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UOL Confere

Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


Veja checagem do que viralizou no Facebook de presidenciáveis este ano

23.fev.2022 - Da esquerda para a direita na imagem: Doria, Moro, Lula, Bolsonaro e Ciro - Arte/UOL
23.fev.2022 - Da esquerda para a direita na imagem: Doria, Moro, Lula, Bolsonaro e Ciro Imagem: Arte/UOL

Bernardo Barbosa, Letícia Mutchnik e Rayanne Albuquerque

Do UOL, em São Paulo

24/02/2022 04h00Atualizada em 24/02/2022 13h02

Cinco pré-candidatos a presidente — Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Sergio Moro (Podemos), Ciro Gomes (PDT) e João Doria (PSDB) — deram informações incompletas ou incorretas em alguns dos posts em que mais conseguiram interações no Facebook neste começo de ano, mostra checagem do UOL Confere.

A partir da plataforma de monitoramento Crowdtangle, a reportagem encontrou os dez posts com mais interações (curtidas, compartilhamentos e comentários) feitos pelas páginas de cada político entre 1º de janeiro e 15 de fevereiro deste ano, quando os dados foram coletados. Depois, analisamos o que poderia ser checado dentro dos posts selecionados. A seguir, leia o que foi verificado:

Jair Bolsonaro (PL)

É com satisfação que anunciamos para os professores, da educação básica, um reajuste de 33,24% no piso salarial. Esse é o maior aumento já concedido, pelo Governo Federal, desde o surgimento da Lei do Piso."

A declaração de Bolsonaro está sem contexto. De fato, desde a instituição do piso, o último aumento foi o maior concedido pelo governo federal. Mas o reajuste é obrigatório justamente pela lei citada por Bolsonaro, que entrou em vigor em 2008. A publicação do presidente também omite que não houve reajuste em 2021, nem explica os motivos disso.

A Lei do Piso definiu que o reajuste do piso deve ser feito todo ano, em janeiro, usando "o mesmo percentual de crescimento do valor anual mínimo por aluno referente aos anos iniciais do ensino fundamental urbano, definido nacionalmente".

Em linhas gerais, este valor anual mínimo por aluno é definido pelo governo federal a partir do valor dos recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) e do número de alunos matriculados, entre outros parâmetros. O Fundeb é financiado por uma proporção de diversos impostos.

Sendo assim, o reajuste que seria concedido em janeiro de 2021 teria como parâmetro a variação entre o valor mínimo por aluno de 2019 para 2020. Em dezembro de 2019, o governo definiu o valor para 2020 em R$ 3.643,16. Mas em novembro de 2020, reduziu para R$ 3.349,56, "com efeitos financeiros a contar de 1º de janeiro de 2020".

Como o valor mínimo por aluno para 2020 ficou inferior ao de 2019 (R$ 3.440,29), isso anulou o reajuste do piso dos professores para 2021. A redução no valor por aluno foi consequência da queda de arrecadação relacionada à pandemia de covid-19, o que diminuiu o valor do Fundeb como um todo entre 2019 e 2020.

O valor mínimo por aluno para 2021 ficou em R$ 4.462,83 — ou seja, 33,2% maior que o valor de 2020. Com isso, o reajuste concedido no começo do ano apenas atende ao que está previsto na legislação sobre o assunto.

A declaração está em post publicado na página de Bolsonaro em 27 de janeiro. No momento da coleta dos dados, a publicação tinha 301 mil interações.

Estamos mexendo na Lei Rouanet. Quando eu entrei no governo, senhores, o limite [de captação] para museus era R$ 60 milhões. O limite para artistas era R$ 10 milhões por ano. Eu passei imediatamente para R$ 1 milhão (...)."

A declaração de Bolsonaro é distorcida, porque trata de forma enganosa as regras para o financiamento de projetos culturais.

O teto de R$ 1 milhão citado pelo presidente se aplica a casos específicos, como mostrou reportagem da Folha em janeiro. A gestão do atual secretário de Cultura, Mário Frias, aprovou 242 projetos acima deste valor. A norma que define o limite de captação por projeto abre uma exceção justamente para projetos de museus, categoria citada pelo presidente, entre outros.

A Lei Rouanet permite que pessoas físicas ou empresas destinem a projetos culturais parte do dinheiro que pagariam em impostos. Ao aprovar um projeto, o governo autoriza a captação de recursos por meio da lei. Isso não quer dizer que o proponente vai conseguir o dinheiro aprovado, já que é o financiador que escolhe em que projeto colocar o recurso.

A declaração está em vídeo publicado na página de Bolsonaro em 5 de janeiro. A publicação teve 226 mil interações. O vídeo foi visto mais de 950 mil vezes.

Lula (PT)

Eu tenho muito orgulho de ter ganhado as eleições em 2003 e de ter gerado no Brasil 22 milhões de empregos formais, com carteira profissional assinada, durante o governo do PT."

A declaração de Lula está sem contexto. O ex-presidente citou um número que se aproxima do número de empregos formais criados entre 2003 e 2014, mas desconsidera as vagas fechadas no segundo mandato de Dilma Rousseff.

De 2003 a 2014, foram criados 20,8 milhões de empregos formais, cifra próxima da citada pelo petista. Os dados são da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Previdência, e incluem vagas CLT, estatutárias, temporárias e avulsas.

No entanto, em 2015, último ano completo do governo Dilma, o Brasil fechou 1,5 milhão de vagas com carteira assinada.

O ex-presidente citou este número nas entrevistas para sites independentes, em 19 de janeiro, e para a rádio CBN Vale, no dia 26 do mesmo mês. Ambas foram transmitidas também em sua página no Facebook. Os posts tiveram 207 mil interações. Os vídeos foram vistos cerca de 1 milhão de vezes.

Durante o governo do PT, o Brasil foi o único país do G20 que fez superávit primário todos os anos."

A declaração é falsa, porque em dois anos de governos petistas não houve superávit primário.

O superávit primário ocorre quando o resultado primário das contas do governo é positivo, ou seja, quando as receitas do governo superam as despesas, deixando de fora os gastos com pagamento de juros.

De 2003 a 2013, os governos do PT registraram um resultado primário positivo, ou seja, tiveram superávit primário. No entanto, isso não aconteceu em 2014 e 2015. Estes dados podem ser consultados em uma planilha disponível para download no site do Tesouro Nacional.

O ex-presidente citou este número nas entrevistas para sites independentes e para a rádio CBN Vale.

Sergio Moro (Podemos)

Jamais prestei serviço para empresa envolvida na Lava Jato."

A declaração de Moro está sem contexto. A empresa de consultoria Alvarez & Marsal, onde o ex-juiz e ex-ministro trabalhou por um ano após deixar o governo Bolsonaro, recebeu cerca de R$ 65 milhões de empresas que foram alvos da operação Lava Jato, segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), que investiga se houve conflito de interesse.

Em live nas redes sociais, Moro disse ter recebido US$ 45 mil mensais da Alvarez & Marsal entre novembro de 2020 e novembro de 2021. No câmbio de ontem (23), isso equivale a R$ 225 mil, aproximadamente.

Em nota divulgada em janeiro, Moro afirmou que seu contrato era com um braço da Alvarez & Marsal sem relação direta com as empresas investigadas na Lava Jato, "com outro CNPJ e cujas fontes de receita são diferentes".

A fala de Moro foi publicada em um vídeo postado em 24 de janeiro. O post teve 24 mil interações, e o vídeo foi visto 744 mil vezes.

Eu fui juiz por 22 anos. Eu lidei com o crime organizado. Eu tive processo contra o Fernandinho Beira-Mar e a quadrilha dele. Teve até um líder do cartel de Juárez, que é a maior organização criminosa do México, que teve lá em Curitiba, o pessoal foi processado."

A declaração é verdadeira. Moro atuou ao longo de 22 anos como magistrado, posto que deixou para assumir o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro. Como juiz, em 2008, condenou Fernandinho Beira-Mar a cumprir 29 anos e oito meses de prisão em regime fechado pelos crimes de tráfico de drogas e armas, além de lavagem de dinheiro.

Também é verdade que Moro condenou em 2007 Lucio Rueda Bustos, antigo chefe do cartel de Juárez, por lavagem de dinheiro.

A fala de Moro foi publicada em um vídeo postado em 7 de janeiro. O post teve 13 mil interações, e o vídeo foi visto quase 300 mil vezes.

Ciro Gomes (PDT)

Nas eleições que você mencionou, 2018, recuperem por favor (...): todas as pesquisas demonstravam que eu ganhava do Bolsonaro no segundo turno."

A declaração está sem contexto. Segundo pesquisas de intenção de voto, Ciro chegou a ter ampla vantagem sobre Bolsonaro em simulações de segundo turno feitas em 2018, mas pelo menos três mostraram os dois em empate técnico — apesar de Ciro ter continuado numericamente à frente de Bolsonaro.

Ao longo de 2018, Ciro chegou a abrir dez pontos percentuais de vantagem sobre Bolsonaro nas simulações de segundo turno feitas pelo Datafolha, como aconteceu em duas pesquisas em setembro daquele ano. O Ibope também mostrou Ciro superando Bolsonaro no segundo turno em pesquisas feitas em setembro (veja aqui, aqui e aqui) e outubro (veja aqui e aqui).

No entanto, outras duas pesquisas do Ibope feitas em setembro apontaram empate técnico (veja aqui e aqui) entre os dois candidatos, com Ciro numericamente à frente. A margem de erro era de dois pontos percentuais.

Um dia antes do primeiro turno, Ciro tinha 47% contra 43% de Bolsonaro na simulação de segundo turno feita pelo Datafolha, e 45% contra 41% na feita pelo Ibope. Com isso, nas duas pesquisas, os candidatos estavam em empate técnico, já que a margem de erro para Ibope e Datafolha era de dois pontos percentuais.

Também foi registrado empate técnico entre Bolsonaro e Fernando Haddad (PT) nos cenários de segundo turno feitos pelo Ibope e pelo Datafolha, mas nos dois casos Bolsonaro estava numericamente à frente do petista.

A fala de Ciro foi publicada em um vídeo postado em 24 de janeiro. O post teve 12 mil interações, e o vídeo foi visto quase 180 mil vezes.

[Moro] recebeu auxílio-moradia tendo apartamento particular seu e da sua 'conja' em Curitiba."

A declaração é verdadeira. Segundo reportagem publicada pela Folha em 2018, Moro tinha um apartamento próprio em Curitiba, mas mesmo assim recebia um auxílio-moradia de R$ 4.378. O então juiz conseguiu receber o dinheiro por causa de uma decisão em que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux estendeu o benefício para juízes de todo o país.

O valor era incorporado ao salário do magistrado, mas não entrava no teto constitucional dos vencimentos do serviço público, que naquele momento era de R$ 33.763. Moro também recebia R$ 884 de auxílio-alimentação. Assim, as indenizações totalizavam R$ 5.262 por mês.

A fala de Ciro foi publicada em um vídeo postado em 26 de janeiro. O post teve 12 mil interações, e o vídeo foi visto quase 200 mil vezes.

João Doria (PSDB)

Aos poucos a vida está voltando ao Rio Pinheiros."

A declaração do post do governador paulista, que acompanha um vídeo de uma tartaruga no Rio Pinheiros, está sem contexto.

O projeto de recuperação do Rio Pinheiros tem avançado, principalmente devido à redução de despejo de esgoto em afluentes. Segundo o governo paulista, 538 mil imóveis já foram conectados à rede de esgoto, e quase 60 toneladas de lixo tinham sido retiradas até o último dia 17. Mas, segundo o geógrafo Luiz de Campos, membro do projeto Rios e Ruas, que acompanha os rios paulistanos, "no fluxo principal ainda tem muita poluição e vai ter muita poluição por muito tempo".

"O pó do pneu dos carros que circulam ali na marginal fica no asfalto, qualquer chuva lava esse asfalto com óleo e poeira da cidade, e isso deságua diretamente no Rio Pinheiros", disse.

Reportagem de Ecoa, do UOL, mostrou que, em outubro de de 2021, a qualidade da água em três pontos do rio (Jaguaré, Cidade Jardim, João Dias) não havia apresentado melhora significativa comparativamente a 2019.

O post de Doria foi publicado em 27 de janeiro. O post teve quase 9 mil interações, e o vídeo da tartaruga foi visto 133 mil vezes.

O UOL Confere é uma iniciativa do UOL para combater e esclarecer as notícias falsas na internet. Se você desconfia de uma notícia ou mensagem que recebeu, envie para uolconfere@uol.com.br.