"Entrada da PM no Carandiru foi necessária e legítima", diz Fleury em júri de policiais

Janaina Garcia*

Do UOL, em São Paulo

  • Mastrangelo Reino/Folhapress

    Luiz Antonio Fleury Filho, que era governador de São Paulo, quando ocorreu o massacre dos 111 detentos do Carandiru

    Luiz Antonio Fleury Filho, que era governador de São Paulo, quando ocorreu o massacre dos 111 detentos do Carandiru

O ex-governador Luiz Antonio Fleury Filho disse em depoimento nesta terça-feira (16), em São Paulo, que "a entrada da polícia foi absolutamente necessária e legítima" no complexo penitenciário do Carandiru, em 2 de outubro de 1992, naquele que ficou conhecido como o episódio mais trágico na história do sistema penitenciário brasileiro. Ao todo, 111 presos foram mortos.

Fleury depôs como testemunha de defesa no júri popular de 26 policiais militares acusados pela morte de 15 detentos que, no momento da invasão, estavam no segundo pavimento da antiga Casa de Detenção. Sobre a responsabilidade pelos 111 assassinatos de homens custodiados do Estado, e durante a ação policial, o ex-governador afirmou: "A responsabilidade política era minha; a criminal, caberá aos jurados esclarecer".

O ex-governador, que também é promotor e oficial da reserva da PM, onde detém a patente de primeiro-tenente, falou durante cerca de 40 minutos e saiu pelos fundos, longe do acesso da imprensa e do público que frequenta o Fórum Criminal da Barra Funda (zona oeste de SP). O depoimento dele foi, até ali, o mais rápido desde que o júri tivera início, na segunda (15).

É a segunda vez que o ex-governador fala em juízo sobre o massacre: a primeira havia sido em 2001, no júri popular do coronel Ubiratan Guimarães, comandante da tropa durante a ação. Condenado à época a 623 anos de reclusão pelo massacre e absolvido pelo Tribunal de Justiça paulista em 2006, Guimarães foi assassinado no mesmo ano, meses depois.

Entenda o massacre do Carandiru
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Fleury negou que a ordem para a ação dos PMs no Carandiru tenha partido dele. Alegou que estava em Sorocaba (interior de São Paulo), na sexta-feira em que ocorreu a invasão, em uma agenda político-eleitoral com o candidato a prefeito por seu partido --na época, o PMDB -- na cidade, Paulo Mendes. No dia seguinte, o sábado 3 de outubro, era eleição municipal.

Questionado sobre o motivo de os números do massacre só terem sido efetivamente divulgados no final da tarde do dia 3, o ex-governador refutou eventual cuidado eleitoreiro na medida --seu candidato à época pela capital paulista era o hoje senador tucano Aloysio Nunes, o qual, disse, tinha poucas chances de vitória à prefeitura.

"Esse foi um tratamento político que foi dado pelos meus adversários políticos", minimizou.

O ex-governador justificou que pediu ao secretário de segurança à época, Pedro Franco de Campos, que só divulgasse o número fechado de mortos depois de receber dados parciais na sexta e no sábado. Assim, disse, o total de 111 vítimas só teria sido informado a ele às 16h do dia 3.

PCC

De acordo com o ex-governador, eventual tentativa tanto da defesa dos réus quanto do Ministério Público de se vincular o massacre à criação do PCC (Primeiro Comando da Capital), no ano seguinte, é uma tentativa de "se dar um pouco de glamour" à facção criminosa.

"Usa-se essa justificativa para dar um pouco de glamour ao PCC, que surgiu criminosa e não com a intenção de beneficiar ou cuidar de preso", disse.

A respeito da relação entre o PCC e o massacre, Fleury havia sido indagado pela advogada dos réus, Ieda Ribeiro de Souza, sobre o estatuto de criação da facção criminosa. Nele, o PCC que cita o episódio no Carandiru como uma espécie de marco de situações que deveriam er combatidas por meio da organização de detentos por meio de facções.

Sobre o porquê de não ter ido ao Carandiru no dia seguinte, quando soube --segundo ele, por volta das 16h --, o ex-governador alegou à advogada: "Não era minha obrigação ir ao local, eu era governador do Estado", disse. "O interesse do Estado é a investigação isenta; o governador não é presidente de inquérito", disse. 

Ordem para entrada

A advogada dos PMs citou ao ex-governador trecho do livro "Vozes do Carandiru" (de Karina Florindo Rodrigues e Helvio Borelli, publicado em 2007) no qual ele deu aos autores a declaração a respeito da invasão dos policiais ao presídio: "Não dei a ordem de entrada, mas, se estivesse em meu gabinete, daria". Em depoimento, ele reforçou: "Confirmo essa frase".

Antes, o ex-governador alegara que seu secretário de segurança pública à época, Pedro Franco de Campos, tinha autonomia para tomada de decisões como a ação no presídio.

* Colaborou Gabriela Fujita, em São Paulo

  • Arte UOL

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