Haddad taxador é estratégia da direita na política e realidade na economia
"O Bicho Taxão", "Taxa de Elite 2", "o Taxador do Futuro", "Rombocop" — os memes ironizando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, proliferaram nas redes.
O momento não poderia ser mais oportuno para a direita e não é coincidência.
Na segunda-feira à noite, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes tirou o sigilo da gravação em que o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece sugerindo interferência na Receita Federal e no Serpro para aliviar as investigações sobre as supostas "rachadinhas" praticadas por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro.
O ex-presidente já vinha enrolado nos inquéritos da venda de joias no exterior e do uso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para grampear adversários políticos. Daí aparecem os memes de Haddad para mobilizar a poderosa máquinas de seguidores bolsonaristas nas redes e mudar a pauta.
É estratégia, disseram à coluna políticos ligados ao ministro da Fazenda. E eles têm razão.
O problema para o governo é que os memes têm lastro na realidade. No ano passado, o primeiro da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a carga tributária federal caiu de 18,4% em 2022 para 17,5% em 2023. Isso porque a arrecadação recuava enquanto o PIB subia forte.
Só que Haddad trabalhou firme para recuperar a arrecadação e, com a ajuda do Congresso Nacional, passou uma série de medidas que, na prática, cobram mais impostos — algumas delas meritórias e que corrigem injustiças.
A arrecadação cresceu 10% em maio, bem acima do PIB, e a carga tributária vai aumentar neste ano. Estimativas apontam para 18% do PIB neste ano e 19% do PIB no final do governo.
O aumento da carga tributária começou a gerar reclamações do setor produtivo e outras medidas foram barradas no Congresso, como a tentativa de acabar com a crédito do PIS/Cofins.
Tudo indica que essa via de aumentar a arrecadação se exauriu e, apesar da pecha de taxador, Haddad não vai conseguir fechar o buraco do arcabouço fiscal. Por causa disso, foi forçado a começar a discutir cortes de gastos.
Só que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem interditando esse debate. Com a disparada do dólar, Lula deu aval para que a equipe econômica buscasse alternativas e se manteve calado por algum tempo, mas agora voltou a se manifestar.
Em entrevista hoje à Rede Record, Lula disse que não é obrigado a cumprir meta de déficit zero se tiver coisas mais importantes a fazer.
Os planos do time de Haddad estão cada vez mais focados em um pente-fino dos benefícios sociais, o que os especialistas avaliam como insuficiente, já que existe um descompasso entre o crescimento das despesas com saúde e educação e das despesas totais previstas no ajuste fiscal.
Resumindo: o "Haddad taxador" é mais um exemplo de como a oposição vem explorando com habilidade as brechas deixadas pelo governo Lula.
Quando Bolsonaro é acuado pelas investigações da Polícia Federal, os bolsonaristas respondem com as resistências do governo em resolver os problemas da economia ou então com a tolerância com a corrupção - como as coincidências nos favorecimentos aos irmãos Batista.
A dificuldade para o governo é quando essas acusações têm fundo de verdade.
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