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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reações a crimes de Bolsonaro mostram que está saindo barato ser golpista

Arthur Lira e Augusto Aras -  Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
Arthur Lira e Augusto Aras Imagem: Cristiano Mariz/Veja; Sérgio Lima/Poder 360
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

08/09/2021 15h42

Diante dos crimes que o presidente Jair Bolsonaro cometeu nas manifestações de 7 de Setembro, as reações de autoridades no dia seguinte mostram que está saindo barato ser golpista. Bolsonaro pode abrir um espumante no Palácio do Alvorada para celebrar as falas de Luiz Fux, Arthur Lira e Augusto Aras.

As manifestações de Fux, Lira e Aras ficaram aquém da gravidade dos crimes, do discurso de ódio e da destruição progressiva das instituições perpetradas pelo presidente da República. É justo reconhecer que a resposta mais contundente foi a de Fux, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), mas o discurso teve tom de mais uma nota de repúdio.

Fux demorou, mas foi ao ponto. Disse que as ameaças e as intimidações de Bolsonaro ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes poderiam configurar "crime de responsabilidade a ser analisado pelo Congresso". Uma obviedade, mas falou. Ele fez alerta contra "falsos profetas do patriotismo". Disse: "Ninguém. Ninguém fechará esta corte. Nós a manteremos de pé".

Antes do recado que importava, Fux fez média com os manifestantes fascistas. Chamou os ataques de Bolsonaro e seus apoiadores de "duras críticas" e "narrativas de descredibilização" de ministros do STF. Ora, os protestos golpistas pediram fechamento do Supremo e intervenção militar. Houve ameaças à vida de Moraes. Em Brasília, Bolsonaro disse que Fux precisava enquadrar seus ministros para não ser enquadrado. Em São Paulo, o presidente afirmou que não obedeceria mais a ordens judiciais de Alexandre de Moraes, a quem chamou de "canalha".

Duras críticas? Narrativas de descredibilização? Claro que não.

Fux deveria ter sido mais incisivo, mas o discurso soou forte na comparação com a cumplicidade e a omissão de Arthur Lira, presidente da Câmara, e Augusto Aras, procurador-geral da República. Pela Constituição, Lira e Aras são as autoridades que podem tomar medidas concretas para responsabilizar Bolsonaro política e penalmente. Cabe a Lira decidir sobre pedido de abertura de processo de impeachment. Aras pode investigar e denunciar o presidente por crimes comuns. Fux não tem poder para agir de ofício contra o presidente.

No seu pronunciamento, Lira não deu um pio sobre impeachment e deixou claro que não pretende tocar no assunto, porque acredita que tudo se resolverá na eleição do ano que vem. Ele voltou com a conversa fiada de "pacificação" para lidar com um candidato a ditador que não quer a paz, mas a guerra. Reiterou que o voto impresso era "página virada" e pediu um basta nas "bravatas" de Bolsonaro.

O presidente da Câmara continua sendo cúmplice de Bolsonaro, que, quanto mais fraco, mais cede ao Centrão, ao PP e a Lira. A fala do chefão do Centrão foi especialmente boa para Bolsonaro, porque normalizou os crimes de responsabilidade cometidos nas manifestações golpistas. A deslealdade de Lira à Constituição só pode ser comparada à de Aras.

O procurador-geral da República aproveitou a sessão do STF para falar em separação de Poderes e na importância do diálogo. As palavras soaram como piada vindas de alguém tão submisso, que atua como engavetador-geral da República diante da série de crimes comuns do presidente da República.

Resta à sociedade civil reagir contra a destruição do Brasil. Partidos políticos se mobilizam para fazer uma manifestação popular de peso e tentar pressionar Lira a dar seguimento a um pedido de abertura de processo de impeachment, apesar da baixa chance de isso ocorrer.

Em entrevista ao UOL, Ciro Gomes, candidato a presidente do PDT, disse que deveria haver união de todos os democratas para defender a democracia contra os ataques de Bolsonaro. Admitiu estar ao lado do PT, com quem tem trocado duras críticas, na defesa do Supremo.

Não devemos alimentar ilusões. Será preciso disputar a política, as redes sociais e as ruas com Bolsonaro e seus bárbaros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL