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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É preciso parar de dar poder a assediadores sexuais

Presidente da Caixa, Pedro Guimarães, ao lado do presidente Jair Bolsonaro - ADRIANO MACHADO
Presidente da Caixa, Pedro Guimarães, ao lado do presidente Jair Bolsonaro Imagem: ADRIANO MACHADO
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

30/06/2022 04h00

Infelizmente, os dois pré-candidatos melhor colocados na disputa presidencial parecem não dar a mesma importância que o cidadão dá às denúncias de assédio na Caixa.

É de uma eloquência ímpar o silêncio de Jair Bolsonaro, que nomeou Pedro Guimarães e fez dele um dos colegas preferidos de eventos oficiais e lives presidenciais.

O presidente da Caixa pediu demissão com uma longa carta e uma mulher deve assumir o posto. É uma ação simbólica feita apenas quando o problema que durou anos sem ser abordado se tornou insustentável. E não resolve o problema da permissividade com assédio sexual.

Lula reagiu como outra face da mesma moeda, dizendo que não é procurador nem policial para comentar o caso. Ciro Gomes e Simone Tebet verbalizaram condenações veementes. Diversas notas de repúdio fortíssimas foram publicadas.

Condenações públicas não solucionam o problema, são apenas o mínimo que se espera de quem tem voz, autoridade e deseja representar os cidadãos.

É um erro tratar escândalos de assédio sexual como casos isolados ou unicamente produtos do machismo ou misoginia. Há outras questões estruturais importantíssimas a se levar em conta. Entre elas, a banalidade do mal, a prática sistemática da omissão diante da injustiça e a mania de dar poder a quem não pode ter poder sobre outras pessoas.

Em sua coluna no UOL, Ricardo Kotscho revelou que a situação durou mais de três anos. Em 2019, já houve um evento com uma funcionária no estacionamento que ficou famoso em Brasília. Infelizmente, foi minimizado, como quase todo caso de assédio.

Houve a punição exemplar da testemunha, um segurança que acabou demitido. É o roteiro tradicional do assédio por poderosos. Diante do destino de quem ousa confrontar, os demais entram numa espiral de silêncio.

Infelizmente esse não é o único fenômeno que explica o silêncio durante três anos diante de uma situação escandalosa e injusta. É muito fácil dizer que as vítimas são loucas ou mentem para obter vingança e vantagens. Mesmo à revelia dos fatos essa conversa cola.

Não ir contra a corrente, fechar os olhos para o assédio sexual e até difamar as vítimas pode render grandes vantagens quando o assediador tem poder. É impossível que um assediador chegue ao poder sem um séquito de cúmplices em ação e omissão.

A jornalista Malu Gaspar trouxe à tona ontem um caso de quase 20 anos atrás. Pedro Guimarães teria tentado beijar à força uma funcionária do Santander numa festa de final de ano. Ele foi demitido do banco em 2004 e o fato foi presenciado por várias pessoas.

Não são notas de repúdio nem hashtags que vão enfrentar a situação que tristemente se repete. Pergunte às mulheres que você ama e elas terão uma coleção de histórias semelhantes para relatar.

Fiquei feliz ao ver unidas em repúdio e hashtags contra o assédio inúmeras pessoas que, tempos atrás, calavam e até defendiam publicamente assediadores sexuais. É necessário, no entanto, ir mais fundo.

Nas redes sociais, Pedro Guimarães ganhou o apelido "taradão da Caixa", que escancara nosso pior erro ao lidar com casos semelhantes. Crimes sexuais não são relacionados a virilidade nem a sexualidade, são práticas de poder e humilhação usando o sexo.

Ao imaginar que se trata de desejo sexual, muitas pessoas subestimam a importância do assédio. Os pré-candidatos mais cotados para a presidência inclusive.

Desejo sexual envolve reciprocidade. Violência sexual não, quanto menos a vítima gostar, melhor. O sexo é usado como arma de humilhação, para despir o outro de sua condição de indivíduo e estabelecer poder e dominação.

Pessoas com essas características não podem exercer poder sobre outras. As funcionárias da Caixa foram gigantes ao resolver enfrentar e denunciar mesmo sabendo dos riscos. Resta a nós, como sociedade, compreender o assédio sexual com a importância que ele tem.

É função de todos e cada um de nós, no limite da nossa atuação, jamais permitir que seja dado poder a quem não consegue respeitar a dignidade de outro ser humano.