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O que se sabe sobre o caso da cerveja com substância tóxica em MG

Marcelo Oliveira e Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo*

13/01/2020 20h08Atualizada em 17/01/2020 14h48

Resumo da notícia

  • Polícia encontrou substâncias tóxicas em lotes de cerveja em MG
  • Elas podem ter causado a síndrome nefroneural em quem bebeu o produto
  • Ministério mandou recolher todas as cervejas da Backer
  • Cervejaria pede para ninguém beber a Belorizontina nem a Capixaba

Duas substâncias tóxicas encontradas em lotes da cerveja Belorizontina, marca da empresa Backer, são suspeitas de terem causado a morte de ao menos quatro pessoas e levado ao menos outras 14 a buscar tratamento em Minas Gerais desde o fim do ano passado.

A suspeita é que consumidores que tomaram a cerveja contaminada desenvolveram o quadro clínico de síndrome nefroneural, que ataca os sistemas renal e neurológico.

O dietilenoglicol e o monoetilenoglicol, substâncias tóxicas encontradas na cerveja, costumam ser usados no resfriamento da bebida durante a produção, mas sem entrar em contato com o produto. O Ministério da Agricultura anunciou nesta quarta (15) que identificou a presença do dietilenoglicol na água utilizada na produção da bebida.

A pasta confirmou que a contaminação aconteceu dentro da fábrica, mas disse estar investigando se houve sabotagem, vazamento ou uso indevido.

Confira o que se sabe até o momento sobre o caso:

Como houve o contágio da cerveja?

Uma das suspeitas é que tenha havido um vazamento das substâncias ao longo da produção. A Backer, porém, nega usar o dietilenoglicol. A empresa admite que usa em seu processo de fabricação apenas do monoetilenoglicol.

Ainda é um mistério como o dietilenoglicol foi parar na produção. Professores ouvidos pelo UOL afirmam que uma substância pode se transformar em outra por reações químicas.

Na quinta-feira (16), a Polícia Civil de Minas Gerais cumpriu mandado de busca e apreensão em uma empresa que seria a fornecedora do monoetilenoglicol para a Backer.

No processo de fabricação da bebida, ambas as substâncias são armazenadas em tanque e, por meio de serpentinas, fazem o resfriamento durante o processo de produção, antes da fermentação da cerveja.

No processo normal de fabricação de cerveja, não há contato dessas substâncias tóxicas com a bebida e elas não fazem parte da fórmula da cerveja.

Houve sabotagem?

Em pedido feito à Justiça para retomar a produção, a Backer anexou um vídeo que mostraria uma possível sabotagem, nos tanques de monoetilenoglicol da empresa. A juíza, porém, afirmou que a análise desta questão não deveria ser feita agora.

Após as primeiras mortes, veio à tona a história de uma demissão conturbada na Backer no fim de dezembro. Sentindo-se injustiçado e perseguido, o funcionário dispensado teria feito ameaças a um colega de trabalho, e um boletim de ocorrência chegou a ser registrado. Por isso, aventou-se a possibilidade de uma sabotagem contra a empresa.

Quantas pessoas foram afetadas?

Pelo menos 18 casos suspeitos da síndrome foram registrados até o momento. Nesta quinta (16), a Polícia Civil confirmou a morte de uma quarta vítima com sintomas da síndrome nefroneural.

"Foram notificados 18 casos suspeitos de intoxicação exógena por Dietilenoglicol. Desses, 16 pessoas são do sexo masculino e duas do feminino. Quatro casos foram confirmados e os 14 restantes continuam sob investigação, uma vez que apresentaram sinais e sintomas com relato de exposição", informou a pasta.

Dos 18 casos, 12 se concentram em Belo Horizonte. Os demais estão, cada um, em outras cidades mineiras:

  • Nova Lima
  • Pompéu
  • São João Del Rei
  • São Lourenço
  • Ubá
  • Viçosa

Quais os sintomas da síndrome nefroneural?

Os pacientes procuraram ajuda médica relatando alterações gastrointestinais, alterações neurológicas —como paralisia facial, visão borrada, perda parcial ou total da visão— e alterações sensitivas. Há casos de consumidores que chegaram a ficar internados em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) após ingerir a bebida.

Quais cervejas da Backer foram contaminadas?

Nesta quinta (16), o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), informou que o números de lotes contaminados por dietilenoglicol aumentou para 21, são eles:

  • Backer D2 L1 2007
  • Backer Pilsen L1 1549
  • Backer Pilsen L1 1565
  • Belorizontina L2 1197
  • Belorizontina L2 1348
  • Belorizontina L2 1354
  • Belorizontina L2 1455
  • Belorizontina L2 1464
  • Belorizontina L2 1474
  • Belorizontina L2 1487
  • Belorizontina L2 1546
  • Belorizontina L2 1557
  • Belorizontina L2 1593
  • Belorizontina L2 1604
  • Belorizontina L2 1604
  • Brown 1316
  • Capitão Senra L2 1571
  • Capitão Senra L2 1609
  • Capixaba L2 1348
  • Fargo 46 L1 4000
  • Pele Vermelha L1 1345
  • Pele Vermelha L1 1448

Como identificar o lote?

O número do lote está sempre junto à data de validade no rótulo da bebida. Nos rótulos das garrafas da Belorizontina, há um retângulo branco logo abaixo do código de barras para as informações da validade, indicados por um "V" e, em seguida, do lote, indicada por um "L".

O que fazer com a cerveja?

A Secretaria de Saúde de Belo Horizonte se colocou à disposição para receber cervejas do lote contaminado em nove endereços da capital mineira. A secretaria recebe somente o produto trazido por consumidores da cidade.

A Backer também criou um serviço para recolher as garrafas nas casas dos consumidores. Os pedidos devem ser feitos pelo telefone (31) 9 9536 4042. Questionada sobre a abrangência do serviço pelo UOL, a Backer não respondeu.

Ressarcimento

Em Belo Horizonte, o Procon de Minas Gerais anunciou que quem comprou as cervejas dos lotes contaminados terá direito a ressarcimento e que a cervejaria Backer pode ser acionada na Justiça.

Executiva pede para consumidores não beberem cerveja

Na terça-feira (14), a diretora de marketing da cervejaria Backer, Ana Paula Lebbos, pediu que consumidores não bebam a cerveja Belorizontina, independentemente do lote. O alerta vale também para a marca Capixaba, nome dado à mesma cerveja no Espírito Santo.

"O que quero agora é que não bebam a Belorizontina, qualquer que sejam os lotes, por favor. Quero que meu cliente seja protegido. Não beba Belorizontina. Não sei o que está acontecendo", disse.

A Backer estruturou uma equipe especializada para prestar assistência e fornecer o apoio necessário aos pacientes e seus familiares. O canal para esse contato direto é o telefone (31) 3228-8859, das 8h às 17h.

A cervejaria Backer nasceu produzindo chope para casas noturnas e é a maior produtora de cerveja artesanal do Brasil. Diversos produtos da marca, que conta também com um restaurante na Serra do Curral, em Belo Horizonte, já foram premiados internacionalmente.

Justiça libera produção parcial

A Justiça Federal em Minas Gerais autorizou na quinta-feira (17), liminarmente (de forma provisória), a cervejaria Backer a retomar parcialmente a produção da bebida, engarrafando cerveja de lotes não contaminados por substâncias tóxicas. A medida, porém, mantém a decisão de não permitir a comercialização de produtos da marca.

Comerciantes não podem vender

Em nota, o MP-MG (Ministério Público de Minas Gerais) informou que comerciantes não devem fornecer nem comercializar nenhuma cerveja produzida pela Backer. A decisão ocorreu após reunião realizada na sede do Procon.

A determinação é de que os produtos fiquem separados, devidamente identificados e sob a guarda do responsável pelo estabelecimento até a conclusão das investigações. Além disso, em hipótese alguma, esses produtos poderão ser descartados, seja no lixo comum ou em qualquer outro local.

*Com Carlos Eduardo Cherem, colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

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