 24 horas. As internações aumentaram, estressando o sistema hospitalar em alguns estados.

Epicentro da pandemia no início do ano, a cidade de Nova York decidiu fechar as escolas, voltando a adotar ações duras por causa da nova onda de covid-19.

Os EUA devem chegar em menos de uma semana a 12 milhões de casos. As mortes ultrapassaram a marca de 250 mil.

As autoridades sanitárias recomendam que as pessoas não façam encontros familiares no Dia de Ação de Graças para evitar que o feriado vire um novo evento superdifusor de coronavírus. Foram confirmados os temores de que, com a chegada do outono, a pandemia voltasse a se agravar devido ao tempo mais frio, que estimula encontros em ambientes fechados. Especialistas alertam para que os procedimentos de restrição de reuniões familiares aconteçam também no Natal e no Ano Novo, época de inverno nos EUA.

Trump boicota Biden e agrava problema; no Brasil, Bolsonaro reclama de "conversinha"

Um fator político piorou ainda mais a situação: o presidente Donald Trump se recusa a permitir que oficiais do governo encontrem o time de transição de Joe Biden, que venceu a disputa pela Casa Branca. Biden afirmou que a atitude de Trump pode atrasar "por semanas ou meses" os preparativos para aplicar uma vacina em 2021.

Principal infectologista do país, Anthony Fauci, disse que conversas com a equipe do presidente eleito "ajudariam" a enfrentar melhor a pandemia, com uma estratégia nacional de medidas paliativas enquanto é aguardada a vacinação em larga escala no ano que vem. Fauci, que serviu a seis presidentes, é o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

Desde a derrota eleitoral, Trump raramente aparece em público. Não se reúne com a força-tarefa da Casa Branca para combate à covid-19 desde o início de agosto. Gasta seu tempo com posts nas redes sociais para repetir acusações falsas de fraude eleitoral. Já demitiu dois altos oficiais em retaliação à derrota eleitoral: Mark Esper, que era secretário de Defesa e se opôs a usar militares para reprimir manifestantes, e Christopher Krebs, diretor de cibersegurança do Departamento de Segurança Interna que afirmou que os EUA tiveram as eleições mais limpas de sua história.

No Brasil, o roteiro de crise sanitária agravada por negligência homicida é seguido à risca por Bolsonaro. O presidente brasileiro mente a respeito da pandemia e fala absurdos que estimulam as pessoas a correr mais riscos, como quando reclamou de "um país de maricas" ou da "conversinha" sobre uma segunda onda da pandemia no país. Sem reconhecer a vitória de Biden, Bolsonaro segue a trilha de Trump e conduz o Brasil à sua tempestade perfeita de coronavírus.