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Opinião

É tempo de reintegração de posse na Argentina

No último dia 3 de setembro, o bairro de San Telmo, na cidade de Buenos Aires, amanheceu sob as cinzas de um monumento em honra de María Remédios del Valle, considerada "Madre de la Patría".

Ele está localizado no mesmo bairro em que se encontra um importante ponto turístico argentino: a estátua da Mafalda, icônica personagem do cartunista Quino. É possível que quem conhece algo sobre a Argentina já tenha, pelo menos, ouvido falar sobre Mafalda, mas e sobre María Remédios?

Quais conhecimentos acessamos sobre o país mais ao sul das Américas? Como o que acontece lá informa sobre processos comuns vivenciados em outros espaços? A reflexão aqui é um convite a observarmos aquilo que pessoas negras têm reivindicado como direito à memória e é substrato de uma experiência amefricana atravessada pelo racismo antinegro.

Estamos recebendo informações sobre a nação vizinha, sobretudo pela proximidade do 2º turno das eleições presidenciais por lá. A atenção se deve à possibilidade de uma vitória da extrema direita, vertente que nega direitos das minorias e até mesmo questões que estavam bastante assentadas na memória nacional, como a expressividade do alcance da ditadura militar, vide à negação do candidato Javier Milei sobre os números de mortos, desaparecidos e perseguidos políticos lá.

Esses elementos revelam aspectos do que acontece por lá e dos filtros que nos alcançam em torno da memória nacional argentina. Invisibilizam a presença e o longo processo de luta da população negra por cidadania e reconhecimento em uma nação que é lida como branca. Processo esse que tem, na data de hoje, uma emblemática possibilidade de reivindicar outras imagens e efetivamente estabelecer um ato de reintegração de posse.

Afinal, 8 de novembro é o Dia Nacional dos afroargentinos e das afroargentinas e da cultura afro.

Atentar para tais elementos permite rompermos com o assunto eleições apenas desde o ponto de vista político-institucional, por exemplo, e adentrarmos nos meandros das lutas por memória e identidade. Um bom caminho para isso é observar o que emana dos movimentos sociais e da produção de conhecimento.

A liberdade negra na Argentina

As notícias bastante pontuais que acessamos no Brasil sobre a Argentina acabam, em grande medida, informando sobre o parco diálogo que tecemos com movimentos sociais de outros países e mesmo do conhecimento que acessamos.

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Logo, não é uma surpresa que a imagem que temos da Argentina seja marcada pela brancura, semelhante ao que acontece nos estados da região sul do Brasil. Isso tem lastro histórico responsável por conectar passado e presente.

A pesquisa histórica desenvolvida no Brasil sobre aspectos plurais da população tem sido assertiva em dialogar com o que vem dos movimentos sociais, contemporâneos ou não.

O faz buscando fontes produzidas pelos próprios sujeitos que vivenciaram os processos bem como criticando os arquivos e a narrativa gestada sobre o "nós" da identidade nacional no intuito de circunscrever determinados grupos como "outros". Isso vale especialmente para grupos indígenas, negros e LGBTQIA+.

Ao olhar para a experiência argentina é possível rapidamente localizar aqueles que foram entendidos como "os outros", os mesmos daqui. E as fontes históricas como a imprensa negra estão repletas de elementos acerca de narrativas diversas.

Um exemplo está em Maria Remédios del Valle. Para que se tenha dimensão do que envolve essa história, remonto aos jornais negros do interior do Uruguai nos anos 1930, que apresentavam essa mulher como uma heroína negra.

Acción, que era redigido em Melo, a apresentava como expressão da participação da população negra no processo de libertação das Américas do colonialismo europeu. Esta participação já havia sido utilizada por Domingos Sarmiento, em sua obra clássica "Facundo, ou Civilização e Barbárie" (1845), mas para sustentar a tese da desaparição negra.

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A mulher negra em questão participou dos referidos exércitos, obteve pouco reconhecimento em vida apesar da fundamental liderança que viria a lhe conferir o posto de Sargento Mayor e faleceu em 8 de novembro de 1847, como de forma sistemática nos apresenta Florencia Guzmán em sua pesquisa.

A "Mãe da Pátria" foi elevada a símbolo de presença negra na Argentina pelas coletividades negras. Mas, somente em 2013 foi aprovada a lei que reconhece o dia do seu falecimento como consagrado às pessoas negras e a cultura afro naquele país.

A referência a essa mulher negra se insere em um longo processo de invisibilidade de experiências de liberdade negra, manipulação das mesmas por membros dos grupos que dominavam a escrita oficial da história (de forma a construir uma narrativa que reduzia a presença negra à escravidão) e a uma retomada do protagonismo negro ativo no pós-abolição argentino pela historiografia desde os anos 1980.

Dois exemplos estão em "Los afroargentinos de Buenos Aires", de George Andrews, e "Sociedad de color" no Prata, de Carlos Eduardo Alexandre Francisco.

Para além dos conhecimentos construídos, a simples menção à "Mãe da Pátria" nos permite observar um processo constante de atuação de coletivos negros na Argentina, como a Comissão 8 de Novembro, atuantes na proposta da lei e nas demandas que sustentaram a inauguração do monumento à María Remédios em 8 de novembro de 2022.

A mesma que esse ano foi consumida pelas cinzas, repetindo de forma trágica o que acontece em outros espaços como na cidade de Salvador, aqui no Brasil, que em dezembro de 2022 viu arder em chamas a estátua de Mãe Stella de Oxóssi, importante liderança do candomblé.

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Tais atos apresentam-se como um ataque aberto às pautas antirracistas que encontram espaços de diálogo e visibilidade nos governos de enfoque progressistas, alinhados com os organismos internacionais de combate ao racismo e intersecções correlatas.

Tal ataque não foi capaz de silenciar os movimentos negros por lá. A mobilização permanece, por exemplo, na atuação da Agrupación Xango e Afros LGBTIQ+ durante a 32ª Marcha del Orgullo LGBTINB+ 2023, ocorrida no dia 4 de novembro na cidade de Buenos Aires, que, por sua vez, advertiu ao "orgullo es democracia", em uma explícita vinculação com as implicações nas vidas das pessoas dos projetos políticos em disputa nas eleições presidenciais, e afirmou o lema "Reparação histórica para travesti e trans".

Experiências transnacionais

Escultura de Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, em SP.
Escultura de Deolinda Madre, conhecida como Madrinha Eunice, no bairro da Liberdade, em SP. Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

Esse processo de luta por existência e consolidação de outras narrativas se desdobra em muitas frentes e encontra vínculos com aquilo que acontece no Brasil. A título de exemplos pontuais em São Paulo, no bairro da Liberdade, afirma-se a presença japonesa em detrimento de outros grupos orientais.

Mas não só, há um processo deliberado de apagamento da memória negra, como se pode observar em 17 de setembro durante um festival geek que simplesmente montou seu palco de forma a encobrir o monumento à sambista negra Deolinda Madre.

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Já mais ao sul, na cidade de Pelotas (RS), o centenário clube negro Fica Aí P’ra Ir Dizendo depara-se com o racismo estrutural de forma gritante ao ver sua sede envolta em dívidas exorbitantes.

Um espaço que concentrou experiências de liberdade negra em busca de cidadania ao longo do século XX, como demonstrei em outro momento, não conta com qualquer aparato de proteção de seu espaço físico e está na iminência de ver também as memórias, que ali se assentam, serem consumidas pela branquitude que rege nossas políticas de patrimônio.

É importante que se afirme que tanto na Argentina quanto aqui, novembro é um mês de retomada. Aliás, de forma a refinar nosso olhar, o sul das Américas tem nos dois últimos meses do ano encruzilhadas potentes para tirarmos o véu da branquitude que nos assola.

Se na Argentina hoje é marcado como dia de luta, no Brasil é 20 de novembro, enquanto no Uruguai e no Chile é 3 de dezembro. Temos muito o que acessar, conhecer e proteger, mas é fato que pessoas negras estão falando em cada um desses espaços, exteriorizando como o racismo ainda unifica essas sociedades, aos moldes do que fez a intelectual brasileira Lélia Gonzalez cunhar a categoria político-cultural da amefricanidade.

Cabe questionar: quem quer ouvir as reivindicações e somar-se na luta antirracista pela reintegração do direito à memória e à própria existência nesse sul do Sul?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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