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Tática Bolsonaro: Quando não souber como responder, xingue os jornalistas

Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada no dia 15/01/2019 - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro fala a jornalistas diante do Palácio da Alvorada no dia 15/01/2019 Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

16/01/2020 19h58

Quando Jair Bolsonaro é posto contra as cordas por perguntas de jornalistas que ele não sabe responder (ou sabe que sua resposta comprometerá ainda mais o governo), ataca o profissional e a imprensa. A comparação mais válida é com uma criança pequena que roubou o lanche da outra no recreio e, inquirida pelo coleguinha, diz que ele é bobo, feio e mau - sem responder aonde está o sanduba.

O presidente da República mandou, na manhã desta quinta (16), a repórter Talita Fernandes calar a boca. "Fora, Folha de S.Paulo, você não tem moral para perguntar, não", afirmou. "Cala a boca", disse à reportagem, pedindo questões de outros veículos. Temos um mandatário que não entende de administração econômica, mas é um sommelier de entrevista.

O jornal questionava Bolsonaro sobre o que ele iria fazer diante do conflito de interesses em que está metido seu secretário de Comunicação Social, Fabio Wajngarten. Ele é sócio de uma empresa que presta serviços para veículos de comunicação que, por sua vez, têm contratos de propaganda liberados com sua pasta.

"Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele", disse Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada.

À noite, ele voltou à carga. Questionado pela Folha se sabia dos contratos assinados pela empresa de Wajngarten, respondeu "Está falando da tua mãe? Você está falando da tua mãe?"

Fosse qualquer outro presidente falando isso, o fato seria uma das principais notícias do dia. Mas como é Jair Bolsonaro, isso praticamente desapareceu. Não por censura, mas por ser apenas mais um bafo em sua névoa de insultos, ameaças, ataques, agressões, machismos, homofobias, que turva a democracia brasileira desde Primeiro de Janeiro.

Esse comportamento se repete ad nauseam. No dia 20 de dezembro, ao ser inquirido por jornalistas a respeito da investigação sobre peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa envolvendo seu filho Flávio e seu brother de longa data Fabrício Queiroz, Bolsonaro resolveu tratar da sexualidade de jornalistas, novamente na frente do Alvorada.

"Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso te acuso de ser homossexual, se bem que não é crime ser homossexual", afirmou para o delírio de uma claque de fãs. Após um jornalista perguntar sobre comprovantes de transações que envolviam Queiroz e sua família, disse: "Ô rapaz, pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?"

Naquela ocasião, Bolsonaro também não sabia o que responder.

Caso ache que foi profundamente agredido por conteúdos publicados por jornalistas (e ele deve ter o sarrafo de paciência mais alto que todas as outras pessoas do país exatamente pelo cargo que ocupa), deveria buscar junto ao veículo de comunicação, seu direito de resposta. E se isso for insuficiente, procurar na Justiça uma reparação. E não agredir profissionais de imprensa.

Um detalhe que já disse aqui: o presidente se mostra especialmente violento contra jornalistas mulheres.

Os ataques não se resumem a enxurradas de críticas, o que faria parte do debate público. Hordas bolsonaristas instigadas por suas falas, invadem a vida privada dos profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando famílias. Por vezes, transborda a rede e vai para a rua, para o restaurante, para a porta da casa.

Como já disse aqui, esse processo de ataque sistemático a profissionais de imprensa se assemelha à tortura - instrumento de trabalho do açougueiro Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói por Bolsonaro. Não para que o profissional em questão seja apenas punido pelo que fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de tratar do assunto novamente.

Caberá à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou está satisfeita com a proposta colocada à mesa nas últimas eleições: substituir a pluralidade e o contraditório por uma "Verdade" distribuída por lives no Facebook ou em posts no Twitter pelo chefe do Poder Executivo. Uma verdade rasa que esconde um profundo vazio.

Leonardo Sakamoto