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Mais pobres vão aceitar a troca do auxílio emergencial pelo Renda Brasil?

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/08/2020 10h38

A narrativa otimista do governo federal diz que o Renda Brasil vai aumentar a transferência de recursos dos quase R$ 200 do Bolsa Família, que será rebatizado, para algo entre R$ 250 e R$ 300. Na comparação, não seria um aumento desprezível.

A realidade, contudo, é mais complexa. Os 14,28 milhões de famílias beneficiadas pelo Bolsa estão recebendo, durante a pandemia, cinco parcelas mensais de auxílio emergencial com um valor entre R$ 600 e R$ 1200. Ou seja, na prática, a proposta do Renda Brasil significará um tombo.

Não importa que o presidente e o ministro da Economia repitam que o auxílio é provisório e que mantê-lo nos patamares atuais "vai arrebentar a economia", como Bolsonaro afirmou neste domingo (2). Quem se acostumou a colocar carne na cesta básica não vai aceitar voltar ao ovo sem reclamar. E com toda razão.

Tramitam no Congresso Nacional projetos para instituir um programa de renda básica com valor próximo ao atual auxílio emergencial. O público seria maior que o do Bolsa Família, como também pretende o governo, mas menor que os que recebem o apoio durante a crise. Os deputados e senadores da oposição dizem que para um programa como esse dar certo é necessário que o naco super-rico da sociedade ajude a pagar por ele.

Apesar de falar de taxação de dividendos e do fim das deduções em saúde e educação no Imposto de Renda, as propostas de Guedes para a Reforma Tributária estão longe da realidade de cobrança dos ricos nos países desenvolvidos, que mordem pesadamente renda e patrimônio de quem tem muito. As informações que chegam picadas (porque o governo não divulga um projeto, mas balões de ensaio para ver se cola) são de que parte dos recursos virá do abono salarial, do salário família, do seguro-defeso. Ou seja, os pobres CLT dividindo o que têm com os pobres da informalidade.

Qual o valor que precisaria ter o Renda Brasil para evitar uma queda na aprovação de Bolsonaro entre a parcela que ganha ate dois salários mínimos, por exemplo? Difícil precisar, mas essa conta está sendo feito no Palácio do Planalto e no Ministério da Economia.

De um lado, o presidente tem sido pressionado pelo mercado - que não quer vê-lo aumentando gastos públicos. E, do outro, por seus índices de popularidade. O governo propôs, inicialmente, um valor de apenas R$ 200 para o auxílio - que só aumentou graças à ação do Congresso. Depois, lutou contra a extensão do pagamento após os primeiros três meses.

Mas também viveu uma "substituição" de parte de sua base de apoio e, agora, seu futuro político também depende, vejam só, de transferência de renda.

Bolsonaro experimentou uma queda de nove pontos entre as pesquisas Datafolha de dezembro de 2019 e de maio deste ano entre os que recebem mais de 5 e 10 salários mínimos. O grupo conta com acesso à informação e engrossou a insatisfação contra o presidente por conta de seu comportamento negacionista e de suas políticas terraplanistas diante da crise sanitária.

Mas também um aumento de nove pontos no grupo de até dois salários mínimos. Grande parte dele já ganhava o Bolsa Família e passou a ter o valor do auxílio depositado no cartão, sem precisar fazer requisição. Esse grupo é numericamente maior que a classe média e fundamental para a reeleição do presidente.

Se o Renda Brasil significar trocar seis por meia dúzia, sem novos aportes significativos de recursos, ou se o valor for muito abaixo do que tem sido pago durante a crise, é bem provável que Bolsonaro perca popularidade. O grupo dos mais pobres não morre de amores pelo presidente e, tendo sido historicamente esquecido pelo poder público, age de forma racional e pragmática.

O suporte que concede hoje a ele é conjuntural - diferente daqueles 12% a 16% do bolsonarismo-raiz que tem orgasmos múltiplos quando vê seu líder erguendo uma caixa de cloroquina.

A multidão que saúda o presidente na saída de aeroportos no Nordeste faz parte do grupo que o apoia desde sempre e o ajuda a manter a estratégia de construção de sua imagem, produzindo pequenas aglomerações em locais públicos para gerar fotos para as redes sociais. O grosso do povão está à distância, de olho para ver o que acontece. E, assim como veio, pode ir embora de uma hora para outra.

Leonardo Sakamoto