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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Em live, Bolsonaro mente ao negar que liderou atos golpistas no 7/9

9.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em sua live semanal - Arte sobre reprodução/YouTube Jair Bolsonaro
9.set.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em sua live semanal Imagem: Arte sobre reprodução/YouTube Jair Bolsonaro

Bernardo Barbosa, Juliana Arreguy e Beatriz Montesanti

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

09/09/2021 21h16Atualizada em 09/09/2021 22h20

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mentiu, em live hoje à noite, ao afirmar que não liderou os atos com pautas golpistas ocorridos no feriado de 7 de setembro, apenas dois dias atrás. Na ocasião, diante de milhares de pessoas, Bolsonaro chamou o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) de "canalha" e afirmou que não cumpriria ordens dele. Apoiadores do presidente carregavam cartazes pedindo medidas antidemocráticas e ilegais como o fechamento do Supremo e intervenção militar.

Bolsonaro também mentiu ao dizer que nunca brigou com "instituição nenhuma" e repetiu alegações incorretas sobre as eleições no Brasil, além de fazer declarações distorcidas para minimizar o avanço da fome e da inflação no país. Veja o que o UOL Confere checou:

Só escreveram embaixo, lá no rodapé, que esse movimento do dia 7, que eu estou liderando atos antidemocráticos. Que antidemocráticos?"
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração é FALSA, já que Bolsonaro indicou ruptura com outros Poderes após declarar que não cumpriria qualquer decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o que na visão de juristas pode ser enquadrado como crime de responsabilidade.

Ontem, em reação direta a Bolsonaro, o presidente do STF, ministro Luiz Fux, afirmou que ameaças à autoridade da Corte e o desprezo por decisões judiciais configuram crime de responsabilidade.

Além disso, diversas faixas e cartazes nos atos pediam o fechamento do STF e intervenção militar, demandas golpistas por serem meios ilegais para se obter o poder em uma democracia.

No dia 7, Bolsonaro também afirmou que as eleições brasileiras seriam "uma farsa" patrocinada pelo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, além de repetir mentiras sobre o processo eleitoral.

Eu nunca briguei com instituição nenhuma, a minha briga é pontualmente com algumas pessoas."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração é FALSA. No mesmo dia 7 de setembro, em Brasília, o presidente fez uma ameaça golpista contra outro Poder ao afirmar que ou o presidente do STF, ministro Luiz Fux, "enquadrava" o Supremo "ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos".

Será que alguém levantou uma plaquinha lá 'artigo 142'? Se levantou, parabéns. Não faz parte da Constituição? Ou tem algum artigo da Constituição que a gente não deva respeitar? O artigo 142 da Constituição fala da garantia da lei e da ordem, fala das Forças Armadas."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A fala de Bolsonaro é DISTORCIDA, já que as "plaquinhas" citando o artigo 142 da Constituição são usadas por parte de seus apoiadores para defender um suposto — e reconhecidamente ilegal — poder "moderador" das Forças Armadas, em uma interpretação deturpada do texto.

O artigo 142 diz que as Forças Armadas "são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".

Por que aumentou a inflação no Brasil? Não foi só no Brasil, foi no mundo todo. O mundo todo passou a consumir mais. Além de o mundo crescer, em média, mais 60 milhões de habitantes por ano, ele passou a consumir mais. O cara ficou mais em casa."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração é DISTORCIDA, pois apesar de a inflação ter avançado ao redor do mundo, não foi pelos motivos citados pelo presidente.

Segundo levantamento feito pela Folha com base em informações na base de dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o aumento da inflação é um fenômeno generalizado em 2021, atingindo praticamente todos os países economicamente relevantes.

A explicação, no entanto, não está no fato de a população consumir mais, mas na falta de insumos gerada pela interrupção de várias cadeias produtivas e pela demanda concentrada em alguns setores da economia. Houve, ainda, segundo a Folha, o deslocamento da demanda de serviços para bens industriais e um volume inédito de estímulos injetados na economia para combater os efeitos da pandemia.

A despeito desse movimento global, há outros motivos para a alta da inflação brasileira, como mostrou reportagem do UOL Economia.

Entre eles estão a desvalorização cambial, que fez com que produtos e insumos importados também sofressem fortes altas; a crise hídrica, que encarece a conta de luz no país todo; as ondas de frio do inverno, que prejudicaram a produção de alimentos e fizeram com que os preços disparassem; e o combustível, em alta porque a Petrobras optou por seguir os preços internacionais do petróleo.

Alguns passam fome? Sim, passam fome. Mas a média dos que passaram a comer mais foi bem maior."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A afirmação de Bolsonaro de que "alguns passam fome" no Brasil é DISTORCIDA. Levantamento da FAO (braço da ONU sobre Alimentação e Agricultura), considerado o principal informe sobre a fome no mundo, aponta 49,6 milhões de brasileiros — cerca de um quarto da população — em situação de insegurança alimentar moderada ou grave entre os anos de 2018 e 2020, contra 37,5 milhões entre 2014 e 2016.

A organização considera insegurança alimentar o acesso limitado à comida, tanto por falta de dinheiro como por outros fatores. Os casos graves já representam 7,5 milhões, quase o dobro do observado entre 2014 e 2016 (3,9 milhões).

O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) estima que cerca de 9% da população do Brasil esteja subalimentada, o que pode levar o país a retornar ao Mapa da Fome. Se levarmos em conta a mais recente estimativa da população brasileira feita pelo IBGE, de 213,3 milhões de habitantes, esses 9% seriam equivalentes a 19,1 milhões de pessoas.

Já a declaração sobre a "média dos que passaram a comer mais" é INSUSTENTÁVEL, pois não há dados públicos que corroborem a afirmação de Bolsonaro. Há dados, no entanto, que indicam o contrário: em abril, o país atingiu o recorde de extrema pobreza, com mais de 14,5 milhões de famílias na miséria. Paralelamente, houve aumento na desigualdade: durante a pandemia, o Brasil registrou 42 novos bilionários.

A plataforma Ecoa, do UOL, listou aqui entidades e iniciativas que auxiliam projetos sociais por todo o país para ajudar os mais vulneráveis a ter o que comer.

Eu tive muito mais voto do que os 57 milhões que estavam ali."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração, que faz alusão ao resultado das eleições de 2018, é FALSA. Nunca houve registro de fraude nas eleições brasileiras desde a adoção das urnas eletrônicas. O presidente mente ao afirmar que teve votos que não foram computados nas eleições de 2018, das quais saiu vitorioso. Apesar de insistir no tema, o presidente nunca apresentou provas das supostas fraudes (veja aqui e aqui).

A fala do presidente na live faz uma menção indireta a um boato já desmentido, mas volta e meia repetido por Bolsonaro, de que eleitores que tentavam votar nele tinham seus votos computados para Fernando Haddad (PT).

Uma checagem feita pelo Projeto Comprova na ocasião mostrou que diversos eleitores de estados diferentes tentaram digitar o número ao votarem para governador — e não para a Presidência, cargo que Bolsonaro disputava. Já os vídeos em que o nome de Haddad aparece quando se digita o número de Bolsonaro são montagens, conforme publicado pelo UOL.

Barroso, se você está aperfeiçoando [o sistema eleitoral], é porque tinha brecha."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração é DISTORCIDA. Bolsonaro trata de forma enganosa o anúncio feito mais cedo hoje, o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, da criação da CTE (Comissão de Transparência das Eleições), órgão que contará com a participação de especialistas, representantes da sociedade civil e instituições públicas na fiscalização e auditoria do processo eleitoral.

Não há sistema eleitoral 100% perfeito e, por isso, todos eles passam por constante aperfeiçoamento. No Brasil, o TSE realiza testes públicos de segurança com as urnas eletrônicas justamente para identificar e sanar eventuais falhas antes das eleições.

Segundo especialistas em segurança digital ouvidos pelo UOL, na prática, é extremamente improvável aplicar uma fraude em larga escala na votação com urnas eletrônicas, já que isso implicaria a violação de inúmeras máquinas espalhadas pelo país.

Não é justo desmonetizar páginas de pessoas que estão pedindo o voto impresso."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

A fala do presidente é DISTORCIDA. O corregedor-geral do TSE, ministro Luís Felipe Salomão, proibiu redes sociais de repassarem dinheiro a páginas bolsonaristas não por defenderem o voto impresso, mas sim por disseminar informações falsas sobre as eleições no Brasil.

Salomão afirmou que o conteúdo das redes de apoiadores do chefe do Executivo não trata de "crítica legítima" ao sistema eleitoral, "mas sim o impulsionamento de denúncias e de notícias falsas acerca do sistema eletrônico de votação".

Nós somos agora o terceiro país, proporcionalmente, que mais vacinou no mundo."
Presidene Jair Bolsonaro em live semanal

A declaração é FALSA. Segundo a plataforma Our World in Data, que compila dados sobre a pandemia obtidos com governos ao redor do mundo, o Brasil está em 94º na lista de países ou territórios que mais imunizaram proporcionalmente sua população, tendo aplicado duas doses ou a dose única em aproximadamente 31,5% de sua população.

Entre os 30 países de maior população, o Brasil ainda está bem atrás de China (67,15% da população totalmente vacinada), Reino Unido (63,95%) e Itália (62,92%), entre outros, e está em patamares similares aos de Coreia do Sul (37,26%) e Colômbia (29,13%).

Considerando pessoas que receberam ao menos uma dose, o Brasil é o 51º país ou território que mais vacinou proporcionalmente sua população, com 65,1% parcialmente imunizada, ainda segundo o Our World in Data.

No que depender de mim, não vai ter controle social nenhum da mídia, como o Lula acabou de dizer. Como o Lula disse uns 15 dias atrás, que ia controlar a mídia caso volte à Presidência."
Presidente Jair Bolsonaro em live semanal

Em entrevista a uma rádio baiana em 26 de agosto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou que se voltar a presidir o país, pretende regular os meios de comunicação, sem falar em "controlar".

A regulação, conforme explicado pelo colunista do UOL Camilo Vannuchi, não necessariamente significa controle da mídia, o que indica a afirmação de Bolsonaro como DISTORCIDA.

Segundo Vannuchi, o Brasil tem várias regulações da mídia e a que Lula pretende alterar, de 1962, incluiria uma regulação econômica e não de conteúdo. A Constituição, inclusive, prevê a liberdade de informação jornalística e veda a censura aos veículos de imprensa.

Apesar da fala, Bolsonaro já desferiu diversos ataques a jornalistas e veículos de comunicação, fatores que levaram o Brasil a despencar em rankings globais de liberdade de imprensa e liberdade de expressão. Além disso, o presidente também já declarou, em críticas ao Facebook pelas políticas contra disseminação de notícias falsas, que o certo seria "tirar de circulação" jornais como Folha, Estado de S. Paulo e O Globo. No entanto, acrescentou que não fecharia os veículos por ser "democrata".

O UOL Confere é uma iniciativa do UOL para combater e esclarecer as notícias falsas na internet. Se você desconfia de uma notícia ou mensagem que recebeu, envie para uolconfere@uol.com.br.

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