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Ronilso Pacheco

Racismo não interfere nos lucros, por isso fornecedores do Carrefour calam

Manifestantes protestam diante do Carrefour na Asa Norte, em Brasília, contra o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, espancado e sufocado até a morte numa loja da rede no RS - GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Manifestantes protestam diante do Carrefour na Asa Norte, em Brasília, contra o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, espancado e sufocado até a morte numa loja da rede no RS Imagem: GABRIELA BILó/ESTADÃO CONTEÚDO
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

20/11/2020 18h26

Agora é hora de saber o que o assassinato do João Alberto Silveira Freitas, homem negro, nas dependências do Carrefour em Porto Alegre, impacta nos fornecedores deste mesmo supermercado. Agora é hora de pensar sobre as conexões entre capital, mercado, racismo e consumo.

Até o momento, Unilever, Coca-Cola, Bunge e Pepsico, algumas das principais marcas fornecedoras do Carrefour, não fizeram uma única postagem sobre o ocorrido. Eu disse algumas, porque o cast de fornecedores do Carrefour é imenso. Até aqui, nenhuma menção de repúdio, solidariedade à família da vítima ou de cobrança de medidas imediatas do supermercado.

Esta é a grande questão para pensar o racismo no Brasil. Ele não interfere no lucro, na geração de riqueza dos mais mais ricos. A vida de um João Alberto vale nada menos que qualquer outra vida negra que não é capaz de ameaçar o sujeito "mercado financeiro".

Crises políticas, eleição, discussão entre parlamentares, desavenças entre membros do governo, mexem com o "humor" do mercado financeiro. Racismo e assassinato sistemático e humilhante de pessoas negras, não.

A única preocupação dos fornecedores do Carrefour agora parece ser com a reabertura da loja e a volta à normalidade. Não adianta fazer um debate sobre o racismo apenas no mundo micro, como se tudo se resumisse entre o Carrefour, que contratou seguranças "despreparados", estes seguranças e a vítima. O racismo age em cadeia, e o Carrefour (e sua conta bancária e ações) está protegido pelos seus fornecedores.

Se a morte de um homem negro nessas condições, assim como foi a manutenção da normalidade do supermercado, na unidade de Recife em agosto, enquanto um funcionário enfarta em plena loja e é tratado como um lixo coberto por guarda-sóis para não atrapalhar a circulação dos clientes, não são capazes de interferir na postura das empresas que fornecem ao Carrefour, tudo está legitimado.

Repito, tendo a informação e a transparência como um bem público, é preciso saber o que cada fornecedor do Carrefour tem a dizer e está exigindo da empresa neste momento.

Ações do Carrefour não sofreram abalo até o momento

Eu poderia citar muito mais fornecedores, além dos já citados. Nissin, Nestlé, Diageo, Danone, Nivea, Colgate, Johnson&Johnson, L´Oreal. Todas estas marcas têm responsabilidade compartilhada com o Carrefour.

O assassinato de George Floyd no final de maio, e todos os protestos gerados a partir de junho nos Estados Unidos e que logo tomaram o mundo, incluindo o Brasil, geraram um longo debate sobre a necessidade de medidas de empresas com relação às suas políticas de diversidade e práticas antirracistas.

No mundo inteiro, o movimento "Pare de dar lucro ao ódio" conseguiu que grandes marcas como Adidas, Courvoisier, Procter&Gamble, além das próprias Unilever e Coca-Cola, deixassem de anunciar, ou ameaçassem o cancelamento de contratos com plataformas como Facebook e Twitter, como uma forma de pressionar contra a falta de empenho em boicotar postagens de ódio e que fomentavam o racismo.

O Brasil foi um dos únicos países onde o movimento chegou e não teve adesão. Todas as nossas grandes empresas, todas, ou ignoraram ou relativizaram o movimento e a adesão. Pois bem, o racismo não interfere no lucro, e o assassinato de um homem negro no interior de um supermercado também não.

No mercado financeiro, o Carrefour não sofrera qualquer abalo com o assassinato de João Alberto. Na verdade, até o início da tarde deste dia 20, com toda a repercussão do caso, ela estava operando de forma estável, isto é, tranquilamente.

Mais que marketing, é preciso respeito

Parece que o capitalismo forjado na modernidade sobre o sangue e o chicote da escravidão, continua atualizado, hoje, ignorando a violência sobre os corpos daqueles e daquelas que são descartáveis.

O racismo no Brasil é sofisticado, eficiente, sério, e age em cadeia. Tão complexo e "tradicional" que a delegada simplesmente não viu "nada que indicasse racismo até o momento".

Eu continuo esperando que os fornecedores do Carrefour, com seus e suas CEOs prontos para desenvolverem políticas de diversidade e marketing para atrair clientela negra tenham a decência e a humanidade além de suas finanças, para exigir respeito pelas vidas negras, pela vida das pessoas, que, aliás, também são suas consumidoras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.