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General rompe tradição e para de expor pessoalmente dados de crimes em SP

General João Camilo Pires de Campos, secretário da Segurança de São Paulo - Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão
General João Camilo Pires de Campos, secretário da Segurança de São Paulo Imagem: Bruno Rocha/Fotoarena/Estadão

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

25/11/2019 15h58

Resumo da notícia

  • Há 11 meses como secretário em SP, general alterou tradição de transparência
  • Em nenhuma divulgação mensal o secretário se dispôs a explicar dinâmica criminal
  • Professor de Gestão Pública critica: "Poder exercido de forma opaca e burocrática"
  • Apesar de não falar mensalmente sobre os dados, secretário aparece ao lado de Doria

Há 11 meses à frente da SSP (Secretaria da Segurança Pública), o general da reserva do Exército João Camilo Pires de Campos alterou uma tradição na pasta e deixou de atender a imprensa para expor as estatísticas criminais, divulgadas historicamente a cada dia 25. Sem as entrevistas que a pasta costumava organizar, o secretário do governo João Doria (PSDB) também deixou de responder mensalmente a perguntas sobre a dinâmica da criminalidade no estado.

No início da tarde de hoje, a SSP informou que, pelo 11º mês seguido, os dados serão divulgados no site da pasta, sem previsão de coletiva de imprensa dada pelo secretário. Os dados estarão disponibilizados a partir de sexta-feira (29) em decorrência dos feriados da Proclamação da República e da Consciência Negra.

"A publicação segue o disposto no artigo 2º da lei 9.155/95 e no artigo 1º da resolução SSP 161/01, que determina que as informações sejam divulgadas em até 30 dias a contar do encerramento do período", informou a secretaria por meio de nota.

Professor de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e presidente do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), Renato Sérgio de Lima criticou a falta de relação entre o secretário e a imprensa enquanto está à frente da pasta.

"Transparência não significa apenas divulgar os números, mas prestar contas sobre o efeito das políticas da pasta sobre a realidade por eles descritas. É ruim para a sociedade e péssimo para um governo quando a imprensa é ignorada e o poder é exercido de forma opaca e burocrática", analisou Lima.

Três chefes anteriores atendiam a imprensa

Desde o fim de 2012 até o fim de 2018, chefiaram a pasta três procuradores. Nenhum deles havia deixado de atender a imprensa para transparecer os dados da criminalidade no estado.

Foram eles Fernando Grella Vieira, entre novembro de 2012 e dezembro de 2014; Alexandre de Moraes, entre janeiro de 2015 e maio de 2016; e Mágino Alves Barbosa Filho, entre maio de 2016 e dezembro de 2018.

Procurado, o antecessor do general no cargo, o procurador Mágino Alves Barbosa Filho afirmou que "cada secretário estabelece a sua forma de relação com a imprensa". "Francamente, não me sinto à vontade para emitir qualquer opinião acerca do assunto", complementou.

Aparições ao lado de Doria

Os crimes violentos de São Paulo têm caído mensalmente desde o ano passado, com exceção de estupros e de violência policial. Diferentemente dos secretários antecessores, o general não usa o dia 25 para destacar os dados positivos do governo paulista.

As aparições públicas do secretário da Segurança, ao longo desses 11 meses, se restringem a eventos fechados das polícias e para estar ao lado do governador, João Doria (PSDB), durante coletivas com pautas positivas da segurança.

João Doria ao lado do general João Camilo Pires de Campos, o secretário da Segurança de SP - 13.nov.2018 - Luiz Cláudio Barbosa/Código 19/Estadão Conteúdo
João Doria ao lado do general João Camilo Pires de Campos, o secretário da Segurança de SP
Imagem: 13.nov.2018 - Luiz Cláudio Barbosa/Código 19/Estadão Conteúdo

Um exemplo foi quando o governador tentou obter o crédito pelas transferências de membros da cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital), realizadas em fevereiro.

Em setembro, ao lado de Doria, Campos afirmou que "desde o dia 13 de janeiro o governo do estado, com 42 dias de gestão, começou a transferir os presos para o sistema federal. Primeiro, foram 22, depois, foram mais três. E, há poucos dias, foram mais dois. Foram 27 presos transferidos".

As medidas, no entanto, são resultado de investigações do MP (Ministério Público) e de determinações da Justiça paulista.

No início do ano, quando a reportagem questionou por que o secretário não atenderia a imprensa no dia 25, a pasta informou que o secretário costuma atender jornalistas, mas que, em ocasiões passadas, também não houve coletiva de imprensa para exposição dos dados.

Questionada sobre o que motivou o secretário a não divulgar os dados pessoalmente nos seus primeiros 11 meses de gestão, a SSP não se manifestou até esta publicação.

Outro lado

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que, nos primeiros dez meses do ano, seus porta-vozes e das polícias Civil e Militar concederam entrevistas a diferentes veículos de comunicação, resultando na veiculação de 1.802 reportagens com entrevistados da pasta.

A pasta cita, inclusive, matéria do UOL de fevereiro deste ano em que o general fala sobre os indicadores criminais.

Segundo a pasta, o secretário participou de mais de 30 entrevistas coletivas. De acordo com a secretaria, o general participou ainda de diversos eventos públicos "para os quais a imprensa foi convidada e teve a oportunidade de indagá-lo sobre os mais variados temas".

Sobre as estatísticas criminais, a pasta afirma que a divulgação é feita mensalmente nos canais digitais oficiais da pasta e que os dados ficam disponíveis para todos os interessados.

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