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Leonardo Sakamoto

PSOL não pode entender que cresce para substituir o PT, afirma Freixo

Ricardo Borges/UOL
Imagem: Ricardo Borges/UOL
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/12/2020 13h17

Resumo da notícia

  • Para o deputado federal, frente ampla progressista deve ser constituída para eleições de 2022
  • Freixo afirma que no Rio quem governa é a milícia, presente na vida de 1 a cada 3 cariocas
  • Líder do PSOL afirma que vai processar campanha de Crivella por panfletos sobre pedofilia

"Em São Paulo, Bruno Covas e Guilherme Boulos disputaram quem ia governar a cidade. No Rio, disputaram só quem ia ganhar a eleição. Quem manda na cidade é quem controla os territórios. Quem controla território não é o prefeito, é a milícia."

Em entrevista ao UOL, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) afirma que um terço da capital fluminense é comandado pelo poder paralelo de grupos milicianos, o que deveria servir como alerta para o que pode acontecer no resto do país.

Cita que o prefeito eleito de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, Capitão Nelson (Avante), candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), foi investigado pela CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa, e comemorou sua vitória ao lado de um ex-policial militar indiciado por assassinar seu irmão, Renato Freixo, em 2006.

1000 dias da morte de Marielle Franco

Na próxima terça, completam-se 1000 dias da execução da vereadora Marielle Franco. Freixo diz que as investigações estão avançadas e que milicianos devem ser apontados não apenas como executores, mas também como mandantes do crime.

"Vingança política ao nosso trabalho de enfrentamento às milícias. Por isso que a esquerda tem que ter responsabilidade de entender que derrotar isso [extrema direita] é garantir a democracia", afirma.

Freixo comemorou o crescimento do PSOL, em cidades como Belém e São Paulo, fazendo um apelo para que a esquerda e a centro-esquerda comecem a discutir, um projeto conjunto para 2022.

"Eleição municipal não é raio-X da eleição nacional. Dependendo do que aconteça na economia, e Bolsonaro chegar com chance de reeleição, a conjuntura vai se impor para que a gente tenha a responsabilidade de uma candidatura pactuada desde o primeiro turno."

UOL - Como avalia o desempenho do PSOL nesta eleição municipal?

Marcelo Freixo - Em termos de resultados, foi um dos melhores desempenhos. O partido vem acumulando bons resultados municipais ao longo da sua curta existência. A campanha do Edmilson Rodrigues [em Belém] ter sido vitoriosa é, sem dúvida alguma, o ponto alto. Um lugar onde o PSOL conseguiu organizar todo um campo progressista em torno dele, uma vitória de uma possibilidade de aliança.

A campanha do Guilherme Boulos [em São Paulo] foi um pouco da mistura das campanhas de 2012 e 2016 aqui no Rio. Trouxe alegria, empolgação, a novidade que a gente teve aqui, em 2012, com a eficácia de chegar no segundo turno, de 2016. Teve também Florianópolis, uma campanha que chegou em segundo lugar com o Professor Elson, também com capacidade de aglutinar todo um campo de esquerda. Tem uma outra vitória, que é a de um partido que amadureceu sem perder as suas raízes E está disposto a disputar poder.

Esse "amadurecimento" significa que o partido perdeu um pouco do radicalismo que tinha originalmente?

O amadurecimento é fruto do tempo de existência e das campanhas que já disputou. Você não deixa de ser quem você é, mas o PSOL conseguiu fazer alianças dentro de um campo de esquerda amplo. No segundo turno, o PSOL apoiou candidaturas também de outros setores, como em Porto Alegre. É um partido que se reafirma numa disputa de poder, que tem uma bancada muito atuante, que cresceu.

Por conta de Belém, o PSOL aumentou consideravelmente a população governada, mas foi o único partido que cresceu no campo progressista. A esquerda, como um todo, vai governar, pelo menos, dez milhões de pessoas a menos a partir de 2021. Por quê?

Esse resultado da eleição mostra, por um lado, uma derrota da estética bolsonarista. Os candidatos apoiados por Jair Bolsonaro ou os candidatos que de alguma maneira se identificaram com a estética bolsonarista foram amplamente derrotados, então Bolsonaro sai derrotado no Brasil. Não só pela esquerda, mas também, por uma centro-direita. É só você ver o crescimento do DEM, as vitórias do MDB, que dentro do Congresso Nacional, por exemplo, formam um bloco que não é o bloco da base do governo.

Agora, o PT não ter ganho nenhuma capital é uma derrota do partido. Por mais que tivesse chegado a um número muito maior de cidades no segundo turno do que chegou em 2016, é evidente que terá que repensar seus caminhos. O PT ainda é o maior partido, tem 54 deputados federais, tem importância para qualquer projeto à esquerda, mas há um recado dado ao PT.

O PSOL não pode entender que cresce para substituir o PT, são papéis distintos. Cabe ao PSOL um olhar de generosidade diante da esquerda. Porque, para derrotar o bolsonarismo em 2022, vamos precisar mais do que a reafirmação de cada projeto partidário para que a gente possa formar um programa repensando os protagonismos, repensando os hegemonismos, repensando o papel de cada um.

Apoiei o José Sarto, que venceu pelo PDT, em Fortaleza, o Ciro apoiou o Boulos, nós apoiamos a Manuela (PC do B). Houve, de alguma maneira no segundo turno, um movimento de aproximação desse campo progressista. Este movimento tem que ser amadurecido para que possamos chegar em 2022 com a maior possibilidade de uma aliança. Tem muita gente se precipitando e dizendo que os resultados apontam para uma esquerda que estará dividida em 2022. Não sei qual é a leitura que o PT fará disso. O PT é um partido grande e, por ser grande, pode ser inteligente, generoso e entender que tem que estar numa frente de esquerda sem necessariamente ter a cabeça de chapa. Se fizer esse movimento, será fundamental para uma aliança.

Repercutiu, nesta eleição, um vídeo de campanha do Guilherme Boulos com Flávio Dino (PCdoB), Ciro Gomes (PDT), Lula (PT) e Marina Silva (Rede) apoiando uma candidatura do PSOL. Muitos viram naquilo um embrião de uma frente progressista. Outros disseram que aquilo era apenas um apoio pontual e conjuntural, porque as divisões entre alguns dos envolvidos seriam intransponíveis. O que você viu nesse vídeo?

O segundo turno aponta uma capacidade de diálogo possível, não tenho a menor dúvida disso. Tirando o que aconteceu em Recife, que foi um "Kill Bill", uma briga de espada com a luz apagada, acho que houve capacidade de diálogo, de encontro. Eu mesmo conversei muito com o Ciro no segundo turno. Com o PCdoB eu já tinha um diálogo anterior e continuei tendo. A ideia de que é intransponível não leva em conta que as conjunturas podem ser alteradas. É claro que existem diferenças profundas dentro desse campo, mas existe um bolsonarismo que está longe de ser derrotado.

Eleição municipal não é raio-X da eleição nacional. Dependendo do que aconteça na economia, dependendo de como as forças políticas se reorganizem, Bolsonaro pode ou não chegar forte em 2022. Se chegar com chance de reeleição, a conjuntura vai se impor para que a gente tenha a responsabilidade de uma candidatura pactuada desde o primeiro turno.

Nesse contexto, como avalia o que aconteceu no Rio de Janeiro? A esquerda saiu fragmentada, com várias candidaturas e não foi para o segundo turno. No início, você inclusive tinha sua pré-candidatura posta e acabou abrindo mão dela.

Se eu chegasse ao segundo turno sem ter uma esquerda unificada desde o primeiro, o que aconteceria: entre mim e o Eduardo Paes (DEM) todas as forças bolsonaristas e todas as forças da direita do Rio estariam com ele e criaria uma situação tão difícil ou mais do que as que a Manuela e o Boulos enfrentaram. Até porque o Rio tem um ingrediente que nem Porto Alegre nem São Paulo têm: quem manda na cidade não é o prefeito, mas a milícia. Um em cada três moradores vive em área de milícia.

Em São Paulo, Bruno Covas e Boulos disputaram quem ia governar a cidade. No Rio, disputaram só quem ia ganhar a eleição. Quem manda na cidade é quem controla os territórios. Quem controla território não é o prefeito, é a milícia.

Sem contar que há uma situação diferente quanto ao nível de participação política dos evangélicos que você não tem em outras cidades. Não é à toa que vêm daqui o Silas Malafaia, o Pastor Everaldo, entre outros. Isso começa com o Cheque Cidadão, lá do Garotinho, que era distribuído por pastores evangélicos ligados a ele. O que explica Marcelo Crivella, um péssimo governo, com 35% dos votos? É assustador.

Tinha que ter uma unidade de esquerda no primeiro turno, a consolidação de um projeto para o Rio de Janeiro, e que a gente pudesse ampliar no segundo turno, chamando o setor evangélico para debater, chamar o setor de centro para debater.

O que aconteceu no Rio de Janeiro traduz a mesma dificuldade do que pode acontecer no plano nacional em dois anos?

Espero que não. Temos que aprender com os erros. Daqui a dois anos, se cada partido estiver preocupado em construir a sua bancada, a gente pode ter bancadas menores e não ter sucesso na conquista do governo. Por exemplo, o PSB e o PDT, que não quiseram uma aliança no primeiro turno no Rio. O PSB não elegeu nenhum vereador e o PDT elegeu um só na cidade do Rio de Janeiro. A ideia de que você não fazer aliança ajuda a construir um partido mostrou-se falha, falsa. Talvez se tivermos um projeto amplo, e um programa for construído, todos os partidos saiam maiores. Não tenho dúvida disso.

São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, teve uma disputa entre o Capitão Nelson (Avante) e o Dimas Gadelha (PT). Foi uma disputa em que o Jair Bolsonaro pediu voto, gravou vídeo, houve participação intensa de pastores, muita fake news. Enfim, foi uma guerra naquele município...

O Nelson foi investigado, por nós, na CPI das Milícias [realizada na Assembleia Legislativa do Rio em 2008]. Jornais afirmaram que ele comemorou a vitória com um cara que é acusado de ter matado meu irmão [o ex-policial militar Fábio Soares Montibelo foi indiciado, em agosto deste ano, como mandante da morte de Renato Freixo, em 2006].

O que isso significa nesse pacote de relações em que o presidente está inserido?

Demonstra que o bolsonarismo não começa nem termina com Bolsonaro, os engenheiros do caos. E que a extrema-direita é, sem dúvida, a ida do pêndulo para alguma coisa fora da política. Se isso é uma força política organizada, cabe a todas as forças democráticas priorizar o enfrentamento disso, que é uma ameaça à democracia. Todo o campo progressista, independente das diferenças que pudesse ter, deveria estar apoiando o candidato do PT, em São Gonçalo, contra essas forças políticas. Isso tem que acontecer no Brasil inteiro. O pêndulo político não pode caminhar para esse lugar. A gente tem que retomar ele para uma política onde você disputa projetos, como você teve em São Paulo.

Na próxima terça (8), completam-se 1000 dias da morte da Marielle Franco. Como está a situação das investigações?

As investigações já estão bem avançadas, eles já têm convicção. Mas convicção não é suficiente para condenar ninguém, por mais que esse país já tenha visto o contrário. Eles estão produzindo provas. A convicção passa, evidentemente, por ações da milícia do Rio de Janeiro como mandante. Milicianos como mandantes. Estou acompanhando de perto. A tendência é que peguem os responsáveis por isso, num processo de retaliação pelo enfrentamento às milícias feito por nós. Essa é a tendência da investigação.

Ou seja, a tendência é apontar a milícia como mandante por vingança política?

Vingança política ao nosso trabalho de enfrentamento às milícias. Esse não é um pêndulo que está dentro da democracia, por isso que a esquerda tem que ter responsabilidade de entender que derrotar isso é garantir a democracia, o que é fundamental num país que já passou por ditaduras e sabe o que significa isso na pele.

No segundo turno da eleição no Rio, você foi vítima de difamação pela campanha de Crivella. O atual prefeito chegou a afirmar em uma live que o PSOL iria tomar conta da Secretaria de Educação de Eduardo Paes para levar pedofilia nas escolas...

Um milhão e meio de panfletos com o meu retrato.

...como é que você avalia o nível da eleição?

Tenho 20 anos de docência. Minha profissão é professor. Tenho um filho de 30 e uma filha de 22 que criei com trabalho de professor. Alguém dizer que vou usar a educação para "pedofilia" é uma coisa que extrapola qualquer limite humano. Não é nem limite político, é limite humano. Isso vindo de um pastor mostra que não só ele é um falso político como é um falso pastor. Não passa de um criminoso. Vou processá-lo e ele vai perder. A Justiça Eleitoral não pode aceitar como expediente político algo desse nível. Se um panfleto oficial de uma campanha comete crime, a Justiça tem que ser capaz de prever uma punição mais imediata, porque se não, o crime compensa. Independente dos crimes que vou denunciar na Justiça tem que haver uma punição em termos de direitos eleitorais. Tem que se tornar inelegível.

O que espera do governo Eduardo Paes?

Sobre o Eduardo Paes, não espero nada diferente do que o Eduardo Paes é. O voto do segundo turno no Rio de Janeiro foi um veto ao Crivella. Nós vamos estar na oposição a partir de hoje, inclusive. Vamos dialogar, pois não é um governo como o do Crivella, mas vamos estar na oposição. Não vamos ter nenhum cargo, nenhum acordo e estaremos na oposição ao Eduardo Paes como sempre fizemos. Mas isso está dentro da democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL