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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Viralatismo explica críticas a fala correta de Lula sobre Zelensky

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é capa da revista norte-americana Time nesta semana - Reprodução
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é capa da revista norte-americana Time nesta semana Imagem: Reprodução
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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

04/05/2022 13h16

O ex-presidente Lula tem feito afirmações erradas e desastradas politicamente, mas a fala sobre o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, está absolutamente correta. Só o complexo de vira-lata explica as críticas a uma declaração que enxerga os tons de cinza de uma questão geopolítica complexa.

Cretinos da falsa simetria e democratas de pandemia se apressaram em condenar o ex-presidente por dar a César o que é de César. A invasão russa da Ucrânia deve ser condenada. Só exceções históricas podem justificar o uso da força nas relações internacionais. Nesse contexto, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, está errado.

No entanto, há atores políticos que contribuíram para que ocorresse a invasão russa. Zelensky certamente é o principal deles.

Vamos às declarações de Lula em entrevista à revista "Time".

Fico vendo o presidente da Ucrânia na televisão como se estivesse festejando, sendo aplaudido em pé por todos os parlamentos, sabe? Esse cara é tão responsável quanto o Putin. Porque numa guerra não tem apenas um culpado. (...) Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só o Putin que é culpado, são culpados os Estados Unidos e é culpada a União Europeia. Qual é a razão da invasão da Ucrânia? É a Otan? Os Estados Unidos e a Europa poderiam ter dito: 'A Ucrânia não vai entrar na Otan'."

Lula abordou a expansão da Otan para o Leste Europeu, um movimento dos EUA que contrariou um acordo tácito com a Rússia quando houve a queda da União Soviética em 1991. Em três décadas, a Europa e os Estados Unidos acrescentaram 13 países à Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a aliança militar ocidental.

Zelensky sabia que estava brincando com fogo. A União Europeia e os Estados Unidos tinham plena consciência dos interesses nacionais da Rússia e de suas suscetibilidades em relação à adesão da Ucrânia à Otan.

O que fez o presidente ucraniano? Achou que o apoio americano e europeu seria suficiente para que Putin engolisse o seu desejo de ingressar na Otan. Apelou para que os EUA e os membros da Otan entrassem em conflito direto com uma potência nuclear, buscando uma escalada irresponsável com os habitantes do seu país e do planeta.

Esse presidente irresponsável, que pede que civis sem treinamento enfrentem um poderoso exército regular, é festejado internacionalmente com argumentos simplistas, como herói da resistência a "um novo Hitler".

Os mestres da falsa equivalência, aliás, adoram comparar Putin a Hitler e falam bobagem ao nivelar o ataque atual à Ucrânia às invasões da Polônia e da antiga Tchecolosváquia na Segunda Guerra Mundial. Ora, Putin deveria ser comparado a George W. Bush e Barack Obama, aos invasores do Iraque, Líbia e Síria. São os EUA que agem como polícia do mundo. Putin está copiando os colegas americanos.

Na entrevista à Time, Lula fez ainda uma crítica pertinente ao presidente dos EUA, Joe Biden, quando falava de Zelensky.

Se ele (Zelenksy) não quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais. É assim. Eu fiz uma crítica ao Putin quando estava na Cidade do México, dizendo que foi errado invadir. Mas eu acho que ninguém está procurando contribuir para ter paz. As pessoas estão estimulando o ódio contra o Putin. Isso não vai resolver! É preciso estimular um acordo. (...) Os Estados Unidos têm um peso muito grande, e ele [Biden] poderia evitar isso, não estimular. Poderia ter falado mais, poderia ter participado mais, o Biden poderia ter pegado um avião e descido em Moscou para conversar com o Putin. É esta atitude que se espera de um líder. Que ele tenha interferência para que as coisas não aconteçam de forma atabalhoada. E eu acho que ele não fez."

Mais uma vez, Lula analisou com sensatez o papel de Zelensky e Biden no atual conflito. Os Estados Unidos estão ajudando a Ucrânia com uma resistência artificial aos russos. Nesse toada de escalada, há uma crise humanitária, destruição de infraestrutura e mortes que poderiam ter sido evitadas. O petista, indagado por uma revista internacional, que certamente não estava interessada na opinião dele sobre as mentiras de Jair Bolsonaro a respeito da urna eletrônica, deu a receita de como um estadista deveria ter agido na contenda russo-ucraniana.

Espera-se de um candidato a presidente que tenha posições corajosas e claras sobre políticas públicas em geral, o que inclui as relações internacionais. Comparar a análise de Lula sobre Zelensky a declarações desastradas que Lula deu recentemente faz parte do "doisladismo" que tomou conta da imprensa brasileira.

Com muito mais motivos para criticar um presidente que ameaça dar um golpe na democracia, é preciso encontrar alguma coisa para fazer falsa equivalência entre Lula e Bolsonaro. Parece que tem muita gente que não aprendeu com os erros de 2018, quando um fascista foi naturalizado e nivelado a um respeitado professor da USP.

Veja a cobertura sobre o tema no UOL News: