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Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

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Policia Civil abre inquérito contra padre suspeito de assédio sexual em MG

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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

e José Dacau

05/10/2021 16h06

O delegado Daniel Leme Amaral, da Polícia Civil de Minas Gerais, abriu hoje inquérito policial para apurar as denúncias de crime sexual contra o ex-padre Ernani Maia dos Reis, suspeito de ter assediado e violentado sexualmente oito monges de um mosteiro de Monte Sião (MG), entre os anos de 2011 e 2018, quando liderava a instituição.

Ernani está afastado há três anos do antigo mosteiro Santíssima Trindade e exerce, atualmente, a profissão de psicanalista na cidade de Franca (SP). Ele também deverá prestar depoimento durante o inquérito policial. Vítimas e testemunhas serão localizadas e interrogadas.

O caso foi revelado pelo UOL em reportagem publicada na última quinta (30). A apuração do núcleo investigativo também resultou no documentário "Nosso Pai", lançado por MOV, o selo de produções audiovisuais do UOL.

Um dia depois da publicação da reportagem, o papa Francisco anunciou o desligamento de Ernani Maia dos Reis da Igreja Católica.

Código Penal - Arte/ UOL - Arte/ UOL
Imagem: Arte/ UOL

Ex-padre nega as acusações

Ernani Maia dos Reis negou as acusações em duas oportunidades, mas se recusou a responder às perguntas específicas dos repórteres. Após a publicação da reportagem o UOL telefonou para o celular pessoal do ex-padre e para seu consultório, mas ninguém atendeu. Das oito vítimas de violência sexual ouvidas pela reportagem, duas relataram os ataques atribuídos a Ernani durante a investigação da Igreja Católica. Todas as oito afirmaram que não receberam qualquer ajuda psicológica ou financeira da instituição.

Por sua vez, a Igreja Católica disse, em resposta enviada por email, que "nunca negou qualquer fato (dele) ou ato atribuído quando do exercício na liderança daquela comunidade" e que não se omitiu em relação ao caso.

"Foram constituídas auditorias, comissões de apuração em várias esferas de acompanhamento, sendo as respectivas comunicações, diretas aos representantes legais superiores (Nunciatura e Santa Sé). Nunca houve qualquer omissão nesse sentido", lê-se na resposta enviada.

Dinâmica de abuso de poder

Dos 40 entrevistados pelo UOL, 19 afirmaram ser vítimas do padre Ernani: oito homens, com idades entre 20 e 43 anos, acusam o religioso de ter cometido crimes sexuais. E 11 pessoas, de assédio moral, dizem que sofreram constrangimentos e agressões verbais — dez eram mulheres.

Segundo relato das vítimas, em uma dinâmica de abuso de poder, o padre Ernani usava seu lugar de líder espiritual para conquistar a confiança dos integrantes do mosteiro, se colocava como "um pai" com a intenção de envolvê-los pelo lado afetivo e oferecia "sessões de psicanálise" em que as próprias vítimas eram os pacientes.

Relatos dos crimes sexuais atribuídos a Ernani chegaram ao conhecimento da Igreja Católica por meio de investigações internas, mas o padre só foi afastado depois que ele mesmo pediu para sair do mosteiro, em agosto de 2018, alegando "cansaço" e "crise vocacional".