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Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Igreja Católica ainda encobre abusos sexuais", diz repórter de "Spotlight"

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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

05/10/2021 12h22

Maria Carolina Trevisan e José Dacau, colunista do UOL e do UOL

Um comitê independente de investigação sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e membros leigos da Igreja Católica na França revelou que — pelo menos — 330 mil crianças foram vítimas de agressores sexuais da Igreja nos últimos 70 anos. O documento aponta também que membros da Igreja acobertaram as violações e encobriram os crimes.

Na coletiva de imprensa sobre a conclusão do relatório, o presidente desse comitê, Jean-Marc Sauvé, disse que "até o início dos anos 2000, a Igreja Católica mostrou uma profunda e até cruel indiferença com as vítimas". Segundo o documento, os agressores atacavam principalmente meninos novos, antes que chegassem à adolescência. Crianças.

Há registros de que apenas uma pessoa tenha violentado 150 vítimas. A Igreja Católica francesa expressou "vergonha" e pediu perdão. Sauvé recomenda que haja reparação financeira e responsabilização da instituição, além de um mecanismo mais eficiente para evitar essa dinâmica secular, que permite que abusos sexuais de clérigos aconteçam na Igreja de forma sistêmica. Ele indica também mudanças no sistema jurídico interno.

A apuração estima que havia entre 2.900 e 3.200 abusadores sexuais operando no âmbito da Igreja Católica francesa desde 1950. Desses, poucos foram punidos pela instituição ou pelo sistema de justiça criminal.

O que se tornou público na França acontece no mundo inteiro, inclusive no Brasil, país em que mais da metade da população se declara católica, segundo o IBGE.

O caso do ex-padre Ernani Maia dos Reis, que liderava um mosteiro em Monte Sião e cometia violência sexual contra monges que viviam sob seu comando foi revelado com exclusividade em reportagem do UOL na semana passada. A apuração do núcleo investigativo também resultou no documentário "Nosso Pai", lançado por MOV, o selo de produções audiovisuais do UOL.

No relatório francês, as vítimas disseram que sentem vergonha, sofrimento, solidão e culpa, mesmos sentimentos que acometeram os monges do Santíssima Trindade.

A dificuldade de denunciar casos de violência sexual cometidos por clérigos

Os mecanismos existentes hoje na Igreja Católica para evitar casos de violência sexual cometidos por seus padres e sacerdotes não são eficazes. O acesso aos processos canônicos é restrito às arquidioceses, não há transparência sobre a apuração e sobre a responsabilização, não existem meios de acompanhamento pela sociedade civil, não há garantias de que quem denuncia os abusos ficará protegido — e não será culpado.

A Igreja demorou 14 anos para incluir a omissão como delito no Código de Direito Canônico, o que só passa a valer a partir de dezembro deste ano. A mudança determina ainda que a violência sexual contra adultos também é crime.

Com tamanha lentidão para um problema urgente e muito grave, a denúncia via imprensa se torna um dos poucos meios de evidenciar essa brutalidade. Uma história emblemática que marcou a cobertura desse tipo de violação foi revelado pelo núcleo investigativo do jornal The Boston Globe, o Spotlight. A equipe de jornalistas descobriu que o arcebispo de Boston, Cardeal Law, sabia que o padre John Georghan abusava sexualmente de crianças por décadas e nada fez a respeito. A reportagem rendeu à equipe do Spotlight o Prêmio Pulitzer de Serviço Público em 2003 e se tornou um filme ganhador do Oscar.

A investigação, que começou com um caso, cresceu e teve impacto importante: listou 87 padres que cometeram violações. Após a publicação do escândalo, outros vieram à tona nos Estados Unidos e no mundo. "Foi o primeiro escândalo de abuso sexual por clérigos nos Estados Unidos e talvez no mundo", afirma o repórter Mike Rezendes em entrevista ao UOL. Mike foi um dos repórteres da equipe do The Boston Globe a mergulhar nas histórias. Atualmente, ele trabalha como repórter investigativo na agência de notícias Associated Press e continua publicando sobre esse tipo de violação.

"Em todas as situações no mundo inteiro a Igreja faz tudo o que pode para acobertar o abuso, acobertar a responsabilidade pelo abuso, ocultar documentos e não ser transparente. O papa Francisco disse muitas coisas boas, fez discursos muito bons, pediu perdão muitas vezes pelo abuso sexual clerical, mas o que ele fez, substancialmente, não foi muito significativo para os sobreviventes", diz Mike, coautor de "Traição: A Crise na Igreja Católica" e um dos autores de "Pecado contra os Inocentes: Abuso Sexual de Padres e o Papel da Igreja Católica".

"O processo de apuração desses casos continua completamente controlado pelo Vaticano, não há nenhuma fiscalização externa significativa", completa. Por isso a importância da imprensa em investigar denúncias como essa. No caso do ex-padre Ernani, um dia após a publicação da reportagem do UOL o papa Francisco desligou Ernani da Igreja Católica e o Ministério Público de Minas Gerais pediu a abertura de um inquérito para a polícia civil.

"O jornalismo é fundamental em revelar histórias como essas. Se não fosse pelo jornalismo, esses casos não viriam a público, continuariam sendo um segredo gigantesco e abominável. E essas dezenas de milhares de pessoas continuariam sofrendo em silêncio." Ele afirma também que, em muitas cidades, como em Boston, a polícia e as autoridades legais são muito próximas da Igreja, o que dificulta ainda mais a investigação.

Assista aos dois episódios de "Nosso pai":