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Desaparecimento após abordagem da PM em SP completa 2 meses; pai desabafa

Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, desaparecido após abordagem feita por policiais militares em Jundiaí (SP) - Arquivo pessoal
Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, desaparecido após abordagem feita por policiais militares em Jundiaí (SP) Imagem: Arquivo pessoal

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

27/02/2020 13h51

Resumo da notícia

  • Jovem foi visto pela última vez sendo levado por PMs em 27 de dezembro de 2019
  • Pai chora: "São 2 meses, não são 2 dias. São 2 meses sem resposta nenhuma"
  • Suspeita é de que houve um "desaparecimento forçado"; MP acha difícil a localização
  • 3 PMs suspeitos estão afastados; sem depoimentos de testemunhas, eles seguem livres

Hoje completa dois meses que Carlos Eduardo dos Santos Nascimento, 20, foi visto pela última vez, ao ser abordado por policiais militares à luz do dia e ser colocado dentro de um carro da PM, em Jundiaí, no interior de São Paulo. Desde o sumiço do rapaz, a família continua angustiada, a espera de respostas que nunca vieram. A localização dele é incerta desde então.

Três PMs identificados como os autores da abordagem, feita em frente a um bar, em um bairro periférico da cidade, foram interrogados e estão afastados do serviço operacional. Eles negam que tenham participação no desaparecimento de Carlos Eduardo.

O jovem, negro, estava no local com outros quatro amigos, brancos. Todos os amigos foram liberados.

Com medo de represálias, testemunhas não depuseram contra os PMs. Isso, segundo a Polícia Civil e o MP (Ministério Público), atrapalhou as investigações. Para o pai, com medo de morrer, os quatro amigos abordados não se dispuseram a ir com a família à delegacia denunciar o caso

Contra os PMs suspeitos não há nenhuma prova concreta, já que não há imagens nítidas que mostrem Carlos Eduardo sendo colocado no carro da corporação. E, sem a identificação de quem sumiu com o jovem, a localização dele também fica prejudicada, já que não há indicações de onde ele possa estar.

Enquanto as polícias e a Promotoria tentam esclarecer o crime, uma família inteira aguarda por respostas.

"Hoje está fazendo dois meses do desaparecimento do meu filho. Até agora, a gente não teve resposta nenhuma. A gente não está tendo informação nenhuma da polícia, sabe? Corregedoria não entrou em contato com a gente. A gente está aqui, a gente está desesperado. Sabe? Tá difícil. Tá difícil", conta o pai, o segurança Eduardo Aparecido do Nascimento, 50, com a voz embargada.

A gente não sabe mais onde procurar. A gente não tem nem noção da onde procurar mais. Tá supercomplicado. Sinceramente, a gente não sabe mais onde correr. Cada dia que passa, está ficando mais difícil. São dois meses, não são dois dias. São dois meses sem resposta nenhuma.
Eduardo Aparecido do Nascimento, pai de Carlos Eduardo

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Investigação

O Ministério Público está acompanhando as investigações e diz considerar "difícil" encontrar o rapaz, uma vez que, passados dois meses, ainda não há elementos fortes o suficiente sobre seu paradeiro.

Polícia Civil e Corregedoria chegaram aos PMs suspeitos por uma imagem que mostrava um carro policial, do 49º batalhão, de Jundiaí, parado na frente do bar onde Carlos Eduardo foi visto pela última vez. O rapaz tinha ido ao local, às 17h de 27 de dezembro, para confraternizar o fim do ano passado com os quatro amigos brancos.

Relatório da própria PM apontou que houve a abordagem. Os policiais anotaram que abordaram os quatro amigos de Eduardo, escrevendo os nomes deles, mas não colocaram o nome de Carlos Eduardo.

"Quando a gente pergunta sobre a investigação, a resposta que temos é que tudo está em segredo de Justiça. Não sabemos nada sobre o que estão fazendo para tentar achar meu filho", disse o pai do jovem.

Suspeita de desaparecimento forçado

A principal suspeita da Polícia Civil e da Corregedoria da PM, que investigam o caso, é que três policiais do 49º BPM (Batalhão da Polícia Militar) sejam responsáveis pelo desaparecimento do rapaz. Um chamado "desaparecimento forçado". A investigação tenta descobrir o porquê.

O Corpo de Bombeiros foi mobilizado para tentar ajudar a encontrar o rapaz, após cães farejadores da PM terem indicado o cheiro de Carlos Eduardo em uma mata de Jarinu, a 35 quilômetros de distância do local onde ele foi visto pela última vez. A suspeita da Polícia Civil é que nesse local os PMs podem ter parado a viatura com o jovem.

Para o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), ocorreu um "desaparecimento forçado" e uma "grave violação de direitos humanos". Além do órgão, que é do governo paulista, entidades de direitos humanos e a ouvidora da polícia cobram elucidação do caso.

Por meio de nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que "todas as circunstâncias relativas ao caso são apuradas pela DIG de Jundiaí e pelo 49º Batalhão de Polícia Militar do município".

"A Corregedoria da PM acompanha o caso e, juntamente com equipes da área, realiza buscas pela região, com o apoio de canil da PM e do Corpo de Bombeiros. Os policiais envolvidos na ocorrência permanecem afastados", afirmou a pasta.

Mesmo após o desaparecimento do filho, o pai afirma que não se pode culpar toda a corporação por um possível erro. "Aqui na cidade de Jundiaí, eu nunca ouvi algo parecido. Se realmente a polícia fez algo de errado contra meu filho, todo lugar tem maçãs podres. A única coisa que quero é encontrar meu filho", afirmou.

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