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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula continua a cometer erros primários que o desgastam

Lula diz que, caso seja eleito, quer entregar o país "tinindo" para "outra pessoa" em 2027 - Reprodução - Ricardo Stuckert/Facebook Lula
Lula diz que, caso seja eleito, quer entregar o país "tinindo" para "outra pessoa" em 2027 Imagem: Reprodução - Ricardo Stuckert/Facebook Lula
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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

01/07/2022 12h20Atualizada em 01/07/2022 13h35

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua cometendo erros primários na campanha eleitoral. Toda semana, por iniciativa própria, Lula fala algo que gera desgaste desnecessário.

Os últimos foram os comentários sobre as acusações de assédio sexual e moral na Caixa Econômica Federal e a possibilidade de deixar de concorrer à reeleição se for eleito em outubro.

"Vocês nem perguntaram do presidente da Caixa Econômica que está sendo acusado por assédio. Mas também eu não sou procurador e não sou policial", disse o petista numa entrevista na quarta-feira à Rádio Educadora, de Piracicaba (SP).

Preso injustamente durante 580 dias em Curitiba e vítima de uma perseguição judicial da Lava Jato, é louvável que Lula tenha cautela ao comentar acusações de crimes cometidos por terceiros. Gato escaldado tem medo de água fria.

No entanto, um ex-presidente candidato novamente ao Palácio do Planalto precisa ter uma opinião mais clara e direta sobre acusações sólidas de assédio sexual e moral como as que foram apresentadas contra Pedro Guimarães, agora ex-presidente da Caixa.

Os relatos das mulheres que sofreram abuso são nauseantes. Há áudios de Guimarães que são provas produzidas por ele mesmo de assédio moral. Lula tem a maioria da preferência do eleitorado feminino. O PT tem longa tradição na luta pela defesa dos direitos das mulheres.

Feita ressalva de que Guimarães merece exercer seu direito de defesa, é óbvio que Lula deveria ter condenado claramente a conduta do ex-presidente da Caixa, um tiete das lives presidenciais de Jair Bolsonaro e frequentador assíduo de sua comitiva em viagens pelo país.

Mas Lula abriu o flanco para apanhar. Foi criticado por Simone Tebet (MS), senadora que, muitas vezes, tergiversa em questões de interesse feminino, como o debate sobre ampliação das possiblidades de aborto legal no Brasil. Mais: as eleitoras de Lula merecem uma manifestação incisiva sobre as acusações de assédio sexual e moral de Pedro Guimarães, figura que reproduz o padrão bolsonarista de agressão às mulheres.

Mulheres não podem ser assediadas sexualmente nem moralmente. É crime. Agressores devem ser punidos na forma da lei. É preciso incrementar políticas públicas em defesa dos direitos das mulheres. Ponto final.

Quem será?

Outra bola fora de Lula foi aventar a possibilidade de desistir da reeleição caso volte à Presidência. Lula fez manifestações seguidas nesse sentido em entrevista nesta sexta à Rádio Metrópole, de Salvador (BA).

Em primeiro lugar, é um assunto distante da realidade eleitoral para ser tratado agora. Abre especulações sobre quem será o sucessor. O vice Geraldo Alckmin? Algum governador de Estado? Um ministro? Ele pode mudar de ideia?

Daqui em diante, em toda entrevista, haverá uma pergunta sobre o tema e possíveis sucessores. Ele será indagado se poderá mudar de ideia. Enfim, só especulação política fora de hora que tira foco da discussão que interessa no momento: como o país vai resolver o desastre econômico produzido pelo governo Bolsonaro?

A possibilidade de reeleição está prevista na Constituição. Seria preciso mudar a Carta Magna e discutir o novo modelo. Mandato de cinco anos sem reeleição para presidentes, governadores e prefeitos?

Quem conhece Lula avalia que, se ele estiver bem de saúde e com um governo com boa avaliação, dificilmente não será candidato à reeleição. Mas, se por razões de ordem pessoal ou política, ele não quiser concorrer, poderia dar essa cartada em momento mais oportuno. Queimou uma manilha, digamos assim.

Se vencer a eleição em outubro, o novo governo já começará com especulações sobre possíveis sucessores. Isso tira energia de discussões mais urgentes e gera guerra interna.

Em resumo, não há ganho nenhum falar da possibilidade de desistir da reeleição. O ex-presidente precisa parar de atravessar a rua para escorregar em casca de banana.

Bolsonaro acabou de aprovar no Senado um pacote de ampliação de gastos sociais para tentar recuperar terreno no campo onde a batalha está sendo travada (economia). A Câmara também deverá votar logo o assunto. O pacote é meramente eleitoral, deixa bomba fiscal para o próximo governo, acabará no fim do ano, contradiz mais uma vez todo o discurso de um ministro da economia desmoralizado e contraria a lei. Isso tudo é verdade.

Mas até o PT votou a favor do pacote para não cair na armadilha eleitoral de negar dinheiro aos mais pobres num momento de aumento da miséria e de inflação na Lua. O que interessa é a economia. O jogo será ganho ou perdido nessa seara.