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Bolsonaro mente sobre fome após lockdown em Araraquara e voto eletrônico

O presidente Jair Bolsonaro, ao centro, ao lado de Marcelo Xavier, presidente da Funai, e da intérprete de libras - UOL Confere/Reprodução
O presidente Jair Bolsonaro, ao centro, ao lado de Marcelo Xavier, presidente da Funai, e da intérprete de libras Imagem: UOL Confere/Reprodução

Juliana Arreguy e Beatriz Montesanti

Do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL, em São Paulo

29/04/2021 22h22Atualizada em 30/04/2021 17h13

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) distorceu informações sobre urnas eletrônicas, a situação em Araraquara (SP) e questões indígenas durante a tradicional live de quinta-feira, na noite de hoje (29).

Sem manifestar muita solidariedade às mais de 400 mil mortes pela covid-19, marca atingida nesta tarde, Bolsonaro mais uma vez criticou a adoção de medidas restritivas e disse ser necessário "se acostumar com o vírus". A fala distorceu uma projeção da OMS (Organização Mundial de Saúde) de que a pandemia não deve acabar neste ano.

O UOL Confere verificou as afirmações ditas na live:

É falso que fome em Araraquara tenha ocorrido só após lockdown

Hoje, a partir da madrugada, um comboio de caminhões lá da Ceagesp, em São Paulo (...) levando então segundo os dados aqui 200 toneladas de comida para o município de Araraquara (...). E por que esse problema? Em Araraquara (...) o prefeito fez aquele plano, que o Supremo [Tribunal Federal] deu poder pra ele, e pôs tudo para quebrar, fechou o município por muito tempo. Muita gente perdeu renda, muitos perderam o emprego.
Jair Bolsonaro, presidente da República

O Exército de fato distribuiu hoje alimentos em Araraquara, no interior de São Paulo, mas não é novidade na área. O prefeito Edinho Silva (PT) afirmou que a ação é recorrente e, ao consultar o site da prefeitura, o UOL Confere encontrou ações locais de distribuição de alimentos desde 2017.

Dados de 2013 já apontavam que cerca de 0,6% da população do município vivia abaixo da linha de pobreza. É uma situação que antecede a pandemia de covid-19, iniciada em 2020, e sem ligação com o lockdown decretado na área para frear o vírus. A medida restritiva, criticada pelo presidente, zerou o número de mortes pelo coronavírus na região.

É falso que não haja auditoria de votos

O TSE não faz [auditoria das urnas]. O TSE tem que disponibilizar no site todas as sessões do Brasil.
Jair Bolsonaro, presidente

As urnas eletrônicas são auditadas durante a votação e esse registro pode ser checado depois. O processo conta com funcionários do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), membros de partidos, empresas terceirizadas e pode ser acompanhado por cidadãos interessados.

O TSE disponibiliza, em seu site, boletins de urnas com o resultado do total de votos recebidos em cada seção, incluindo votos nos candidatos, votos brancos e nulos, quantos eleitores compareceram e quantos faltaram.

O UOL Confere já detalhou como é feito o procedimento em outro texto.

É falso que Europa não compre de índios por não querer ver 'progresso'

Nossa produção não pode ser comercializada por causa de um tratado, não sei se é uma portaria, que proíbe as trades de comprar grãos oriundos de terras indígenas.
Arnaldo Zuni Zacae, indígena da etnia parecis

Olha a discriminação do europeu. Não compra o que eles produzem, porque não quer ver o progresso deles.
Jair Bolsonaro, presidente

O presidente convidou um indígena para falar sobre produção de grãos de soja e a dificuldade de exportação para países europeus.

No entanto, não existe tratado internacional proibindo a compra de grãos produzidos em terras indígenas, mas sim a Moratória da Soja Amazônica, um pacto firmado em 2006 —e do qual o governo brasileiro foi signatário— que veta a compra de grãos produzidos em áreas recém-desmatadas.

Países como a França pressionam a União Europeia para que não feche acordo financeiro com o Mercosul como forma de sanção ao desmatamento na Amazônia.

Verdadeiro: Governo não incentivou população a ficar em casa

O governo federal não fechou comércio, não falou que todo mundo tinha que ficar em casa.
Jair Bolsonaro, presidente

Durante toda a pandemia, o governo rechaçou a possibilidade de lockdown e dificultou a implementação de medidas de isolamento social em estados e municípios ao entrar em confrontos diretos com governadores e prefeitos.

A ausência de coerência no discurso e medidas das esferas de governo é apontada por especialistas como um dos problemas que dificultaram o combate ao coronavírus no Brasil e impediram a contenção do vírus, fazendo com que o país batesse recordes de contaminação e mortes.

O isolamento social é uma medida aconselhada por autoridades da saúde de todo o mundo e se mostrou eficaz nos lugares em que foi aplicado de forma satisfatória.

Verdadeiro: OMS diz que pandemia levará anos para acabar

Bem, o que a OMS disse nesta semana? Que temos que conviver com o vírus, que vai levar anos talvez para o vírus ir embora.
Jair Bolsonaro, presidente

O diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan, declarou no início de março que é "prematuro e irrealista" falar sobre o fim da pandemia em 2021.

O diretor-geral do órgão, Tedros Adhanom, estima que a crise pode acabar até o ano que vem, mas um artigo publicado na revista Science afirma que "domar" a covid-19 pode durar de um ano a uma década.

Enganoso: Vagas de emprego chegaram a 500 mil se juntar dois meses

Agora em março o Brasil criou mais 184 mil vagas de trabalho. Janeiro e fevereiro, se não me engano, chegou a casa de 500 mil novas carteiras de trabalho.
Jair Bolsonaro, presidente

Em março, o Brasil abriu precisamente 184.140 vagas de emprego com carteira assinada, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Os números são resultado de 1.608.007 admissões e de 1.423.867 demissões.

Janeiro e fevereiro não chegaram a casa de 500 mil carteiras assinadas isoladamente. Em fevereiro, esse número ficou na casa dos 400 mil: foram 401.639 novas vagas, 1.694.604 admissões e 1.292.965 desligamentos. Em janeiro, registrou-se ainda menos: o país abriu 258.141 vagas, conforme dados revisados. Juntando os dois meses, tem-se 659.780 novas vagas.

Errata: o texto foi atualizado
O UOL Confere fazia uma análise de uma frase de Jair Bolsonaro sobre a criação de vagas de emprego. Ele disse na live que "janeiro e fevereiro, se não me engano, chegou à casa de 500 mil novas carteiras de trabalho". Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), em fevereiro este número ficou na casa dos 400 mil, enquanto em janeiro o país abriu 258 mil vagas. Como cabe a interpretação de o presidente ter juntado os dois meses para fazer sua afirmação, o texto foi alterado.

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