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Greve da PM no Ceará: Mortes são obra do crime organizado ou de milicianos?

Cid Gomes é baleado no Ceará após tentar abrir portão de quartel de policiais amotinados com uma retroescavadeira  - Reprodução/Facebook
Cid Gomes é baleado no Ceará após tentar abrir portão de quartel de policiais amotinados com uma retroescavadeira Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

21/02/2020 18h24

O Ceará registrou 51 assassinatos em pouco mais de 48 horas, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. A paralisação de policiais militares por aumento de salário começou na noite de terça. Ou seja, cerca de uma morte por hora.

A média dos homicídios no Estado era de seis por dia, em 2020, até o início da greve.

Há um naco de milicianos na corporação que está agindo para provocar o caos na segurança do Estado, aterrorizando as pessoas e roubando e atacando propriedade pública. Três deles foram presos por danificar uma viatura. Outro por atear fogo em um carro de uma pessoa que teria criticado a paralisação nas redes sociais. Em um batalhão na capital, Fortaleza, dez viaturas foram roubadas por encapuzados. Em outra, os pneus dos veículos foram esvaziados. Em Sobral, homens encapuzados, em viaturas da PM, circularam pelo centro da cidade ordenando que comerciantes fechassem as portas der seus estabelecimentos.

O senador Cid Gomes (PDT-CE) foi baleado por policiais amotinados, na quarta (19), após avançar com uma retroescavadeira sobre o portão de um quartel que era mantido trancado por encapuzados. Ele foi operado e não corre o risco de morte.

Paralisações de policiais militares realizadas em outras unidades da federação nos últimos anos, também levaram ao aumento da violência e a uma rápida queda assim que os servidores retornaram ao trabalho. Na paralisação no Espírito Santo, em 2017, além dos mais de 200 mortos, houve ônibus queimado, toque de recolher, ou seja, o combo-desgraça.

Há duas hipóteses a se considerar: quando a Polícia Militar entra em greve, as pessoas comuns e criminosos resolvem aproveitar a oportunidade e sair matando e acertando contas; ou o naco miliciano dos policiais militares tocam o terror para criar um clima de pânico e pressionar o governo a ceder.

Diante disso, a pergunta a ser feita é qual o peso de cada uma das hipóteses na montanha de mortos que está se construindo. Quais serão os cadáveres etiquetados pelo bandidos-bandidos e quais aqueles que entrarão na conta dos mocinhos-bandidos pelos legistas no Ceará?

Uma coisa é o direito a reivindicar uma vida melhor para si e para os seus diante do diálogo e respeitando os limites constitucionais com relação ao direito de greve em serviços essenciais. Outra é ficar refém de indivíduos legalmente armados, que acabam se tornando fiadores da estabilidade política democrática. Porque se desejarem derrubar governos, eles conseguem.

Leonardo Sakamoto