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Kennedy Alencar

Eleições mostram que deixar frente ampla para 2º turno pode ser fatal em 22

É necessário colocar os ressentimentos de lado. Entender o sentido da história é fundamental se esquerda pretende chegar competitiva em 2022, na briga pelo Palácio do Planalto (foto) - Beto Barata - 19.jul.2016/PR
É necessário colocar os ressentimentos de lado. Entender o sentido da história é fundamental se esquerda pretende chegar competitiva em 2022, na briga pelo Palácio do Planalto (foto) Imagem: Beto Barata - 19.jul.2016/PR
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

30/11/2020 12h41

Os resultados das eleições municipais mostraram o agudo enfraquecimento da onda bolsonarista, mas também revelaram que o conservadorismo continua firme e forte no Brasil.

Não houve uma vitória do "centro político", mas de forças de centro-direita e direita. Parte dessas forças chegou ao poder em 2018 com apoio do obscurantismo e resolveu se afastar na pandemia do presidente Jair Bolsonaro, como é o caso do tucano João Doria, governador de São Paulo.

Outra parcela dessas legendas conservadoras vencedoras integra o chamado "Centrão", a base de apoio de Bolsonaro no Congresso

Na comparação com as legendas conservadoras, os partidos de esquerda e centro-esquerda perderam, com destaque para o PT, apesar de boas performances pontuais.

O PSOL cresceu com o desempenho de Guilherme Boulos na eleição paulistana. Boulos é uma nova estrela na política nacional e tem futuro eleitoral promissor após obter mais de 40% no segundo turno em São Paulo. O PSOL elegeu Edmilson Rodrigues em Belém, contribuindo para o bom desempenho do partido nestas eleições.

O PDT de Ciro Gomes saiu vitorioso em Fortaleza com a eleição de José Sarto, mas o apoio do PT do governador Camilo Santana foi fundamental para derrotar o bolsonarista Capitão Vagner (PROS).

Frente ampla no segundo turno apenas não teve força suficiente

Manuela D'Ávila, do PCdoB, fez campanha empolgante em Porto Alegre, mas naufragou novamente, vítima de fake news, expediente que muitos candidatos do celebrado "centro político" usaram no segundo turno. Governador do Maranhão e presidenciável, Flávio Dino (PCdoB) não foi um cabo eleitoral de peso no estado.

Não adianta o PT tentar tapar o sol com a peneira. Desde a sua fundação, foi a primeira vez que o partido não venceu em nenhuma capital. Trata-se de uma grande derrota do petismo, que ainda sofre com o desgaste provocado pela Lava Jato, um cabo eleitoral em declínio, mas ainda influente junto a uma classe média conservadora.

A exemplo da eleição de Joe Biden nos Estados Unidos, as disputas municipais no Brasil ensinaram uma importante lição às forças de centro-esquerda e esquerda. Se quiserem ter chance de sucesso em 2022, deveriam implementar uma estratégia de frente ampla desde o começo da campanha.

Com Boulos em São Paulo, a frente ampla se formou apenas no segundo turno. Numa eleição com menor intervalo do que o usual entre a primeira e a segunda fase por causa da pandemia, não deu tempo para virar. Bruno Covas (PSDB) também soube explorar um fator decisivo em disputas no mano a mano: rejeição conta muito no segundo turno.

Com Bolsonaro como parâmetro, SP pareceu civilizada. Mas não é bem assim

Covas jogou pesado contra o adversário, batendo abaixo da linha da cintura em alguns momentos. Não existiu essa campanha civilizada que muitos viram. Como Bolsonaro é exemplo de baixaria, o mínimo de civilidade em debates parece coisa de outro mundo.

Mas os tucanos recorreram à estratégia do medo, demonizando a esquerda e pintando falsos radicais. Em 2020, isso está mais para Donald Trump do que para Joe Biden.

Há uma confusão quando se fala em frente ampla, como se ela tivesse de reunir de A a Z. No caso brasileiro, uma frente ampla pode, mas não precisa necessariamente, envolver forças da centro-direita à centro-esquerda e esquerda.

Essa frente pode ter cores mais à centro-esquerda ou à centro-direita. Os candidatos a presidente e vice ditarão o formato mais ao céu ou ao mar.

Pode ser uma composição de setores do centro para a centro-direita que receba apoio à esquerda. Pode ser uma aliança de centro-esquerda e esquerda que conte com o endosso de setores da centro-direita. Apoio não se recusa.

O desenho da cruzada anti-Bolsonaro

Mas outra coisa é quem lidera a chapa. Essa discussão causa muita divisão. Um corte fundamental no Brasil é a oposição ao bolsonarismo. Caberia quanta gente nesse barco?

João Doria é um dos vitoriosos com a reeleição de Bruno Covas para prefeito de São Paulo. Mas, beneficiário do voto Bolsodoria dois anos atrás, o governador paulista terá dificuldade para liderar uma frente ampla contra Bolsonaro em 2022, quando o presidente deverá tentar a reeleição. É mais provável que os tucanos façam uma aliança com o DEM, formando um terceiro bloco (centro-direita) importante no próximo pleito.

O PT provavelmente terá de levar mais a sério a estratégia argentina, que instalou Cristina Kirchner na Vice-Presidência de Alberto Fernández. Mas é possível que outras legendas progressistas avaliem a possibilidade de apoiar um petista na cabeça de chapa, a depender do andar da carruagem até 2022.

Apesar de o antipetismo ser uma mercadoria valiosa no mercado eleitoral, é um erro subestimar a força do partido. Boulos, Manuela e Sarto não teriam bons desempenhos sem o suporte da base do PT.

Biden organizou frente de apoio à sua candidatura meses antes da eleição nos EUA

Talvez Lula e Ciro Gomes possam se esforçar um pouco mais para marcharem juntos daqui a dois anos. Os moderados Flávio Dino e Fernando Haddad têm ajudado a aparar arestas. Em palanques separados, Lula e Ciro terão menor probabilidade de sucesso em 2022.

A vida é dura. É necessário colocar os ressentimentos de lado. Entender o sentido da história é fundamental. As eleições municipais, sobretudo a paulistana, ensinaram que deixar a frente ampla para o segundo turno poderá ser um erro fatal em 2022.

Uma união desde o começo do jogo ajudaria a enfrentar melhor cada fake news, cada falsa equalização, cada aventureiro sem preparo para comandar o país.

De modo geral, as eleições municipais mostraram um caminho promissor para as forças de centro-direita e direita que se descolaram do bolsonarismo. No entanto, a vaga desse campo no segundo turno presidencial será disputada a tapa com o atual presidente. A briga promete ser feia.

O cenário de segundo turno em 2022 sugere uma vaga para a esquerda e outra para a direita (incluindo a extrema-direita bolsonarista). Esse é o jogo que deverá ser jogado.

Quem organizar o seu time antes terá mais chance de vitória. Nos EUA, os democratas se aglutinaram entre março e abril para bater Donald Trump em novembro de 2020. No Brasil, há uma tarefa civilizatória a ser executada em 2022.

Precisa desenhar?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.